sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Como lidar com quem tem perda auditiva


Quando era mais nova, tinha muita vontade de aprender a língua de sinais. Achava fascinante ver aquelas pessoas se comunicarem tão bem com as mãos. Mas o tempo passou e acabei não aprendendo.
A maioria de nós não sabe muito bem como se comunicar com pessoas que sofrem de perda auditiva. Eis algumas dicas do que NÃO fazer para você e eu nos comunicarmos melhor com quem não escuta bem:
Não grite
Fale com voz normal e articule as palavras o melhor possível. Berrar não ajuda quem tem perda auditiva a escutar mais. Exceção: se sua voz é muito baixa, fale um pouco mais alto.
Não fale junto ao ouvido
Quase todo mundo com perda auditiva faz leitura labial. Não fale perto do ouvido porque assim a pessoa não conseguirá ler seus lábios.
Não deixe de eliminar o ruído branco
A maioria dos que têm perda auditiva sente dificuldade em identificar o que você está falando quando o ar-condicionado faz barulho ou há outro ruído constante no ambiente. Não tente conversar com a TV ligada.
Não converse com todos ao mesmo tempo
Numa festa ou reunião, tente manter uma conversa só com a pessoa em vez de várias simultâneas.
Não diga “deixe para lá, não era nada importante
Se alguém não entendeu o que você disse depois de repetir duas ou três vezes, não desista. Mude a frase e tente de novo. Para quem não consegue escutar, tudo importa.

R. M.
Seleções

ilustração: internet

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

É preciso agir

        Primeiro levaram os negros,

        Mas não me importei com isso. Eu não era negro.

        Em seguida levaram alguns operários,

        Mas não me importei com isso. Eu também não era operário.

        Depois prenderam os miseráveis,

        Mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável.

        Depois agarraram alguns desempregados,

        Mas como eu tenho um emprego, também não me importei.

        Agora... Agora estão me levando.

        Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.

        
O poema grave é de Bertolt Brecht, influente dramaturgo e poeta alemão do século XX.

        A questão gravíssima é do ser humano, desnudado em linhas poéticas, exposto pelo pensador que aqui nos convida a refletir sobre a indiferença.

        A vida individualista, que prioriza o eu em detrimento do outro, apresenta-se como um dos problemas mais sérios da atualidade humana.

        O egoísmo, a cobiça, o medo, transformaram grande parte dos seres em autômatos ilhados.

        Autômatos, sim, pois evitam pensar, refletir, ponderar, em nome de uma falsa falta de tempo.

        Autômatos que se plugam na tomada pela manhã, e se desplugam à noite, sem terem realmente estado presentes em seus dias, em suas próprias vidas.

        Ilhados também, pois se isolam das pessoas, do contato humano.

        Não se pode mais confiar em ninguém, não se pode mais contar com ninguém. Todos são suspeitos... – afirmam alguns.

        Ilhados, usam das tecnologias do mundo moderno, que visam apenas auxiliar o homem em suas tarefas, para manterem uma distância segura do Mundo.

        E o virtual parece ser mais seguro, mas fácil que o real... Enganamo-nos em nome de uma suposta segurança.

        Assim deixamos de nos importar com os outros, vivendo um constante salve-se quem puder, como se o desespero fosse grande auxílio.

        E quanto mais nos afastamos, mais difícil é a volta.

        Amizades que deixamos de cultivar na infância, na juventude, hoje fazem falta a muitos homens e mulheres, vítimas de transtornos psicológicos, como a depressão.

        Relacionamentos familiares fortes, envolvendo cumplicidade e carinho, no futuro nos farão falta, pois quando precisarmos nos abrir, desabafar, perceberemos que não temos intimidade com ninguém para tal.

        É preciso agir. Agir enquanto há tempo.

        Será tão difícil dar atenção, se importar com aqueles que estão ao nosso redor?

        Será tão difícil romper esta barreira da indiferença, e perguntar: Como você está? – realmente desejando saber como anda a vida do outro?

        O Mundo não sou eu mas os outros. O Mundo somos nós.

        Estamos todos expostos ao mesmo tipo de experiências, às mesmas provações, aos mesmos aprendizados.

        É preciso agir. É preciso se importar mais.


Redação do Momento Espírita com base em poema de Bertolt Brecht 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Não estregue a festa, estupido!

