sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Como lidar com quem tem perda auditiva


Quando era mais nova, tinha muita vontade de aprender a língua de sinais. Achava fascinante ver aquelas pessoas se comunicarem tão bem com as mãos. Mas o tempo passou e acabei não aprendendo.
A maioria de nós não sabe muito bem como se comunicar com pessoas que sofrem de perda auditiva. Eis algumas dicas do que NÃO fazer para você e eu nos comunicarmos melhor com quem não escuta bem:
Não grite
Fale com voz normal e articule as palavras o melhor possível. Berrar não ajuda quem tem perda auditiva a escutar mais. Exceção: se sua voz é muito baixa, fale um pouco mais alto.
Não fale junto ao ouvido
Quase todo mundo com perda auditiva faz leitura labial. Não fale perto do ouvido porque assim a pessoa não conseguirá ler seus lábios.
Não deixe de eliminar o ruído branco
A maioria dos que têm perda auditiva sente dificuldade em identificar o que você está falando quando o ar-condicionado faz barulho ou há outro ruído constante no ambiente. Não tente conversar com a TV ligada.
Não converse com todos ao mesmo tempo
Numa festa ou reunião, tente manter uma conversa só com a pessoa em vez de várias simultâneas.
Não diga “deixe para lá, não era nada importante
Se alguém não entendeu o que você disse depois de repetir duas ou três vezes, não desista. Mude a frase e tente de novo. Para quem não consegue escutar, tudo importa.

R. M.
Seleções

ilustração: internet

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

É preciso agir

        Primeiro levaram os negros,

        Mas não me importei com isso. Eu não era negro.

        Em seguida levaram alguns operários,

        Mas não me importei com isso. Eu também não era operário.

        Depois prenderam os miseráveis,

        Mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável.

        Depois agarraram alguns desempregados,

        Mas como eu tenho um emprego, também não me importei.

        Agora... Agora estão me levando.

        Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.

        
O poema grave é de Bertolt Brecht, influente dramaturgo e poeta alemão do século XX.

        A questão gravíssima é do ser humano, desnudado em linhas poéticas, exposto pelo pensador que aqui nos convida a refletir sobre a indiferença.

        A vida individualista, que prioriza o eu em detrimento do outro, apresenta-se como um dos problemas mais sérios da atualidade humana.

        O egoísmo, a cobiça, o medo, transformaram grande parte dos seres em autômatos ilhados.

        Autômatos, sim, pois evitam pensar, refletir, ponderar, em nome de uma falsa falta de tempo.

        Autômatos que se plugam na tomada pela manhã, e se desplugam à noite, sem terem realmente estado presentes em seus dias, em suas próprias vidas.

        Ilhados também, pois se isolam das pessoas, do contato humano.

        Não se pode mais confiar em ninguém, não se pode mais contar com ninguém. Todos são suspeitos... – afirmam alguns.

        Ilhados, usam das tecnologias do mundo moderno, que visam apenas auxiliar o homem em suas tarefas, para manterem uma distância segura do Mundo.

        E o virtual parece ser mais seguro, mas fácil que o real... Enganamo-nos em nome de uma suposta segurança.

        Assim deixamos de nos importar com os outros, vivendo um constante salve-se quem puder, como se o desespero fosse grande auxílio.

        E quanto mais nos afastamos, mais difícil é a volta.

        Amizades que deixamos de cultivar na infância, na juventude, hoje fazem falta a muitos homens e mulheres, vítimas de transtornos psicológicos, como a depressão.

        Relacionamentos familiares fortes, envolvendo cumplicidade e carinho, no futuro nos farão falta, pois quando precisarmos nos abrir, desabafar, perceberemos que não temos intimidade com ninguém para tal.

        É preciso agir. Agir enquanto há tempo.

        Será tão difícil dar atenção, se importar com aqueles que estão ao nosso redor?

        Será tão difícil romper esta barreira da indiferença, e perguntar: Como você está? – realmente desejando saber como anda a vida do outro?

        O Mundo não sou eu mas os outros. O Mundo somos nós.

        Estamos todos expostos ao mesmo tipo de experiências, às mesmas provações, aos mesmos aprendizados.

