segunda-feira, 8 de abril de 2013

Falar sem dizer nada


Somos muito redundantes. Repetimos, obcecados, as mesmas idéias que já formulamos. Na mesma frase acumulamos informações superpostas, congestionando o trânsito verbal. Empilhamos uma em cima da outra (e seria possível empilhar de outra forma?) as palavras dessa torre de babel. Perdemos tempo (nosso e alheio) empregando demasiado tempo para dizer que o tempo não se pode perder. Acrescentando ao dito o que, não-dito, melhor seria não dizer.

Quando eu chovo, chovo no molhado, o que provoca uma enchente de idéias inúteis. O velho subir para cima. O mais velho ainda descer para baixo. Um escritor anuncia na entrevista: "Estou escrevendo a minha autobiografia." Maior feito literário seria escrever a autobiografia de uma outra pessoa.

O político afirma no discurso: "Não há outra alternativa!" Mau sinal!... Por que mencionar esta outra, uma vez que alternativa significa justamente outra opção? O garçom comunica: "Servimos canja de galinha." A canja só pode ser de galinha, a menos que falte galinha nessa canja. O médico pontifica: "O terçol nos olhos é um problema corriqueiro." Então por que não deixar a palestra para o dia em que o terçol afetar outros órgãos?

A socióloga debate: "O elo de ligação que une essas pessoas..." O historiador observa: "Os faraós do Egito..." O economista analisa: "Os preços aumentaram mais..." A professora interpreta: "O principal protagonista do romance..." O cantor canta: "Detalhes tão pequenos..." Alguém, cansado de tanta redundância, diz: "Precisamos encarar de frente esse problema da redundância!" Se fôssemos encarar de costas seria um senhor torcicolo!

G.P.
Seleções nov/01

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