O país da Copa é grande e bobo. "Esta será a Copa das Copas", disse a presidente, de boca cheia, na cerimônia de sorteio dos grupos. No país dela, que é o nosso, ninguém circula nas cidades travadas, nas estradas paralisadas, nos aeroportos congestionados -mas 12 arenas superfaturadas, em recordistas 12 sedes, receberão a mais cara das Copas. Do enclave do Sauípe, uma bolha segura, esparramou-se pelo mundo a linguagem do verde-amarelismo balofo. No país da Copa, um governo "popular" e "de esquerda" reverbera, tanto tempo depois, as frases e os tiques do general-presidente que gostava de futebol. Há um cheiro de queimado no ar.

"O Brasil está muito feliz em receber todos nesta Copa porque somos um povo alegre e acolhedor." Violência é a palavra da hora -e ela surge em curiosas associações com a "Copa das Copas". A barbárie das torcidas do Atlético Paranaense e do Vasco não foi deplorada por seus significados intrínsecos, mas pelas mensagens que supostamente envia ao mundo. Gaiatos da política, do marketing e do colunismo ensaiaram uma sentença que menciona a violência "dentro e fora dos estádios". É senha, com endereço certo: no saco fundo, cabem tanto os torcedores selvagens e os sumidos black blocs quanto manifestantes pacíficos mas indignados com a "Copa das Copas". O pau vai comer.

"Não repara a bagunça" -o dístico popular nacional, candidato eterno, e perfeito, a substituir o "Ordem e Progresso" no núcleo de nossa bandeira, trai o medo da vergonha. Joseph Blatter entendeu e traduziu, chamando-nos a congelar a indignação, sublimar as insatisfações, colocar entre parêntesis as divisões. A unidade em torno de um bem maior, que é a imagem do país diante do planeta que nos vê: eis a gramática do discurso político sugerida pelo chefão da potência ocupante. No país da Copa, a convocação à unidade já foi integrada ao discurso da publicidade. Será repetida à exaustão, como uma ladainha, até o apito final. Não estrague a festa, estúpido!

"Será uma Copa para ninguém esquecer", jactou-se a presidente, formulando uma ameaça involuntária. A partir do Gabinete de Segurança Institucional, estrutura-se uma operação de guerra que abrange as três forças em armas e um desdobrado aparato cibernético. Nas telas dos computadores do sistema de vigilância, cada arena figura como ponto focal de um envelope tridimensional de segurança. Nas ruas, o controle físico do perímetro das arenas, a cargo das PMs, terá a missão de proteger as marcas dos patrocinadores oficiais da ameaça simbólica representada pela presença de manifestantes. Jamais, em tempo algum, o Estado serviu tão direta e exclusivamente a interesses privados. Não: ninguém esquecerá.

O país da Copa não se respeita. Ontem, o partido do governo celebrou políticos condenados por corrupção -e, sob o silêncio cúmplice do presidente de facto e da presidente de direito, achincalhou um STF composto por juízes que eles mesmos indicaram. O país da Copa perdeu o autorrespeito. Os líderes governistas manobram para o Congresso não ouvir um ex-secretário nacional de Justiça que acusa o governo ao qual serviu de operar uma fábrica de dossiês contra adversários políticos. O país da Copa perdeu o respeito. As lideranças do PSDB preferem empregar táticas diversionistas vexatórias a colher assinaturas para uma CPI destinada a investigar todos os contratos estaduais e federais firmados com a Siemens. Yes, nós gostamos de futebol.
No vale-tudo da nova ordem do racialismo, perdemos, ademais, um senso básico de decoro: eu li -aqui mesmo, não nas catacumbas da internet!- que Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert formaram "um casal mais parecido com representantes de afrikâners". Cores, rancores. No país da Copa, nativos felizes, contentes, de bunda de fora, tocavam caxirola. 

Foi bonita a festa, pá -pena que nem começou.


Demétrio Magnoli.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Apelo




Paulo Bomfim
...Mas deixa-me poetar
Em nome dos que não sonham,
Dos que calçam desespero
Em percursos cotidianos,
Dos que cruzam confluências
Com pára-brisas de tédio,
Dos fugitivos dos bares,
Dos vencidos que se amam,
Dos inocentes que esperam.
...Mas deixa-me poetar
Neste esvair sem sentido
Com palavras indomadas,
Ou com vocábulos mansos.
- Que eu cante a vida que passa
E os destinos sem destino
- Que eu cubra de redondilhas
As damas da madrugada,
E meus versos sejam potros
Onde as crianças galopem,
Lona de circo estelante
Vestindo a fome do mundo,
Valsa-brisa em realejo
Na esquina dos desencontros.
Sei da lógica das máquinas,
Das avenidas neuróticas,
Do roubo das alvoradas
E dos anjos que se matam.
Sou feito de tudo e nada.
...Mas deixa-me poetar.

