quarta-feira, 27 de março de 2013

Coceira contagiosa


Suzana Herculano-Houzel,  neurocientista
e professora da UFRJ.
 
Quase escrevi esta coluna sobre bocejo, mas acabei torcendo o nariz para o artigo que tinha me chamado a atenção --não sem antes bocejar uma boa dezena de vezes só de ler a palavra "bocejo" várias vezes seguidas.

Folheando o meu reservatório de artigos interessantes, deparei-me com um sobre outro comportamento contagioso: a coceira.

E não deu outra: ao final do primeiro parágrafo eu já estava sentindo uma necessidade incrível de coçar a cabeça, o rosto, a coxa, depois a outra perna... Como você, leitor, que já deve estar com alguma coceira pelo corpo.

Por que a coceira é contagiosa? Um grupo do Reino Unido se interessou pela questão e convidou 51 jovens a assistir, de dentro do tubo de um aparelho de ressonância magnética, a vídeos de pessoas coçando o braço ou tamborilando os dedos no braço, sem coçá-lo.

A diferença entre as duas imagens é pequena, mas o efeito é grande: a vontade de se coçar fica em média duas vezes maior após a pessoa ver alguém se coçando.

O cérebro explica. Assistir a alguém se coçando ativa as estruturas principais do "complexo da coceira", que são aquelas estruturas acionadas quando há de fato algo na pele provocando prurido, como histamina: o córtex, que representa as sensações da pele; o córtex pré-motor, que organiza movimentos; e o córtex da ínsula, que representa sensações fisiológicas do corpo. E tudo isso na ausência de qualquer modificação real na pele.

Ou seja: veja alguém se coçar e seu cérebro reagirá como se você de fato precisasse dar uma coçadinha também, com direito à sensação da coceira, ao incômodo associado e à preparação motora. Tudo por pura imitação.

E, quanto mais forte for a ativação do córtex pré-motor, que prepara a ação de se coçar e contém os "neurônios-espelho" que refletem em nosso cérebro as ações alheias, mais forte é a "necessidade" de você também se coçar.

A coceira é ainda mais contagiosa em algumas pessoas. No estudo inglês, a coceira sugestionada de alguns voluntários era até cinco vezes mais forte do que a dos outros. Esses mais sugestionáveis tendem a ser os voluntários com maior grau de neuroticismo, que é a tendência a emoções negativas.

Quanto maior o neuroticismo, maior a ativação do córtex pré-motor e maior a necessidade de se coçar --sem a menor necessidade.

Só mudando de assunto é que a coceira passa. Ainda bem que a coluna acabou!
 
Fonte: Folha de São Paulo 26/3
Foto:  Veja

terça-feira, 26 de março de 2013

Como conservar nossos amigos



 
Crescemos ao lado de alguém, convivemos, tornamo-nos amigos inseparáveis.
Então, um dia, motivos profissionais, familiares ou financeiros, nos remetem a outras paragens, muito distantes dos amigos.
Os anos passam, as tarefas se multiplicam, a vida nos envolve com tantas coisas, e o tempo vai se tornando sempre mais curto para os amigos... Tão distantes.
Por isso, algumas dicas podem ser colocadas em prática, a fim de não se perder essa preciosidade que se chama amizade.
Primeiro: marque encontros.
A freqüência com que você poderá fazer isso dependerá de tempo, distância, finanças e muitos outros fatores.
Contudo, se não for possível sempre, procure estar pessoalmente presente ao menos uma vez por ano.
Segundo: invista na empresa de telefonia.
O telefone pode se tornar uma linha viva de comunicação entre amigos que estão longe um do outro.
Hoje, as companhias telefônicas se esmeram em ofertar ao usuário um preço mais acessível que a concorrente.
Aproveite. E pense em sua conta telefônica como um investimento em sua amizade.
Terceiro: use a tecnologia.
Utilize o fax, o computador para enviar mensagens. Mande e.mails, mas não fique copiando e.mails enormes da internet, mensagens de outros.
Não. Escreva você mesmo, com suas palavras. Isso vale muito mais. Seja breve. Se o seu tempo é precioso, o do amigo também é.
Mensagens retiradas da internet são recebidas às dezenas, duplicadas ou triplicadas. Não têm o mesmo valor.
O seu e.mail será único e é isso que importa para a amizade.
Quarto: envie fotos.
Este é um modo excelente do amigo saber como estamos. Faça cópias de fotos suas, em diferentes lugares, em diversas situações e mande, vez ou outra, aos amigos.
Não esqueça de escrever uma notinha no verso. Reconhecer sua letra será sempre emocionante.
Quinto: passem férias juntos.
Encontrem-se em algum lugar, entre as cidades de vocês. Consulte colônia de férias, hotéis, lugares bons e combinem passar uma semana divertindo-se e renovando a amizade.
Coloquem o papo em dia. Recordem bons momentos e produzam outros tantos para recordar, nos dias de separação que tornarão a acontecer.
Sexto: pelo menos diga “oi”.
Se você estiver muito ocupado, atolado em papéis e obrigações, sem tempo para respirar;
Se acha que não tem condições de escrever ou telefonar, mesmo assim separe cinco minutos para escrever num cartão postal “oi, tudo bem?”.
Ou então, apanhe o telefone e pergunte: “tudo bem, aí? Até depois!”
Mantenha as linhas de comunicação abertas.
Sétimo: ore pelos seus amigos.
A oração estabelece linhas de comunicação invisíveis, ao tempo em que, igualmente, estará rogando a proteção dos céus ao amigo que, por vezes, está passando por situação dolorosa.
Ore sempre e com fidelidade. Recomende seus amigos a Deus, aos bons espíritos.
É possível que você não consiga seguir todos esses itens, mas tente, começando ao menos com um deles.
Porque o único meio de conservar um amigo é ser amigo.
Fonte: Livro - Listas para aquecer o coração
foto: freepik

