terça-feira, 30 de abril de 2013

Bengaladas



Longe de mim estimular a violência no País, mas pensei o seguinte: deveria haver uma lei que permitisse a cada cidadão, ao chegar a determinada idade - digamos 70 anos - usar sua bengala contra quem quisesse, sem o risco de retaliação, reprimenda ou processo. É claro que haveria uma regulamentação. 

O cidadão não poderia simplesmente sair a dar bengaladas indiscriminadas.

Teria uma cota anual de bengaladas livres que, se ultrapassada, aí sim lhe traria conseqüências legais. Dentro da sua cota ele poderia bater em quem quisesse sem ser responsabilizado e sem ter nem que explicar por que batia. Mas se excedesse a cota permitida teria sua bengala confiscada.

Os critérios para bater seriam subjetivos: velhos desafetos e implicâncias, indignações passageiras, diferenças artísticas, políticas ou monetárias, ou a convicção que mesmo sem uma razão definível algumas pessoas pedem bengaladas, é ou não é? Os cidadãos poderiam negociar suas cotas: quem já tivesse esgotado as suas mas ainda precisasse dar algumas boas bengaladas compraria cotas de outro, menos ativo. Teria que ser encontrada uma maneira de evitar bengaladas em bando, vários cidadãos irados se reunindo para bater num só. E casos de reincidência doméstica: velhos casais gastando suas cotas dando bengaladas um no outro o ano inteiro, só variando para acertar, por exemplo, um cunhado.

Acabaria o problema do que dar para pessoas de 70 anos no seu aniversário ou no Natal, além de meias e caixinhas de remédio. Bengalas! Com uma licença oficial para usá-las à vontade, dentro das regras estabelecidas e do bom senso, e com um habeas-corpus preventivo para o caso de algum excesso de iniciante. Alguém às vésperas de fazer 70 anos mal poderia esperar para, finalmente, pôr as mãos numa bengala e numa licença para bater. Muitos já teriam uma lista de prioridades pronta para quando começassem a dar bengaladas - e treinado bengaladas certeiras em segredo, para não perder tempo quando começassem. É difícil que a minha idéia pegue, mas, por via das dúvidas, leitor, faça desde já a sua lista: em quem você bateria se tivesse a sua bengala e a certeza da impunidade? Na minha lista já tem 17.

Luíz Fernando Veríssimo
O Estado 08/12/2005
ilustração: freepik

domingo, 28 de abril de 2013

Ataques e vazamentos de informações por redes sociais


É fato: a maioria das pessoas que têm perfil em uma rede social sofre de “síndrome de celebridade”. Não amigo, você não é uma celebridade, e quantidade não é sinônimo de qualidade. A verdade é que, para as grandes corporações do ramo, o que importa é a quantidade. Você não é um usuário que utiliza os seus serviços, você é o produto destas empresas e está em uma prateleira. E se você é um produto, existe um grandemercado para as suas informações.

O maior propósito das redes sociais (enquanto empresas) é utilizar os seus dados para obter lucro: operadoras de crédito e bancos querem entender o seu comportamento, governos querem os seus dados para manter sua rastreabilidade… Essas instituições querem entender quem você é, o que você faz, onde está e com quem se relaciona, para oferecer a melhor oferta de serviços e produtos, e você comprar.

A sociedade em geral não tem a preocupação com relação a sua privacidade, e isto é um fenômeno social e estimulado economicamente. É difícil racionalizar desta forma? Então imagine: se você pudesse ter em mãos, todos os dias, informações pessoais constantemente atualizadas de uma população, de um estado, de um país ou de um continente, você poderia lucrar com isto? Sim! Informação é poder, e poder gerar lucro. Mas se as empresas ganham dinheiro com seus dados, o crime organizado também quer sua parte, e é neste ponto que eu quero chegar, para alertas os usuários corporativos.

Fatores como a velocidade de propagação de informações pessoais e o fácil acesso à elas ajudam o crime organizado a realizar fraudes através de roubo de identidade e coleta de informações, para realizarem assaltos e sequestros, propagar códigos maliciosos para obter acesso indevido a computadores, realizar ataques e envio de spams, que por si só, é um mercado, que também utiliza as redes sociais e seus produtos para alcançarem seus objetivos de negócio.

É importante lembrar que a maioria destes serviços não são hospedados no Brasil e não são regulados pela jurisdição brasileira. Ou seja, as nossas leis não se aplicam a estes serviços em sua totalidade e é extremamente difícil rastrear golpes e ataques direcionados realizados através das redes sociais. Um processo de investigação deste tipo pode levar anos para chegar a uma conclusão – a não ser que você seja do governo dos USA.

