sábado, 31 de março de 2012

O beija flor na janela do hospital

Este é um caso que emociona, porque é o relato de um acontecimento real.
Todas as tardes, já idoso e doente, com dificuldade para andar, apoiado em sua bengala, lá ia meu saudoso tio Carlos para o quintal, regar seu pé de acerola.
Ia também ao encontro de seu mais novo e seleto amigo. Um beija-flor que com ele compartilhava as mesmas sombras e o néctar daquela mesma planta.
Todas as vezes que pressionava os dedos no bico da mangueira, tio Carlos percebeu que o pequeno pássaro graciosamente paralisava seu vôo no ar, deixando-se banhar na suavidade da água refrescante, verdadeiro refrigério para aquelas ensolaradas tardes rio-pretenses.
O tempo passou e a insólita amizade prosseguiu.
Tio Carlos, no entanto, alquebrado pelo peso da doença, já quase não tinha mobilidade nem forças para sua tarefa. Mas quando, da varanda do quintal, via o beija-flor... Pronto! Levantava-se a custo, desenrolava a mangueira e, regando o pé de acerola, esguichava também sua chuvinha cintilante sobre o seu amiguinho colibri.
Assim foi. Até que o momento do testemunho chegou, como chega para todos nós. E chegou como doença grave e incurável, em grau já adiantado, acompanhada de todas aquelas incertezas e angústias que experimenta quem repentinamente se vê arrebatado do lar e confinado entre tubos e aparelhos de um quarto de hospital.
Como que adivinhando, o beija-flor não mais visitou o pé de acerola. E o cenário do quintal perdeu seus dois bucólicos protagonistas.
Poucos dias antes da doença alcançar o seu ápice, entubado, respirando com dificuldade sob a máscara de oxigênio, tio Carlos recebe uma visita inesperada.
Numa interminável tarde triste de hospital, tendo a atenção despertada por um delicado ruído na janela do quarto, sua filha Verinha, emocionada, exclama:
— Papai !!! Veja na janela quem veio te visitar !!! Veja !!!
Com dificuldade, tio Carlos mal consegue erguer seu olhar em direção à janela. E se ilumina de reconfortante emoção, ao perceber quem tão repentinamente aparece!
Ali está seu pequenino amigo beija-flor que, num vôo vertical, rente ao vidro da janela, insistindo em querer entrar, sobe e desce três vezes.
Como despedida vem devolver —a seu modo— o refrigério recebido, que suavizou seu frágil corpinho nas tardes calorentas de outrora. Sim. Vem agora aliviar a alma solitária e entristecida de seu antigo benfeitor. Mas também encorajá-lo para alçar seu vôo para o infinito.
Em seguida, numa retirada decidida e norteadora sumiu pelo céu do entardecer, para nunca mais voltar. E também para nunca mais ser visto junto ao pé de acerola, aliás, bem distante daquela janela de hospital...
Os mais céticos interpretam este relato verídico como mera ocorrência do acaso, destituída de qualquer sentido e valor. É preferível desprezar o significativo fato de ser aquela a janela exata, entre inúmeras tantas, dos vários andares do hospital em questão.
De minha parte, guardo a convicção serena do testemunho eloqüente de mais um desfecho desse delicado e incompreensível mecanismo das Leis Soberanas, que desafia nosso orgulho intelectualóide, mas que se expressa pedagogicamente através da Natureza, devolvendo sempre ao homem, na mesma e exata proporção, segundo o que dele tenha recebido.

Texto: Adolfo Guimarães - Ceepa
Ilustração: freepik

quarta-feira, 28 de março de 2012

O bordado

Quando era pequeno, minha mãe costurava muito. Eu me sentava no chão, perto dela e lhe perguntava o que estava fazendo. Ela me respondia que estava costurando e bordando. Eu observava seu trabalho, de uma posição abaixo de onde ela estava sentada, e sempre lhe perguntava o que estava fazendo, dizendo-lhe que de onde eu olhava, o que ela fazia me parecia muito confuso.
 