Extraído de: Poemas Escolhidos
Ilustração: freepik  

domingo, 22 de setembro de 2013

A janela


Paulo Bomfim


Na parede do mundo abre-se a janela:
Somos paisagem.


O olhar cruzou as fronteiras do vidro:
Somos estrangeiros.


A alma navega em barcos de luz:
Somos naufrágio.


Pássaros flutuam na manhã cobalto:
Somos cantiga.


Surge a lua nova em nossa lucidez:
Somos transparência.


Nas paredes do mundo fecha-se a janela:
Somos a viagem.



extraído de : Poemas Escolhidos
ilustração: freepik 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Pedra da felicidade

Melcíades José de Brito


Nos tempos das fadas e bruxas, um moço achou em seu caminho uma pedra que emitia um brilho diferente de todas as que ele já conhecera. Impressionado, decidiu levá-la para casa.

Era uma pedra do tamanho de um limão e pertencia a uma fada, que a perdera por aqueles caminhos, em seu passeio matinal.

Era a Pedra da Felicidade.
Possuía o poder de transformar desejos em realidade.

A fada, ao se dar conta de que havia perdido a pedra, consultou sua fonte de adivinhação e viu o que havia ocorrido.

Avaliou o poder mágico da pedra e, como a pessoa que a havia encontrado era um jovem de família pobre e sofredora,
concluiu que a pedra poderia ficar em seu poder, despreocupando-se quanto à sua recuperação.
Decidiu ajudá-lo.

Apareceu ao moço em sonho e disse-lhe que a pedra tinha poderes para atender a três pedidos: um bem material, uma alegria e uma caridade.

Mas que esses benefícios somente poderiam ser utilizados em favor de outras pessoas.
Para atingir o intento, cabia-lhe pensar no pedido e apertar a pedra entre as mãos.

O moço acordou desapontado.

Não gostou de saber que os poderes da pedra somente poderiam ser revertidos em proveito dos outros.
Queria que fossem para ele. Tentou pedir alguma coisa para si, apertando a pedra entre as mãos, sem êxito.
Assim, resolveu guardá-la, sem muito interesse em seu uso.

Os anos se passaram e este moço tornou-se bem velhinho.

Certo dia, rememorando o seu passado, concluiu que havia levado uma vida infeliz, com muitas dificuldades, privações e dissabores.
Tivera poucos amigos, porém, reconhecia ter sido muito egoísta. Jamais quisera o bem para os outros.
Antes, desejava que todos sofressem tanto quanto ele.

Reviu a pedra que guardara consigo durante quase toda a sua existência; lembrou-se do sonho e dos prováveis poderes da pedra.

Decidiu usá-la, mesmo sendo em proveito dos outros.

Assim, realizou o desejo de uma jovem, disponibilizando-lhe um bem material.

Proporcionou uma grande alegria a uma mãe revelando o paradeiro de uma filha há anos desaparecida e, por último, diante de um doente, condoeu-se de suas feridas, ofertando-lhe a cura.

Ao realizar o terceiro benefício, aconteceu o inesperado: a pedra transformou-se numa nuvem de fumaça e, em meio a esta nuvem, a fada - vista no sonho que tivera logo ao achar a pedra - surgiu, dizendo: 
- Usaste a Pedra da Felicidade. O que me pedires, para ti, eu farei. Antes, devias fazer o bem aos outros, para mereceres o atendimento de teu desejo.
Por que demoraste tanto tempo em usá-la?

O homem ficou muito triste ao entender o que se passara.

Tivera em suas mãos, desde sua juventude, a oportunidade de construir uma vida plena de felicidade, mas, fechado em seu desamor, jamais pensara que fazendo o bem aos outros colheria o bem para si mesmo.