Em uma inocente postagem em uma rede social, acidentalmente pode-se fornecer informações sobre o nosso trabalho, disponibilizando dados importantes aos criminosos ou concorrentes da empresa que você trabalha. A grande realidade é que a síndrome de celebridade nos torna cada vez mais suscetível a não distinguir corretamente assuntos pessoais de assuntos profissionais e acabamos por expor estas informações valiosas publicamente. Outro dia uma executiva postou em seu Twitter que ficaria até mais tarde no escritório por conta de uma licitação. Apenas desconsiderou o fato que um de seus seguidores era da concorrência. O resultado você pode imaginar qual foi.

A regra mais simples de todas é lembrar que você pode controlar os seus dados, mas não as pessoas que têm acesso as suas informações. Poucas pessoas utilizam todas as funcionalidades de privacidade que as empresas deste ramo oferecem para manter um perfil restrito, e mesmo assim, usar estes recursos não fornece a garantia de que seus dados não foram indexados pelo Google (ou outra ferramenta de busca), ou foram divulgados por amigos sem a sua autorização. Quer fazer um teste? Digite o seu nome completo no Google e analise o que irá aparecer.

Outra coisa que as pessoas têm que entender é sobre causa e efeito. Se você recebe spams, foi porque você mesmo que forneceu de algum modo o seu correio eletrônico ao Spanner. Ele não adivinhou o seu e-mail, ele simplesmente obteve (Data Mining) o que você forneceu e armazenou na rede pública – leia-se Internet.

É extremamente comum as pessoas divulgarem o correio eletrônico empresarial em redes sociais. Mas, se o correio eletrônico da sua empresa não é seu, ele pertence à empresa e não deveria ser divulgado nestes meios de comunicação sem autorização da mesma.  E depois que ler isto, não vá reclamar com o pessoal de TI da sua empresa que está recebendo Spams. A culpa não é deles, é sua!

Um grande exemplo disto foi o senso realizado em 2012 no Facebook. A pesquisa revelou que 83 Milhões de perfis eram falsos (quase 10% – hoje o Facebook possui 900 milhões de usuários), e a maioria era utilizada para engenharia social no intuito de obter informações restritas. E o que foi mais alarmante é que 1% destes 83 milhões eram perfis utilizados por softwares maliciosos.

Então, caro amigo, tenha em mente que mesmo que existam diferentes tipos de políticas de privacidade, as redes sociais são locais públicos, e como tal, são associadas a riscos.  Sempre se questione antes de postar algo – eu colocaria estas informações em um poste na minha rua? Se a resposta for “não”, não publique. Sempre pense em situações da vida real, e se realmente quer divulgar uma informação pessoal em uma rede social, analise as consequências que isto pode acarretar.

Wander Menezes
Fonte: Adnews
ilustração: internet

domingo, 14 de abril de 2013

Em 90% dos casos TOC surge com outros distúrbios psiquiátricos



Especialistas em transtorno obsessivo-compulsivo brasileiros analisam a maior amostra de pacientes do mundo em busca de novos tratamentos contra o mal. Uma das constatações é de que em mais de 90% dos casos o TOC surge com outros distúrbios psiquiátricos

Marcela Ulhoa                                                                                                                                                                          Correio Braziliense 14/4/2013



Lavar as mãos o tempo todo, escovar os dentes incansavelmente, contar azulejos a cada passo, ser tomado pela mania de limpeza e de organização, ou desenvolver o vício de colecionar todos os tipos de objetos podem ser rituais indicativos do transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC. Os portadores do distúrbio são acometidos por um padrão de pensamentos e comportamentos repetitivos, sem sentido lógico, desagradáveis e extremamente difíceis de evitar. “O TOC é um transtorno subdiagnosticado porque as pessoas ou ficam com vergonha de procurar ajuda ou não reconhecem que aquilo é algo patológico”, explica Marcelo Queiroz Hoexter, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Em um esforço inédito para a psiquiatria, especialistas em TOC integrantes do Consórcio Brasileiro de Pesquisa em Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (C-TOC) reuniram a maior amostra de pacientes com o distúrbio já realizada no mundo. O levantamento envolve entrevistas minuciosas de duração média de quatro horas, feitas com 1.001 pessoas com TOC e atendidas em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Pernambuco, na Bahia e no Rio Grande do Sul. O intuito é compreender melhor a origem do problema e desenvolver formas de tratamento cada vez mais eficazes. Os resultados iniciais foram publicados na última edição da Revista Fapesp.