        É preciso agir. É preciso se importar mais.


Redação do Momento Espírita com base em poema de Bertolt Brecht 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Não estregue a festa, estupido!

O país da Copa é grande e bobo. "Esta será a Copa das Copas", disse a presidente, de boca cheia, na cerimônia de sorteio dos grupos. No país dela, que é o nosso, ninguém circula nas cidades travadas, nas estradas paralisadas, nos aeroportos congestionados -mas 12 arenas superfaturadas, em recordistas 12 sedes, receberão a mais cara das Copas. Do enclave do Sauípe, uma bolha segura, esparramou-se pelo mundo a linguagem do verde-amarelismo balofo. No país da Copa, um governo "popular" e "de esquerda" reverbera, tanto tempo depois, as frases e os tiques do general-presidente que gostava de futebol. Há um cheiro de queimado no ar.

"O Brasil está muito feliz em receber todos nesta Copa porque somos um povo alegre e acolhedor." Violência é a palavra da hora -e ela surge em curiosas associações com a "Copa das Copas". A barbárie das torcidas do Atlético Paranaense e do Vasco não foi deplorada por seus significados intrínsecos, mas pelas mensagens que supostamente envia ao mundo. Gaiatos da política, do marketing e do colunismo ensaiaram uma sentença que menciona a violência "dentro e fora dos estádios". É senha, com endereço certo: no saco fundo, cabem tanto os torcedores selvagens e os sumidos black blocs quanto manifestantes pacíficos mas indignados com a "Copa das Copas". O pau vai comer.

"Não repara a bagunça" -o dístico popular nacional, candidato eterno, e perfeito, a substituir o "Ordem e Progresso" no núcleo de nossa bandeira, trai o medo da vergonha. Joseph Blatter entendeu e traduziu, chamando-nos a congelar a indignação, sublimar as insatisfações, colocar entre parêntesis as divisões. A unidade em torno de um bem maior, que é a imagem do país diante do planeta que nos vê: eis a gramática do discurso político sugerida pelo chefão da potência ocupante. No país da Copa, a convocação à unidade já foi integrada ao discurso da publicidade. Será repetida à exaustão, como uma ladainha, até o apito final. Não estrague a festa, estúpido!

"Será uma Copa para ninguém esquecer", jactou-se a presidente, formulando uma ameaça involuntária. A partir do Gabinete de Segurança Institucional, estrutura-se uma operação de guerra que abrange as três forças em armas e um desdobrado aparato cibernético. Nas telas dos computadores do sistema de vigilância, cada arena figura como ponto focal de um envelope tridimensional de segurança. Nas ruas, o controle físico do perímetro das arenas, a cargo das PMs, terá a missão de proteger as marcas dos patrocinadores oficiais da ameaça simbólica representada pela presença de manifestantes. Jamais, em tempo algum, o Estado serviu tão direta e exclusivamente a interesses privados. Não: ninguém esquecerá.

O país da Copa não se respeita. Ontem, o partido do governo celebrou políticos condenados por corrupção -e, sob o silêncio cúmplice do presidente de facto e da presidente de direito, achincalhou um STF composto por juízes que eles mesmos indicaram. O país da Copa perdeu o autorrespeito. Os líderes governistas manobram para o Congresso não ouvir um ex-secretário nacional de Justiça que acusa o governo ao qual serviu de operar uma fábrica de dossiês contra adversários políticos. O país da Copa perdeu o respeito. As lideranças do PSDB preferem empregar táticas diversionistas vexatórias a colher assinaturas para uma CPI destinada a investigar todos os contratos estaduais e federais firmados com a Siemens. Yes, nós gostamos de futebol.
No vale-tudo da nova ordem do racialismo, perdemos, ademais, um senso básico de decoro: eu li -aqui mesmo, não nas catacumbas da internet!- que Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert formaram "um casal mais parecido com representantes de afrikâners". Cores, rancores. No país da Copa, nativos felizes, contentes, de bunda de fora, tocavam caxirola. 

Foi bonita a festa, pá -pena que nem começou.


Demétrio Magnoli.
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