terça-feira, 24 de setembro de 2013

Apelo




Paulo Bomfim
...Mas deixa-me poetar
Em nome dos que não sonham,
Dos que calçam desespero
Em percursos cotidianos,
Dos que cruzam confluências
Com pára-brisas de tédio,
Dos fugitivos dos bares,
Dos vencidos que se amam,
Dos inocentes que esperam.
...Mas deixa-me poetar
Neste esvair sem sentido
Com palavras indomadas,
Ou com vocábulos mansos.
- Que eu cante a vida que passa
E os destinos sem destino
- Que eu cubra de redondilhas
As damas da madrugada,
E meus versos sejam potros
Onde as crianças galopem,
Lona de circo estelante
Vestindo a fome do mundo,
Valsa-brisa em realejo
Na esquina dos desencontros.
Sei da lógica das máquinas,
Das avenidas neuróticas,
Do roubo das alvoradas
E dos anjos que se matam.
Sou feito de tudo e nada.
...Mas deixa-me poetar.

Extraído de: Poemas Escolhidos
Ilustração: freepik  

domingo, 22 de setembro de 2013

A janela


Paulo Bomfim


Na parede do mundo abre-se a janela:
Somos paisagem.


O olhar cruzou as fronteiras do vidro:
Somos estrangeiros.


A alma navega em barcos de luz:
Somos naufrágio.


Pássaros flutuam na manhã cobalto:
Somos cantiga.


Surge a lua nova em nossa lucidez:
Somos transparência.


Nas paredes do mundo fecha-se a janela:
Somos a viagem.



extraído de : Poemas Escolhidos
ilustração: freepik 
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