A partir da análise das informações coletadas, os pesquisadores constataram que o TOC raramente é um problema que aparece sozinho. Segundo a pesquisa, apenas 8% das pessoas estudadas apresentam exclusivamente sintomas de obsessão e compulsão. Na maioria dos casos, o problema surge acompanhado de pelo menos um distúrbio psiquiátrico ao longo da vida. O mais recorrente foi a depressão, aparecendo em 68% dos participantes. Em segundo lugar, apareceram os transtornos de ansiedade, acometendo 63% dos pacientes. E quase 35% apresentavam sinais de fobia social.

De acordo com Marcelo Queiroz Hoexter, um dos pesquisadores do C-TOC, as comorbidades já eram conhecidas, mas essa foi a primeira vez que foi realizado um levantamento extenso a respeito. As constatações dão valiosas pistas do por que nem sempre os tratamentos funcionam em casos mais graves. As duas formas de tratamento internacionalmente recomendadas para amenizar os sintomas de TOC são a terapia cognitivo-comportamental e o uso de antidepressivos. Em alguns países, como nos Estados Unidos, há a alternativa da neurocirurgia para pacientes refratários, casos em que nenhuma das duas formas mais brandas surtem efeito.

Acompanhamento

Uma das linhas de pesquisa que integra os esforços dos pesquisadores brasileiros está justamente na compreensão das respostas de intervenções terapêuticas. Ao acompanhar 158 pessoas com TOC por um período de dois anos, a pesquisadora da USP Roseli Shavitt pôde observar que, para os casos leves e moderados, o resultado do tratamento com medicação é semelhante ao efeito da psicoterapia. “Desde que seja um tratamento de primeira linha, o mais importante não é o tipo escolhido, mas mantê-lo por um prazo mais longo”, defende Shavitt. Inicialmente, os dois tratamentos são igualmente eficazes, mas precisam de uma continuidade para que o efeito positivo seja observado. Segundo a pesquisadora, o tratamento para TOC não é imediato, é comum que dure a vida toda.

Ainda sobre as respostas terapêuticas, Hoexter desenvolveu uma análise diferente e complementar à conduzida por Shavitt. Seguindo uma linha neurobiológica do transtorno, o pesquisador usou a técnica de ressonância magnética estrutural para fotografar e mapear a ação dos antidepressivos e da terapia cognitivo-comportamental no cérebro. A constatação final é de que os dois tratamentos modificam não só o funcionamento, mas a estrutura de algumas regiões cerebrais de pessoas com TOC. “Sabíamos que as duas modalidades de tratamento têm respostas muito parecidas e são igualmente eficientes, mas não entendíamos como essas intervenções mudam o cérebro, ou seja, qual é o mecanismo biológico por trás disso”, ressalta Hoexter.

Segundo o pesquisador, pelos exames de neuroimagem, também foi possível perceber que o TOC induz um aumento de consumo de energia em uma região do córtex-frontal. Após a administração de antidepressivos nos pacientes ou submetê-los à terapia cognitivo-comportamental, os médicos constataram a diminuição da hiperatividade dessa região do cérebro. Entretanto, faltavam ainda estudos que avaliassem e comparassem o tamanho das estruturas cerebrais antes e depois do tratamento. Foi o que a equipe de Hoexter se propôs a fazer. “Pegamos uma amostra de pacientes com TOC que nunca tinham sido submetidos a nenhum tratamento e fizemos um exame de ressonância magnética do crânio antes de iniciar os procedimentos. Medimos uma série de volumes de diversas estruturas cerebrais”, conta o pesquisador.

Os cientistas, então, dividiram aleatoriamente os pacientes. Uma parte recebeu o antidepressivo fluoxetina e a outra foi submetida à terapia cognitivo-comportamental. Depois de 12 semanas, os voluntários passaram novamente pelo exame de ressonância magnética. Os cientistas compararam as medidas cerebrais antes e depois do tratamento. “A gente observou que tanto os pacientes que tomaram a fluoxetina quanto os que foram para a terapia apresentaram uma melhora muito similar do sintoma, a diferença é que aqueles que tomaram antidepressivo apresentaram um aumento do volume do putâmen, uma estrutura cerebral profunda que está muito implicada na patologia do TOC.”