Ela sorria, olhava para baixo e gentilmente dizia: "Filho, saia um pouco para brincar e quando terminar meu trabalho eu chamo você e o coloco sentado em meu colo, e deixarei que você veja o trabalho da minha posição".
 
Perguntava-me, de onde eu estava: Por que ela usava alguns fios de cores escuras? Por que me pareciam tão desordenados e embaraçados? Por que estavam cheios de pontas e nós? Por que não tinham ainda uma forma definida e limpa? Por que demorava tanto? Minutos mais tarde, brincando no quintal, escutava-a me chamando : "Filho, venha e sente em meu colo".
 
Eu sentava e me surpreendia ao ver o bordado. Não podia crer. Lá de baixo parecia tão confuso! Então minha mãe me dizia: "Filho, de baixo para cima, parecia confuso e desordenado porque você não via que na parte de cima havia um belo desenho. Mas, agora, olhando-o da minha posição, você sabe o que eu estava fazendo".
 
Muitas vezes, ao longo dos anos tenho olhado para o céu e dito: "Pai, o que estás fazendo?" Ele parece responder: "Estou bordando sua vida." E eu continuo perguntando: "Mas está tudo tão confuso...em desordem. Os fios parecem tão escuros, porque não são mais brilhantes?" O Pai parece dizer-me: "Meu filho, ocupe-se com seu trabalho, descontraia-se, brinque um pouco... e Eu farei o Meu trabalho. Um dia, colocarei você em meu colo e então você vai ver o Plano, da Minha posição."

Desconheço o autor
Ilustração: freepik

sábado, 24 de março de 2012

O mundo está acabando

Não é novidade a previsão de que o mundo vai acabar. As culturas milenares ou doutrinas recentes, pregadores de hoje ou profetas do ontem se fizeram arautos do fim do mundo.

Alguns previram explosões e convulsões intensas avassalando imensas regiões.

Outros, imaginaram grandes asteróides se chocando com a Terra, convulsionando de tal forma a harmonia do planeta, que a vida humana se tornaria impossível, sendo destruída em sua totalidade.

Alguns fanáticos promoveram suicídios coletivos, antecipando a catástrofe que, imaginavam eles, se daria brevemente.

Não foram poucos aqueles que marcaram data, ano, na exatidão do calendário que se escoava e que teimava em não cumprir a previsão catastrófica.

Poucos, porém, se deram conta de que o mundo há muito tempo vem acabando.

Onde está o mundo onde as mulheres não tinham direitos sociais, eram proibidas de votar, não podiam frequentar a escola?

Esse mundo acabou, resistindo apenas em alguns rincões de ignorância e miséria moral.

Como falar, então, do mundo onde as cartas levavam meses para encontrar seu destino, onde as notícias eram poucas e raras, onde sabia-se de pouco e pouco se difundia?

Esse mundo também acabou, substituído por um mundo melhor, onde a tecnologia nos aproxima, nos beneficia, coloca luzes nos mais distantes lugares do mundo, minimizando as dores e dificuldades.

Analisando assim, é verdade que o mundo está acabando. Não da maneira violenta e definitiva como imaginavam tantos, nem tampouco de forma irreversível e avassaladora como pregaram outros.

É natural da evolução humana que o mundo vá se acabando, para que outro mundo se construa, na marcha inevitável do progresso e da melhora.

Mesmo a guerra, as grandes catástrofes naturais, os desastres são previstos nas leis de Deus para que o progresso ganhe marcha e a melhora se instale para todos.

Nesses dias de transição que ora passamos, é urgente que o mundo também se acabe.

Mas esse mundo que deve ser extinto é o mundo da violência que palpita dentro de nós.

Temos que ajudar a dar fim ao mundo de injustiça que, muitas vezes, permitimos que se dê sob os nossos olhos.

Devemos colaborar para o fim de um mundo de iniquidades, de desigualdades, de fome e miséria que ainda se estende por tanta parte e para tantos.