quinta-feira, 21 de março de 2013

Novamente a liberação do aborto


Médicos defendem abortos até a 12ª semana de gestação

"Defendemos o caminho da autonomia da mulher. Precisávamos dizer ao Senado a nossa posição", diz Roberto D'Ávila, presidente do CFM.O anteprojeto, preparado por uma comissão de advogados e especialistas, propôs a ampliação das situações previstas para o aborto legal.Inclui casos de fetos com anomalias incompatíveis com a vida e o aborto até a 12ª semana da gestação por vontade da mulher --neste caso, desde que médico ou psicólogo constate falta de "condições psicológicas".

 
Morte Silenciosa

Maria Helena Marcon


Todos os dias, enquanto nos hospitais e clínicas particulares inúmeros médicos e enfermeiros lutam pela vida dos seus pacientes, muitas outras vidas são destroçadas.

E suas mortes não constam das manchetes retumbantes, nem nos noticiários da televisão. Passam simplesmente anônimas.

Na verdade, poucos são os que se dão conta de que elas ocorrem. Falamos dos seres que não chegaram a nascer e tiveram suas vidas ceifadas, à semelhança de um hábil agricultor, extirpando de seus canteiros a erva daninha.

Bocas são silenciadas antes de se abrir para os primeiros balbucios. Mãos que poderiam acariciar, braços que se preparavam para as trocas dos carinhos foram simplesmente destruídos. Pernas e pés que ainda não se firmaram para andar, correr, saltar, não o farão jamais.

São embriões e fetos, seres vivos, todos os dias jogados à vala da indiferença.

Sim, são muitos os motivos que levam alguém a abortar o fruto das suas entranhas. Desespero, aflição, ignorância, comodismo, problemas financeiros e familiares.

Nada que o justifique, prosseguindo a ser crime perante a lei divina, que, desde os dias do Decálogo, prescreve não matar.

Percebemos que enquanto crescem os movimentos ecológicos, de alerta ao respeito pela natureza, à terra em que vivemos; enquanto os grupos de apoio à fauna e à flora se multiplicam, poucos são os que se erguem para falar em nome desses pequenos seres que têm suas vidas destruídas, antes de vir à luz.

E são seres humanos, com a única diferença de não possuírem ainda um documento de cidadania.

Quando deixaremos de ser tão insensíveis aos problemas alheios e nos envolveremos, batalhando pela vida?

Quantos de nós sabemos das intenções de abortamento de uma amiga, uma colega de trabalho, parente ou familiar e nada fazemos, com a desculpa de que cada qual é dono de sua própria vida?

Para quem sabe e não esclarece, nada faz por evitar o crime, há também culpa por omissão. Quanta vez a criatura que se decide pelo abortamento, o faz porque não encontrou em seu caminho u’a mão que lhe detivesse a tentativa, uma voz que lhe falasse acerca da vida em geração em seu ventre, como um filho de Deus!

Sempre se constituirá em infanticídio o aborto delituoso, mesmo quando aceito e tornado legal nos estatutos humanos. Um covarde processo de que se utilizam uns tantos para fugir à responsabilidade, incorrendo sempre em grave falta.

Se puderes, luta pela vida desses pequeninos! Se, eventualmente, já cometestes o abortamento alguma vez, volta-te para esses outros pequenos que vivem na terra, ao abandono, e ampara um deles. Doa do teu amor porque, bem poderá acontecer que Deus, em sua infinita misericórdia, dessa forma, te permitirá reencontrar o espírito que te estava destinado para filho do coração.

Jornal Mundo Espírita
foto:freepik

terça-feira, 19 de março de 2013

O dia de São José e a seca no nordeste


Buckle, em página notável, assinala a anomalia de se não afeiçoar nunca, o  homem, às calamidades naturais que o rodeiam. Nenhum povo tem mais pavor aos terremotos que o peruano; e no Peru as crianças ao nascerem têm o berço embalado pelas vibrações da terra.

Mas o nosso sertanejo faz exceção à regra. A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estóico. Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível.