Com isso, surge a hipótese de que a administração do medicamento provoca um aumento da plasticidade da região, que passa a ser mais eficiente na comunicação com o restante do cérebro, apresentando um aumento das conexões dos neurônios. Já os pacientes submetidos à terapia não mudaram a estrutura cerebral, apesar de terem melhorado os sintomas. “O resultado sugere que, apesar dos dois (tratamentos) serem eficazes, o mecanismo de ação no cérebro é diferente. Provavelmente, a terapia mexe em outras áreas que não fomos capazes de detectar ainda”, pondera Hoexter.

''O TOC é um transtorno subdiagnosticado porque as pessoas ou ficam com vergonha de procurar ajuda ou não reconhecem que aquilo é algo patológico”

Marcelo Queiroz Hoexter, psiquiatra da USP

Depoimento

Excessos já na infância

Eu tinha 27 anos quando um episódio me marcou tanto que resolvi pedir ajuda. Eu estava dirigindo, voltando para casa de um churrasco no sábado. Durante o percurso, achei que tinha atropelado uma pessoa. Aquilo me deu uma ansiedade muito grande, eu caí na dúvida, na culpa e comecei a voltar pelos lugares em que eu tinha passado. Olhava o carro e não tinha marca. Fiquei quase uma semana sem dormir. Eu ia de carro para o trabalho, mas pegava um farol amarelo e já era motivo de muita tensão. Toda vez que saía de carro era muito estressante. Eu tinha várias outras manias, mas não me incomodavam muito. Depois de três meses desse episódio, eu estava passando de carro em uma ponte em São Paulo e fiquei durante três horas subindo e descendo a ponte. Foi quando eu falei para mim mesmo que estava ficando maluco e precisava de ajuda.

Fui atrás de uma terapeuta e descobri que esse problema vinha desde a infância. Os meus primeiros TOCs eram ligados à organização e à higiene. Eu escovava os dentes de 20 a 25 vezes por dia porque tinha a impressão de que ia ter cárie. Tinha o hábito de acumular jornais, moedas, relógios, caixas de cigarro. Eu era acumulador, não conseguia me desfazer de nada. Quando eu fui diagnosticado, em 2007, logo depois conheci a Astoc (Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo) e descobri que não estava sozinho. A minha primeira melhora foi próxima ao Natal: eu cheguei em casa e me desfiz de todas as coisas que tinha guardado durante anos. Eu já tinha tido síndrome do pânico em 2001 e passado por uma depressão em 2002, só que o TOC me ocupava e eu não tinha noção disso. O TOC é uma doença silenciosa, você sofre, mas não compartilha com ninguém. Hoje, digo que estou superbem, faço terapia, tomo antidepressivo e sempre vou aos grupos de apoio. O ser humano é curado pela fala, faz bem para mim dar depoimento para o jornal. As pessoas se escondem, é difícil assumir, mas faz bem.

Caio Wilmers Manço, 35 anos, morador de São Paulo. 

Ilustração: Correio Braziliense

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Falar sem dizer nada


Somos muito redundantes. Repetimos, obcecados, as mesmas idéias que já formulamos. Na mesma frase acumulamos informações superpostas, congestionando o trânsito verbal. Empilhamos uma em cima da outra (e seria possível empilhar de outra forma?) as palavras dessa torre de babel. Perdemos tempo (nosso e alheio) empregando demasiado tempo para dizer que o tempo não se pode perder. Acrescentando ao dito o que, não-dito, melhor seria não dizer.

Quando eu chovo, chovo no molhado, o que provoca uma enchente de idéias inúteis. O velho subir para cima. O mais velho ainda descer para baixo. Um escritor anuncia na entrevista: "Estou escrevendo a minha autobiografia." Maior feito literário seria escrever a autobiografia de uma outra pessoa.

O político afirma no discurso: "Não há outra alternativa!" Mau sinal!... Por que mencionar esta outra, uma vez que alternativa significa justamente outra opção? O garçom comunica: "Servimos canja de galinha." A canja só pode ser de galinha, a menos que falte galinha nessa canja. O médico pontifica: "O terçol nos olhos é um problema corriqueiro." Então por que não deixar a palestra para o dia em que o terçol afetar outros órgãos?

A socióloga debate: "O elo de ligação que une essas pessoas..." O historiador observa: "Os faraós do Egito..." O economista analisa: "Os preços aumentaram mais..." A professora interpreta: "O principal protagonista do romance..." O cantor canta: "Detalhes tão pequenos..." Alguém, cansado de tanta redundância, diz: "Precisamos encarar de frente esse problema da redundância!" Se fôssemos encarar de costas seria um senhor torcicolo!

G.P.
Seleções nov/01
Related Posts with Thumbnails