É verdadeiramente urgente que esse mundo todo se acabe. E que um novo mundo se inicie em nossa intimidade e, aos poucos, possamos colaborar para que nosso planeta ganhe outras paisagens e outros valores.

Só assim dia virá em que olharemos para esses dias que ora se passam e teremos a certeza de que o mundo acabou. E que no lugar dele, um mundo de paz, harmonia e justiça se instaurou, para nunca mais acabar.

Fonte: Redação do Momento Espírita.
ilustração: freepik

sexta-feira, 23 de março de 2012

O cavalinho

Certa tarde, um homem saiu para um passeio com as duas filhas, uma de oito e outra de quatro anos. Em determinado momento da caminhada, Helena, a mais nova, pediu ao pai que a carregasse, pois estava muito cansada para continuar andando.

O pai respondeu que também estava muito cansado. Diante da resposta, a garotinha começou a choramingar e fazer "corpo mole".

Sem dizer uma só palavra, o pai cortou um pequeno galho de árvore e o entregou a Helena, dizendo:

- Olhe aqui um cavalinho para você montar, filha! Ele irá ajudá-la a seguir em frente.

A menina parou de chorar e pôs-se a cavalgar o galho verde tão rápido, que chegou em casa antes dos outros. Ficou tão encantada com seu cavalo de pau, que foi difícil fazê-la parar de galopar.

A irmã mais velha ficou intrigada com o que viu e perguntou ao pai sobre como devia entender a atitude de Helena. O pai sorriu e respondeu:

- Assim é a vida, minha filha. Às vezes, estamos física e mentalmente cansados, certos de que é impossível continuar. Mas encontramos então um "cavalinho" qualquer que nos dá ânimo outra vez. Esse cavalinho pode ser um bom livro, um amigo, uma canção...

Assim, quando você se sentir cansado ou desanimado, nunca se deixe levar pela preguiça ou o desânimo.

Lembre-se: sempre haverá um "cavalinho" para cada momento.


Texto de Freeda Naumann
Ilustração: freepik

segunda-feira, 19 de março de 2012

Mas por que o sapo não pula ? ? ? ?

De acordo com um mito (não sou biólogo para dizer se é verdade), se você colocar um sapo numa panela de água fervendo ele pula fora e salva a própria vida.

Mas, se você colocar o sapo numa panela de água fria e for esquentando a água aos poucos, ele não percebe a mudança da temperatura e morre cozido.

Mas por que o sapo não pula quando a água começa a ficar quente? Será que ele não sente que a água esquentou?

Vamos tomar a personalidade dele, enquanto água está esquentando, e verificar o que se passa na cabeça do sapo :

28 Graus

- Humm... que água gostosa ...

32 Graus

- É ... a água está boazinha ...

36 Graus

- Esta água está ficando sem graça, será que está esquentando? Bobagem! Por que a água iria esquentar? Deve ser impressão minha.

38 Graus

- Estou ficando com calor ... Que droga de água! Ela nunca foi quente, por que está esquentando?

39 Graus

- Essa água é uma porcaria! Melhor nadar um pouco em círculos até a água esfriar de novo.

40 Graus

- Esta água é muito quente , humm que ruim! Vou voltar lá para aquele lado que estava mais fresco ou será que é melhor esperar um pouco?

42 Graus

- Realmente, esta água está péssima, quente de verdade, tenho que falar com o supervisor das águas. Claro, eu podia pular fora, mas onde será que vou cair? Melhor esperar só mais um pouquinho.

43 Graus

- Meu Deus! Será que eu tenho que fazer tudo por aqui? Já reclamei e ninguém toma uma atitude?

44 Graus

- Mas este supervisor de águas não faz nada? Será que ninguém nota que a água está super quente? Vou esperar mais um pouco ...

45 Graus

- Se ninguém fizer nada eu vou fazer um escândalo ... Aiiiii que calor!

46 Graus

- Eu devia ter pulado fora quando eu tive oportunidade, agora é tarde. Estou sem forças.

48 Graus

- "Sapo Morto".

