domingo, 17 de março de 2013

Eu não lhe prometi um mar de rosas

Meu quintal na encosta do Monte Tamalpais, ao norte da Califórnia, é na verdade um minúsculo prado. Todo ano, no verão e no outono, um veado aparece ali ao nascer e ao pôr-do-sol. Isso é deslumbrante para alguém que cresceu em Manhattan. Este ano seu chifre está com seis pontas. No ano passado, tinha cinco ou talvez quatro. Ele é de tirar o fôlego.
Na verdade, eu não pretendia ter um veado e sim um roseiral. No ano seguinte à minha mudança para cá, plantei 15 roseiras, presentes de amigos.
Foi um trabalho duro, mas eu podia imaginar: igualzinho às da revista "Sunset".
As rosas floresciam depois do auge da primavera, e por um mês o jardim ficava esplêndido. Mas elas começaram a desaparecer. Intrigada, acabei percebendo que algo maior que os pulgões as estavam comendo, e decidi pegá-lo em flagrante. Um dia, acordando ao nascer do sol e  olhando pela janela, fiquei estática, ao ver o veado pela primeira vez. Ele parecia uma ilustração de um livro que tive quando criança. Enquanto eu observava assombrada, ele atravessou o quintal sem pressa, sondou por algum tempo minhas roseiras e depois, delicadamente, comeu uma das minhas Queen Elizabeth.
Desde então, sou obrigada a fazer uma escolha difícil: devo mandar colocar cercas mais altas e ter rosas ou ter um veado a dez metros da minha porta dos fundos? Todo ano, até agora, tenho escolhido o veado. Depois de dois anos olhando um para o outro pela vidraça, eu agora posso sentar-me do lado de fora enquanto ele almoça.
Quando conto isso às pessoas, há quem exclame, incrédulo: "Quer dizer que você está deixando o veado comer suas rosas!". Às vezes, convido uma pessoa dessas para vir à minha casa e assistir a cena. Um amigo, boquiaberto com a visão, disse simplesmente: "Bem, acho que estamos sempre fazendo as coisas certas pelos motivos  errados". Eu pensava estar plantando roseiras a fim de ter rosas. Agora, parece que plantei roseiras a fim de ter meia hora de silêncio com aquele  animal mágico, toda manhã e toda noite. 
(...)
Extraído do livro Histórias que curam - Rachel Naomi Remen
ilustração: freepick  

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