Lamentando o seu passado de dor e seu erro em desprezar os outros, pediu comovido e arrependido:

- Dá-me, tão somente, a felicidade de esquecer o meu passado egoísta.

ilustração: freepik

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Cântigo Negro


José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"


sábado, 3 de agosto de 2013

Um poema simples


montagem de minha amiga Mary Difatto

quinta-feira, 4 de julho de 2013

35 Camelos


Malba Tahan

Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos, perto de um antigo caravançará meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos. Por entre pragas e impropérios, gritavam possessos, furiosos:
— Não pode ser!
— Isto é um roubo!
— Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
— Somos irmãos — esclareceu o mais velho — e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo eu receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos. A cada partilha proposta, segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio! Como fazer a partilha, se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?
— É muito simples — atalhou o “homem que calculava”. — Encarregar-me-ei de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal, que em boa hora aqui nos trouxe.
Neste ponto, procurei intervir na questão:
— Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o nosso camelo?
— Não te preocupes com o resultado, ó “bagdali”! — replicou-me, em voz baixa, Beremiz. — Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás, no fim, a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal, que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
— Vou, meus amigos — disse ele, dirigindo-se aos três irmãos — fazer a divisão justa e exata dos camelos, que são agora, como vêem, em número de 36.
E voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
— Deves receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36, ou seja, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.
Dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
— E tu, Hamed Namir, devias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse, por fim, ao mais moço:
— E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, devias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado.
Numa voz pausada e clara, concluiu:
— Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir — partilha em que todos os três saíram lucrando — couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um total de 34 camelos. Dos 36 camelos sobraram, portanto, dois. Um pertence, como sabem, ao “bagdali” meu amigo e companheiro; outro, por direito, a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança.
— Sois inteligente, ó estrangeiro! — confessou, com admiração e respeito, o mais velho dos três irmãos. — Aceitamos a vossa partilha, na certeza de que foi feita com justiça e eqüidade.
E o astucioso Beremiz — o “homem que calculava” — tomou logo posse de um dos mais belos camelos do grupo, e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
— Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro. Tenho outro, especialmente para mim.
E continuamos a nossa jornada para Bagdá.

Malba Tahan, – O homem que calculava
ilustração internet


sexta-feira, 21 de junho de 2013

A força que o povo tem nas mãos


Naquela varanda da velha casa de fazenda, entre tralhas e arreios velhos, sentados num banco estavam o velho avô e seu neto. Ambos mantinham um olhar perdido no horizonte, cada um no seu tempo, vasculhava as lembranças gravadas na memória. O silêncio dizia tudo, mas quis a sabedoria fluir nas palavras do velho e do novo:

- Vô, por que não tem mais carro de boi?

- Ah, menino... Assim você me faz chorar! Lembrar agora do carro de boi... Meu Deus, isso é coisa que só via na sua idade. Faz tempo que acabou. Não tem mais porque hoje tudo precisa ser rápido, as coisas mudaram muito. O carro de boi além do barulho tem muitos segredos escondidos.

- Que segredos, vô? Conta ai para mim...

- Têm muitos, mas vou te falar de um só e você nunca mais vai esquecer. Você já viu desenhos, fotografias de carro de boi. Não sei se reparou, mas os bois vão todos com a cabeça baixa, olhares perdidos no chão. Eles estão dominados pela canga e pelo ferrão do carreiro. Não sabem que podem resolver parar e mudar a direção, o rumo do carro. Parece não saber a força que tem uma boiada unida, juntinha ali e querendo ir só para um rumo.

- Interessante mesmo! Não tinha reparado nisso e nem pensado desse jeito. Quer dizer que os bois vão ali meio que dominados, mas isso é por que estão meio enganados, com medo de mostrar a força deles, não é isso?

- Isso mesmo. Assim, também é o povo. A maioria das pessoas não sabe a força que tem quando se une. O povo não sabe do poder que tem nas mãos. Eu vejo esses políticos ai falando com toda a pompa, como se eles fossem os poderosos. Na verdade, eles puseram uma canga e um ferrão num povinho bobo e vão conduzindo o povo assim... A ferro e fogo, e por isso que o povo acaba se deixando enganar, são dominados...

- Mas, um dia os bois podem descobrir a força que tem...

- Descobre sim, e ai não tem carreiro que dê um jeito. Pode cutucar com ferrão, engrossar a voz, gritar, pular, fazer o que for. A boiada vira para o lado que quer e segue o rumo. O povo também de vez em quando consegue sair da condição de dominado, arranca força e mostra o poder que tem... Já aconteceu muito isso e vai continuar acontecendo.

- Vô, eu nunca quero ser dominado feito boi de carro...