Com os escassos recursos das próprias observações e das dos seus maiores, em que ensinamentos práticos se misturam a extravagantes crendices, tem procurado estudar o mal, para o conhecer, suportar e suplantar. Aparelha-se com singular serenidade para a luta. Dous ou três meses antes do solstício de verão, especa e fortalece os muros dos açudes, ou limpa as cacimbas. Faz os roçados e arregoa as estreitas faixas de solo arável à orla dos ribeirões. Está preparado para as plantações ligeiras à vinda das primeiras chuvas.

Procura em seguida desvendar o futuro. Volve o olhar para as alturas, atenta longamente nos quadrantes; e perquire os traços mais fugitivos das paisagens...

Os sintomas do flagelo despontam-lhe, então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as “chuvas do caju” em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, mosqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... Do mesmo passo nota que os dias, estuando logo ao alvorecer, transcorrem abrasantes, à medida que as noites se vão tornando cada vez mais frias. A atmosfera absorve-lhe, com avidez de esponja, o suor na fronte, enquanto a armadura de couro, sem mais a flexibilidade primitiva, se lhe endurece aos ombros, esturrada, rígida, feito uma couraça de bronze. E ao descer das tardes, dia a dia menores e sem crepúsculos, considera, entristecido, nos ares, em bandos, as primeiras aves emigrantes, transvoando a outros climas...

É o prelúdio da sua desgraça.

Vê-o, acentuar-se, num crescendo, até dezembro.

Precautela-se: revista, apreensivo, as malhadas. Percorre os logradouros longos. Procura entre as chapadas que se esterilizam várzeas mais benignas para onde tange os rebanhos. E espera, resignado, o dia 13 daquele mês. Porque em tal data, usança avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando a Providência.

É a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo.

Esta experiência é belíssima. Em que pese ao estigma supersticioso tem base positiva, e é aceitável desde que se considere que dela se colhe a maior ou menor dosagem de vapor d’água nos ares, e, dedutivamente, maiores ou menores probabilidades de depressões barométricas, capazes de atrair o afluxo das chuvas.

Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima, ante os seus piores vaticínios. Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para definitiva consulta aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa ansiosa e no dia de S. José, 19 de março, procura novo augúrio, o último.

Aquele dia é para ele o índice dos meses subsequentes. Retrata-lhe, abreviadas em doze horas, todas as alternativas climáticas vindouras. Se durante ele chove, será chuvoso o inverno; se, ao contrário, o Sol atravessa abrasadoramente o firmamento claro, estão por terra todas as suas esperanças.

A seca é inevitável.
 
Extraído de "Os Sertões" - Euclides da Cunha
foto: wikipédia

domingo, 17 de março de 2013

Eu não lhe prometi um mar de rosas

Meu quintal na encosta do Monte Tamalpais, ao norte da Califórnia, é na verdade um minúsculo prado. Todo ano, no verão e no outono, um veado aparece ali ao nascer e ao pôr-do-sol. Isso é deslumbrante para alguém que cresceu em Manhattan. Este ano seu chifre está com seis pontas. No ano passado, tinha cinco ou talvez quatro. Ele é de tirar o fôlego.
Na verdade, eu não pretendia ter um veado e sim um roseiral. No ano seguinte à minha mudança para cá, plantei 15 roseiras, presentes de amigos.
Foi um trabalho duro, mas eu podia imaginar: igualzinho às da revista "Sunset".
As rosas floresciam depois do auge da primavera, e por um mês o jardim ficava esplêndido. Mas elas começaram a desaparecer. Intrigada, acabei percebendo que algo maior que os pulgões as estavam comendo, e decidi pegá-lo em flagrante. Um dia, acordando ao nascer do sol e  olhando pela janela, fiquei estática, ao ver o veado pela primeira vez. Ele parecia uma ilustração de um livro que tive quando criança. Enquanto eu observava assombrada, ele atravessou o quintal sem pressa, sondou por algum tempo minhas roseiras e depois, delicadamente, comeu uma das minhas Queen Elizabeth.
Desde então, sou obrigada a fazer uma escolha difícil: devo mandar colocar cercas mais altas e ter rosas ou ter um veado a dez metros da minha porta dos fundos? Todo ano, até agora, tenho escolhido o veado. Depois de dois anos olhando um para o outro pela vidraça, eu agora posso sentar-me do lado de fora enquanto ele almoça.
Quando conto isso às pessoas, há quem exclame, incrédulo: "Quer dizer que você está deixando o veado comer suas rosas!". Às vezes, convido uma pessoa dessas para vir à minha casa e assistir a cena. Um amigo, boquiaberto com a visão, disse simplesmente: "Bem, acho que estamos sempre fazendo as coisas certas pelos motivos  errados". Eu pensava estar plantando roseiras a fim de ter rosas. Agora, parece que plantei roseiras a fim de ter meia hora de silêncio com aquele  animal mágico, toda manhã e toda noite. 
(...)
Extraído do livro Histórias que curam - Rachel Naomi Remen
ilustração: freepick  
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