O pensamento do sapo ilustra o processo de mudança no ambiente e como as pessoas reagem.

No mundo de hoje em que as mudanças de "temperatura" são tão corriqueiras, quem pensa como o sapo, se perde.

Se você tem, por exemplo, dificuldade de relacionamento, com pares, ou com colegas ou com a sua chefia, que tal parar de reclamar, de tentar mudar o outro e saltar?

Pule para uma atitude mais sadia de rever suas próprias atitudes e mudar você!

Pense a que nível está a temperatura da sua água? Qual vai ser o primeiro passo que você vai dar?

Uma pequena mudança de atitude, como por exemplo, chegar sorrindo todo dia no escritório, ou dar um "Bom dia" caloroso a todos quando chegar, abre as portas para outras mudanças internas maiores.

Mas ... não faça como o sapo que ficou dando voltas dentro da mesma panela !

Seja honesto com você mesmo e mude para valer!!!!
Desconheço o autor
ilustração: freepik

sábado, 17 de março de 2012

Saudade dela!

Amanha, 17 de março, Elis Regina faria 67 anos





Músicas: 1 - Redescobrir; 2 - Madalena; 3 - Casa no campo; 4 - Aos nossos filhos

quarta-feira, 14 de março de 2012

A cobrança

Depois de um dia de caminhada pela mata, mestre e discípulo retornavam ao casebre seguindo por uma longa estrada.

Ao passar próximo a uma moita de samambaia ouviram um gemido, verificaram e descobriram caído um homem.

Estava pálido e com uma grande mancha de sangue próximo ao coração. O homem tinha sido ferido e já estava próximo da inconsciência e da morte.

Com muita dificuldade, mestre e discípulo carregaram o homem para o casebre rústico onde o trataram do ferimento.

Uma semana depois já restabelecido o homem contou que havia sido assaltado e que ao reagir fora ferido por uma faca.

Disse que conhecia seu agressor e que não descansaria enquanto não se vingasse.

Disposto a partir o homem disse ao mestre:

"Senhor, muito lhe agradeço por ter salvado a minha vida, tenho que partir e levo comigo a gratidão por sua bondade. Vou ao encontro daquele que me atacou, vou fazer com que ele sinta a mesma dor que eu senti".

O mestre olhou fixo para o homem e disse:

"Vá, faça o que deseja. Entretanto devo informá-lo de que você me deve 3.000 moedas de ouro como pagamento pelo tratamento que lhe fiz".

O homem ficou assustado e disse:

"Mas senhor, é muito dinheiro! Sou um trabalhador e não tenho como lhe pagar esse valor".

"Se não podes pagar pelo bem que recebestes, com que direito queres cobrar o mal que lhe fizeram?"

O homem ficou confuso e o mestre concluiu:

"Antes de cobrar alguma coisa procure saber quanto você deve. Não faça cobrança pelas coisas ruins que te aconteceram nesta vida, pois esta vida pode lhe cobrar tudo que você deve, e com certeza você vai pagar muito mais caro.

ilustração: freepik
fonte: A Era do Espírito

sábado, 10 de março de 2012

Na contramão da vida

Num verdadeiro incentivo a promiscuidade a comissão de juristas responsável por elaborar o anteprojeto do novo Código Penal aprovou neste 09 de março, a inclusão no texto de um artigo que não considera crime o aborto realizado por vontade da gestante se, até a 12ª semana de gestação, médico ou psicólogo atestarem que a mulher não tem condições de arcar com a maternidade.

Também não haverá crime de aborto, segundo a proposta, se "comprovada a anencefalia ou quando o feto padecer de graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida independente, em ambos os casos atestado por dois médicos".

Além de não deixar claro o que seriam “graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida independente”, não é levado em conta que se o feto evolui em seu processo gestacional, se tem controle automático de seus batimentos cardíacos e de outras funções viscerais, é porque tem estruturas neurais compatíveis, representadas no mínimo, pelo tronco encefálico. Alem do mais, a utilização corriqueira desse termo favorece, para os leigos, a construção da idéia equivocada e generalizada de que, "não tendo cérebro", nada se pode fazer por esse feto, senão abortá-lo.