- Isso menino, então aprende a pensar, estude bastante, desconfie até de você mesmo, não confie nem em sua memória e quando ouvir conversa toda ajeitada, cheia de palavras bonitas... é melhor se lembrar do que estou lhe dizendo agora.

- Não vou esquecer não, vô! E sempre vou passar essa história para frente... Pena que tem muita gente por ai que gosta de ser enganada, dominada... Fazer o quê!

 autor desconhecido
ilustração: internet

terça-feira, 11 de junho de 2013

Hiperplasia Prostática Benigna: Curiosidades

Lembre-se que os sintomas originados pelos problemas da próstata são muito semelhantes.
Quaisquer informações não devem ser tomadas como recomendação e um profissional da área deverá ser consultado.


HPB – Hiperplasia Prostática Benigna é uma condição bastante comum que afeta muitos homens a partir de 50 anos de idade. Dois em cada cinco homens (41 %) com a idade acima de 50 anos e três a cada quatro (75 %) dos homens nos seus 70 anos ou mais têm problemas com a passagem da urina, que pode ser causada pela HPB.
A glândula da próstata cresce vagarosamente à medida que o homem envelhece. Em alguns casos, a glândula pressiona o tubo pelo qual passa a urina (uretra). Quando isso ocorre, torna-se difícil a passagem da urina. Pode ocorrer que o jato de urina fique muito fraco ou que o homem sinta dificuldade em esvaziar a bexiga. Entretanto, esses sintomas urinários podem também ser causados por outros problemas, como infecção urinária e outros problemas da próstata. Se você sentir qualquer dos sintomas descritos acima, não hesite: procure um urologista para descobrir o que está causando o problema.
A Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) não é um tipo de câncer e não aumenta o risco de que o paciente desenvolva um câncer.


Os sintomas originados pelos problemas da próstata são muito semelhantes e podem incluir um ou vários dos seguintes:
  • Jato de urina muito fraco ou reduzido.
  • Necessidade freqüente de urinar, especialmente à noite.
  • A sensação de que sua bexiga não se esvaziou completamente e ainda persiste a vontade de urinar.
  • Dificuldade de iniciar a passagem da urina.
  • Dificuldade de interromper o ato de urinar.
  • Urinar em gotas ou jatos sucessivos.
  • Necessidade de fazer força para manter o jato de urina.
  • Necessidade premente de correr ao banheiro – pode, inclusive, ocorrer que a urina vaze antes que chegue lá.
Sintomas menos comuns incluem:
  • Dor durante a passagem da urina.
  • Dor quando ejacula.
  • Dor nos testículos.
Ocorrendo qualquer desses sintomas, você deve imediatamente consultar um Urologista para descobrir a causa do problema.

A partir dos 40 anos de idade, é recomendado que o homem marque uma consulta com um médico urologista. É por volta dessa idade que começam a aparecer os sintomas relacionados aos problemas de saúde masculinos. É de grande importância que o homem seja adequadamente informado sobre as doenças que podem afetá-lo com o avançar da idade, ou seja, apesar dos preconceitos de conteúdo cultural, o urologista deve ser procurado sempre que houver qualquer tipo de dúvida relacionada à saúde do homem. 
O toque retal é um exame extremamente importante tanto para constatar a presença da HPB como para descartar a hipótese de câncer de próstata. Durante o exame, o médico pode avaliar o tamanho e a consistência da próstata além de descobrir nódulos que podem ser indício de câncer de próstata. 
O exame de sangue realizado é complementar ao exame físico realizado pelo urologista. Neste exame é dosada uma substância presente no sangue denominada Antígeno Prostático Específico (PSA), que aumenta em casos de HPB e de câncer de próstata. Porém, o fato do nível de PSA estar elevado não indica obrigatoriamente que o homem tenha câncer de próstata ou HPB, sendo necessária pesquisa adequadamente direcionada pelo médico. 
É importante ressaltar que o PSA, apesar de ser um exame importante, não descarta a necessidade do exame do toque retal. A melhor forma de diagnosticar tanto o HPB quanto o câncer de próstata é através dos dois exames realizados juntos. Portanto, procure um urologista para melhores informações sobre sua saúde.


