terça-feira, 24 de julho de 2012

Abraço de filho

Abraço de filho deveria ser receitado por médico.

Há um poder de cura no abraço que ainda desconhecemos.

Abraço cura ódio. Abraço cura ressentimento. Cura cansaço. Cura tristeza.

Quando abraçamos soltamos amarras. Perdemos por instantes as coisas que nos têm feito perder a calma, a paz, a alma...

Quando abraçamos baixamos defesas e permitimos que o outro se aproxime do nosso coração. Os braços se abrem e os corações se aconchegam de uma forma única.

E nada como o abraço de um filho...

Abraço de Eu amo você. Abraço de Que bom que você está aqui. Abraço de Ajude-me.

Abraço de urso. Abraço de Até breve. Abraço de Que saudade!

Quando abraçamos, a felicidade nos visita por alguns segundos e não temos vontade de soltar.

Quando abraçamos somos mais do que dois, somos família, somos planos, somos sonhos possíveis.

E abraço de filho deveria, sim, ser receitado por médico pois rejuvenesce a alma e o corpo.

Estudos já mostram, com clareza, os benefícios das expressões de carinho para o sistema imunológico, para o tratamento da depressão e outros problemas de saúde.

O abraço deixou de ser apenas uma mera expressão de cordialidade ou convenção para se tornar veículo de paz e símbolo de uma nova era de aproximação.

Se a alta tecnologia - mal aproveitada - nos afastou, é o abraço que irá nos unir novamente.

Precisamos nos abraçar mais. Abraços de família, abraços coletivos, abraços engraçados, abraços grátis.

Caem as carrancas, ficam os sorrisos. Somem os desânimos, fica a vontade de viver.

O abraço apertado nos tira do chão por instantes. Saímos do chão das preocupações, do chão da descrença, do chão do pessimismo.

É possível amar de novo, semear de novo. É possível renascer.

E os abraços nos fazem nascer de novo. Fechamos os olhos e quando voltamos a abri-los podemos ser outros, vivendo outra vida, escolhendo outros caminhos.

Nada melhor do que um abraço para começar o dia. Nada melhor do que um abraço de Boa noite.

E, sim, abraço de filho deveria ser receitado por médico, várias vezes ao dia, em doses homeopáticas.

Mas, se não resistirmos a tal orientação, nada nos impede de algumas doses únicas entre essas primeiras, em situações emergenciais.

Um abraço demorado, regado pelas chuvas dos olhos, de desabafo, de tristeza ou de alívio.

Um abraço sem hora de terminar, sem medo, sem constrangimento.

Medicamento valioso, de efeitos colaterais admiráveis para a alma em crescimento.

fonte: Momento Espírita
foto: internet

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dois sonetos de Aylton Quintiliano




A Exposição

A tela branca. Nada desenhado
Mas, olhavam-na críticos ladinos.
E, aqui e ali grupelhos de granfinos
comentavam o quadro indecifrado.

De repente alguém diz: “Genial!” E, ao seu lado
repete um moço, em gestos femininos,
para a moça de lábios purpurinos: “
A do rá vel!...” E o quadro era aprovado.

Mas eis que quando o rico perdulário,
fazendo-se das artes solidário,
dispõe-se a adquirir a obra prima

Entra o pintor, barbudo e exasperado,
e diz que o quadro fora posto errado,
pois a parte de baixo era pra cima.

Covardia

Confesso amigo: todo meu intento
é seguir-te o conselho. Na verdade,
andei a praticá-lo em pensamento,
e, agora, espero-a cheio de ansiedade.

Ei-la. Não pode haver melhor momento
para dizer-lhe, com serenidade,
que o amor não passa como passa o vento,
e às vezes passa sem deixar saudade.

Antevejo-a chorando. Em plena mágoa,
seus olhos me incriminam rasos d’água...
 E quando eu me dou conta é muito tarde!

Não posso mais seguir o teu conselho:
 Fiz-me valente diante de um espelho,
mas, diante dela... como eu sou covarde!

ilustração:freepik

terça-feira, 17 de julho de 2012

Três poemas de Paulo Bonfim



Um dia


Um dia partirei com minhas malas,
(Espaços que carrego pela vida),
Com pássaros-gravatas e a medida
Do verde exato para tantas galas.

E quando me cansar de carregá-las,
Nelas colocarei a despedida,
A cantiga de amor mais pressentida,
O voo do silêncio e as grandes falas.

Irão cheias de sol, de bom agouro,
Com vastas solidões e meus remédios,
E bois pastando a mansidão do couro.

E quando alguém gritar na noite nua:
– Lá vai o poeta carregando tédios!
Deixai-me prosseguir de rua em lua.

De tudo quanto amamos


De tudo quanto amamos o que resta,
O riso desbotado dos retratos,
A talagarça dos momentos gratos
Ou a tristeza desse fim de festa?

Ficou por certo a ruga em nossa testa
Inventariando feitos e relatos,
E vozes e perfis somando fatos,
E a desfocada imagem da seresta.

E tudo o fogo aluga em canto findo,
Este porque de coisas devolutas,
E o tempo nômade que foi partindo.

Ficou de quanto amamos nos escolhos
A restinga das horas dissolutas,
E o mar aprisionado em nossos olhos!

Apelo

...Mas deixa-me poetar
Em nome dos que não sonham,
Dos que calçam desespero
Em percursos cotidianos,
Dos que cruzam confluências
Com pára-brisas de tédio,
Dos fugitivos, nos bares,
Dos vencidos que se amam,
Dos inocentes que esperam.
...Mas deixai-me poetar
Neste esvair sem sentido
Com palavras indomadas,
Ou com vocábulos mansos.
– Que eu cante a vida que passa
E os destinos sem destino
– Que eu cubra de redondilhas
As damas da madrugada,
E meus versos sejam potros
Onde as crianças galopem,
Lona de circo estelante
Vestindo a fome do mundo,
Valsa brisa em realejo
Na esquina dos desencontros.
Sei da lógica das máquinas,
Das avenidas neuróticas,
Do roubo das alvoradas
E dos anjos que se matam.
Sou feito de tudo e nada.
...Mas deixai-me poetar!

ilustração: freepik
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