O anteprojeto do Código Penal também prevê mudanças com relação ao crime de eutanásia - matar por piedade ou compaixão pessoa imputável em estado terminal, a seu pedido, a fim de abreviar o sofrimento físico em razão de doença grave.

Olvida a comissão, que medida menos drástica seria a aplicação da ortotanásia, que em linguagem médica significa morte no tempo correto ou morte natural, procedimento que visa à humanização da morte, sem a utilização de meios para abreviá-la e também sem tomar atitudes desproporcionais para mantê-la. O termo para a Medicina tem sentido diferente do usado na área jurídica, que o utiliza como sinônimo de eutanásia passiva, gerando equívocos.

O relator do anteprojeto do novo Código Penal, Luiz Carlos dos Santos Gonçalves afirmou que a proposta não vai deixar de considerar aborto como crime, mas vai passar a avaliar questões consideradas "extraordinárias", como, por exemplo, situações de mães viciadas em drogas que - caso queiram e o médico ateste o vício - poderão abortar até a 12ª semana de gestação.

"Não é aborto permitido por motivo de futilidade. Será em casos de dependência química, em situação de desespero. O aborto vai continuar sendo crime, mas abrimos exceções para questões extraordinárias. A gente pensou na situação de dependência química, de mães que abandonam seus filhos em terrenos baldios. Não é uma decisão superficial", afirmou o relator.

Esquece, contudo, a douta comissão que as drogas promovem a alteração patológicas da consciência, inibindo o livre exercício do pensar e do agir, não levando em conta os efeitos deletérios das substâncias psicoativas no psiquismo, que induzem freqüentemente a crises psicóticas.

Outra proposta que abre um leque a promiscuidade é com relação aos casos de infanticídio, durante ou logo após o parto. Nesses casos, a pena para a mãe poderá ser de um a quatro anos de detenção (é de dois a seis anos). O anteprojeto também pode incluir penas para quem induzir ou auxiliar a mãe a cometer o crime. Nesses casos, a pessoa responderá por crime de homicídio, com penas que podem ir de seis a 20 anos de reclusão.

ilustração: freepik

sábado, 3 de março de 2012

A marionete

Este texto, segundo o investgador Raúl Trejo Delabre, foi escrito por um ventríloquo mexicano chamado Johnny Welch como parte de um espetáculo da sua marionete “El Mofles” sendo erroneamente atribuído a Gabriel Garcia Márquez. Nem por isso deixa de ser lindo.

A Marionte

tradução de José Feldman

Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me brindasse com um naco de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas com certeza, pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois entendo que para cada minuto que cerramos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz..

Andaria quando os demais param, despertaria quando os demais dormem. Escutaria quando os demais falam, e como desfrutaria de um bom sorvete de chocolate.

Se Deus me obsequiasse com um naco de vida, vestiria singelo, me atiraria de bruços ao sol, deixando a descoberto, não só meu corpo mas também minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo, e aguardaria a chegada do sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas, um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofertaria à lua.

Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir-lhes a dor dos espinhos e o encarnado beijo das pétalas...Deus meu, se um naco de vida eu tivesse...

Não deixaria passar um único dia sem dizer às pessoas que quero, que lhes quero.

Convenceria a cada mulher ou homem que são meus prediletos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de se enamorar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se enamorar. A uma criança daria asas, mas deixaria que sozinha aprendesse a voar. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi de vocês, os homens. ..

Aprendi que todo mundo quer viver no cume da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir as escarpas.

Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua mãozinha pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.

Aprendi que um homem só tem direito de olhar para outro de cima para baixo quando deve ajudá-lo a levantar-se. São tantas coisas que pude aprender de vocês, mas afinal não me serão de muita serventia porque quando me guardarem dentro desta maleta, infelizmente estarei morrendo.

Ilustradora Kathy Hare

Associação Brasileira de Teatro de Bonecos
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