O tratamento depende de quanto ruins ou intensos são os sintomas, de quanto eles afetam as atividades do dia a dia e da qualidade de vida. Em caso de sintomas brandos, pode não ser necessário nenhum tratamento específico. O médico fará o acompanhamento do paciente e conversará a respeito de algumas mudanças simples no estilo de vida do mesmo que ajudarão a diminuir os sintomas. Por exemplo, o médico pode informar-se a respeito dos líquidos que o paciente ingere e recomendar a redução no consumo de álcool e de bebidas que contenham cafeína, como o café e o chá. Essas bebidas tornam piores os sintomas.
Se os sintomas estão se tornando mais agudos e causando problemas, discuta com o seu Urologista a respeito das opções de tratamento. Elas vão desde o uso de medicamentos até a necessidade de cirurgia.
Dependendo dos sintomas e dos resultados de exames, o médico pode recomendar várias opções de tratamento:

Espera/Observação: Em casos em que os sintomas da hiperplasia prostática são leves, os médicos podem recomendar uma abordagem de esperar e observar, muitas vezes pedindo para que os pacientes observem os sintomas da HPB antes de buscar outros tratamentos. 

Medicamentos para a hiperplasia prostática: Os médicos muitas vezes receitam medicamentos para controlar os sintomas da hiperplasia prostática. Esses medicamentos incluem alfa-bloqueadores, que relaxam os músculos em volta do colo da bexiga, tornando o ato de urinar mais fácil, e inibidores de alfa-redutase, que servem para encolher o tamanho da prostata. 

Terapias de calor e micro-ondas: São tratamentos minimamente invasivos, que usam a energia de micro-ondas ou de calor para reduzir os sintomas apresentados por uma próstata aumentada. 

Ressecção Transuretal da Próstata (RTUP): Este é um procedimento cirúrgico realizado para remover tecido da próstata aumentada. 

Terapia a laser: Esta opção remove tecido obstrutivo da prostata pelo uso de lasers de alta energia. 

Stents prostáticos: Esta opção é reservada para aqueles pacientes que nao sao candidatos a tratamento cirurgico e que apresentam retencao urinaria devido a uretra obstruída pelo aumento da prostata.

Plasma Botton Evaporação: nova técnica que, através do plasma provoca a vaporização dos tecidos. Permite uma rápida recuperação do paciente e redução de vários transtornos típicos de processos operatórios.

Embolização das Artérias da Próstata: procedimento minimamente invasivo, ainda em fase experimental, semelhante ao cateterismo, onde um minúsculo tubo flexível é introduzido na artéria femoral, navegando até a próstata e injetando substância com o objetivo de reduzir a sua circulação e provocar a diminuição de tamanho e aliviar a obstrução da uretra permitindo a passagem da urina.

ATENÇÃO: cada procedimento é adequado a um tipo de paciente e deve ser realizado com orientação médica (preferencialmente um urologista).


A HPB está intimamente relacionada com a idade do homem. Mas muitos estudos já estudaram a relação de outros fatores com o desenvolvimento dessa doença. 
Sabe-se, por exemplo, que com o consumo de gorduras saturadas e zinco aumentam as chances de um paciente possuir uma HPB sintomática. O consumo de frutas tem efeito contrário. Outros fatores também são citados como relacionados ao desenvolvimento da HPB: : valores altos de PSA, doença cardiovascular prévia, obesidade e diabetes. Um estudo chegou até mesmo a identificar que a história familiar de câncer de bexiga pode aumentar as chances de o paciente desenvolver a HPB. 
Ou seja, todos os estudos mostram que além da idade, o cuidado com a alimentação é de grande importância na prevenção da HPB. Não somente a HPB seria evitada com uma boa alimentação, mas também diversas outras doenças, como a hipertensão e o infarto do coração



A HPB é uma doença que apresenta índice de mortalidade baixa quando bem tratada. Porém se não tratada, a próstata pode crescer tanto a ponto de ocluir por completo o canal da urina causando retenção urinária. O paciente com retenção urinária não consegue esvaziar a bexiga, podendo ocasionar grandes incômodos e infecções urinárias que podem se tornar sérias, levando o paciente muitas vezes à morte por infecção generalizada. Além disso, a retenção urinária pode danificar os rins e causar insuficiência renal (paralisação dos rins), também podendo ser motivo da morte do paciente. Logo, é de grande importância, para que haja cura da doença, que o paciente acompanhe todas as etapas do tratamento de forma adequada, conversando sobre elas com seu médico.


fonte: Associação Pela saúde da próstata
ilustração: internet


terça-feira, 4 de junho de 2013

Somos fiéis a nós mesmos?

 

Trocamos a cor dos cabelos,       
damos-lhes  o melhor corte,
e às vezes somos tão resistentes
em trocar alguns pensamentos,
sem notar o quanto nos enfeiam.

Colocamos óculos elegantes,
lentes coloridas,
mas nem sempre pomos no olhar
um brilho de alegria de viver.

Fazemos plástica, esticamos a pele,
verdadeiros malabarismos para
um rosto mais "bonito"
e quase nunca lembramos

de que uma expressão serena
garantiria mais de meio caminho andado.

Tratamos os dentes,
"compramos" sorriso,
mas bem raramente
sorrimos espontaneamente
como o homem simples e sem dentes
ou a novinha criança.

Fazemos musculação,
"correção" de seios,
mas com que pouca freqüência
mostramos os reais sentimentos
que levamos no peito!

Obedecemos a rígidas dietas
para ganhar ou perder peso,           
para sermos mais "elegantes",
mas não questionamos
se somos uma presença
leve e agradável.

Baixamos o guarda roupa,
compramos roupas novas,
buscamos andar na moda,
mas não nos desfazemos
de alguns hábitos,
costumes e crenças antigas
que nada somam ao presente.
 
Vamos para outra casa,
renovamos a mobília,
trocamos de carro,
mas resistimos a mudar por dentro,
não tiramos o que está "velho",
não damos novas direções
ao nosso mundo interior.

Mudamos nossas relações,
trocamos de amigos
e queremos que os amigos mudem
para satisfazer nossas necessidades.

Assim prosseguimos
perdendo pessoas
que poderiam ser
bênçãos em nossas vidas.

Não estará na hora
de mudarmos a nós mesmos,
mais profundamente,
mais amorosamente,
e colhermos de graça
frutos de sabedoria
que existem à nossa disposição?

Que grande aventura
será mudarmos um pouco por 
  dentro
toda vez que mexermos no lado de fora!
O Universo sempre apóia
cada  bem feita.
Será um novo desafio
a cada novo dia!
Desconheço a autor
ilustração: freepik

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Precisa-se


De pessoas que tenham os pés na terra e a cabeça nas estrelas.

Capazes de sonhar, sem medo dos sonhos.

Tão idealistas que transformem seus sonhos em metas.

Pessoas tão práticas que sejam capazes de transformar suas metas em realidade.

Pessoas determinadas que nunca abram mão de construir seus destinos e arquitetar suas vidas.


Que não temam mudanças e saibam tirar proveito delas.

Que tornem seu trabalho objeto de prazer e uma porção substancial de realização pessoal.

Que percebam, na visão e na missão de suas vidas profissionais, de suas dedicações humanistas em prol da humanidade, um forte impulso para sua própria motivação.

Pessoas com dignidade, que se conduzam com coerência em seus discursos, seus atos, suas crenças e seus valores.


Precisa-se de pessoas que questionem, não pela simples contestação, mas pela necessidade íntima de só aplicar as melhores idéias.

Pessoas que mostrem sua face de parceiros legais. Sem se mostrarem superiores nem inferiores. Mas... iguais.

Precisa-se de pessoas ávidas por aprender e que se orgulhem de absorver o novo.

Pessoas de coragem para abrir caminhos, enfrentar desafios, criar soluções, correr riscos calculados. Sem medo de errar.


Precisa-se de pessoas que construam suas equipes e se integrem nelas.

Que não tomem para si o poder, mas saibam compartilhá-lo.

Pessoas que não se empolguem com seu próprio brilho. Mas com o brilho do resultado alcançado em conjunto.

Precisa-se de pessoas que enxerguem as árvores. Mas também prestem atenção na magia das florestas.

Que tenham percepção do todo e da parte.

Seres humanos justos, que inspirem confiança e demonstrem confiança nos parceiros.

Estimulando-os, energizando-os, sem receio que lhe façam sombra, mas sim se orgulhando deles.


Precisa-se de pessoas que criem em torno de si um ambiente de entusiasmo

De liberdade, de responsabilidade, de determinação,

De respeito e de amizade.

Precisa-se de seres racionais. Tão racionais que compreendam que sua realização pessoal está atrelada à vazão de suas emoções.


É na emoção que encontramos a razão de viver.

Precisa-se de gente que saiba administrar COISAS e liderar PESSOAS.

Precisa-se urgentemente de um novo ser.
                  
texto: Isaac Libermann
foto: "Em preto e branco"
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