terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os três homens e o gênio

Havia três homens, sendo um ingrato, um conformado, e um generoso. Certa vez foram visitados, no mesmo instante e local, por um gênio saído da lâmpada. Diante do inusitado, um deles falou:

- Gênio, o que nos traz?

- Rosas! - disse o Gênio.

E abrindo seu manto mágico, dele retirou três lindos buquês de rosas, que ofereceu aos visitados, entregando um para cada. Antes de partir, olhou-os fixamente e, percebendo que houve desapontamento por conta da simplicidade de sua oferta, justificou-se:

- Rosas... porque elas são jóias de Deus. Elas deixam nossa vida mais rica e bela!

Os homens se entreolharam surpresos e, após se despedirem, cada um seguiu seu destino, dando finalidade diferente ao presente recebido.

O ingrato, maldizendo sua falta de sorte por haver encontrado um gênio e dele recebido apenas flores, jogou-as num rio próximo.

O conformado, embora entristecido pela singeleza do presente, levou-as para casa, depositando-as num jarro com água.

O generoso, feliz pela oportunidade que tinha em mãos, decidiu repartir seu presente com os outros. Foi visto pela cidade distribuindo rosas, de porta em porta, com um detalhe: quanto mais rosas ofertava, mais seu buquê crescia em tamanho, perfume e beleza.

No dia seguinte, no mesmo local e instante, os três homens se reencontraram e, de súbito, ressurgiu o gênio da véspera.

- Gênio, o que você deseja? - disse um deles.

- Que suas rosas se transformem em jóias! - disse o gênio. Assim se sucedeu:

O homem generoso encontrou em casa uma carruagem repleta de jóias, extraordinariamente belas, tornando-se rico comerciante.

O homem conformado, retornando imediatamente para seu lar, encontrou, pendurado sobre o jarro onde depositara as rosas, um lindo e valioso colar de pérolas. Resignou-se em ofertá-lo para sua esposa.

O homem ingrato, dirigindo-se ao lugar onde jogara o buquê de rosas, viu, refletindo sobre as águas, um brilho intenso, próprio de jóias valiosas, que sumiu de seus olhos quando se atirou ao rio no propósito de alcançá-las.

Desconheço o autor
ilustração: freepik

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Na arena da transgressão

Extraído de artigo de José de Souza Martins
Estadão - Caderno Aliás - 26/02/12

Repetidos acidentes, até fatais, por uso de veículos por pessoas inabilitadas recebem entre nós o rótulo de "fatalidade". Mas há fatalidades previsíveis, que podem ser evitadas e não o são. Alguém é responsável por elas. A adoção de equipamentos e instrumentos que dependem de maturidade e habilitação para ser manejados deu-se no Brasil como uma espécie de salto do passado ao futuro, sem passagem pelo presente da ressocialização e da reeducação para seu uso. Pulamos da era do cavalo para a era da máquina, dirigindo máquina como quem dirige cavalo. A diferença é que o cavalo é um animal que age inteligentemente, mesmo quando o cavaleiro é burro. No caso da máquina, se falta prudência, maturidade e habilitação, não só o usuário corre risco. Também a sociedade o corre. Nesse risco temos vivido. Basta fazer um recorte temporal, mesmo num curto período, para que nos defrontemos com uma coleção de casos recorrentes.

A morte da menina de 3 anos de idade na praia, em Bertioga, atingida por um jet ski desgovernado, pilotado por um moleque de 13 anos, foi apenas um dos casos de uso irresponsável de máquinas mortíferas nos dias do carnaval. Na represa de Guarapiranga, dois jet skis se chocaram e um dos pilotos, de 20 anos, ficou ferido. Os dois pilotos, maiores de idade, não tinham habilitação, só concedida a quem tenha 18 anos completos. Em novembro, numa lagoa de Ribeirão Preto, dois jet skis, dirigidos por um adolescente de 15 anos e por um homem de 28 anos, se chocaram. O homem morreu. Nenhum dos dois tinha habilitação, concedida pela Marinha.

(...) No caso de Bertioga, não houve nem mesmo a prestação de socorro à vítima. A família do atropelador deixou o local de helicóptero.

O País continua regido por uma cultura da transgressão, própria de uma sociedade de senhores e de escravos. Nela, diferentemente do que ocorre em sociedades civilizadas, o outro é irrelevante; relevantes são o sentimento de superioridade em relação aos demais e a esperteza para escapar das formalidades da lei. Herdamos essas concepções da sociedade colonial, que por ser fundada na desigualdade era também fundada no pressuposto de que o ter e o mandar sobrepõem-se ao ser. Passou o tempo, e o advento da sociedade moderna - e com ela o da classe média e da ascensão social -, em vez de disseminar o cidadão e a igualdade, difundiu a aspiração da afirmação da desigualdade em nome dos valores retrógrados do antigo regime. A lei mudou, na letra e na forma, mas o egoísmo consumista e moderno revigorou costumes e mentalidades.

Há deturpação e crime na licença que usuários se dão de dirigir bêbados um carro ou dirigir um jet ski como se fosse um cavalo num rodeio, o que é próprio de uma sociedade em que nem sempre é a função do objeto que determina seu emprego, mas o abuso, o prazer mórbido de transgredir, a ilusão de poder que dele decorre. Incorporamos os meios e confortos da modernidade, mas não suas funções sociais e, portanto, não as regras de civilidade nelas pressupostas, o preço a pagar.

O caso de Bertioga é particularmente grave porque envolve duas crianças. O atropelador, nos procedimentos para protegê-lo das consequências do crime que cometeu, recebe a feia lição de que mesmo o assassinato pode ser contornado. Mas carregará para o resto da vida a consciência de que tirou a vida de outra criança. Os especialistas que se manifestaram já deram a entender que ele não será punido, o que se compreende. De fato, ele não é um infrator; infrator é quem lhe colocou nas mãos a máquina mortal, sabendo que se tratava de uma ilegalidade e que havia risco para terceiros e para o próprio. Quando muito, os responsáveis indenizarão a família da vítima, como já aconteceu em casos parecidos. Tudo se resolverá na mesquinha lógica mercantil que dissemina de maneira irresponsável a cultura do consumo sem freio, mesmo que seja colocando instrumentos de violência nas mãos de imaturos. Pais e parentes se tornaram acólitos e servos dessa cultura de ostentação, entulhando suas vidas e a de seus filhos com instrumentos que, no limite, matam. Afirmam prestígio na exibição de signos de status à custa de crianças e jovens, até dos próprios filhos, pondo-lhes nas mãos ferramentas de homicídio. A indulgência da lei e dos tribunais acaba fechando o círculo vicioso da impunidade, que consagra a injustiça e não dá ao transgressor a oportunidade de expiar seu delito. Viverá com a alma manchada pelo sangue alheio.
JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A POLÍTICA DO BRASIL LÚMPEN, MÍSTICO (CONTEXTO, 2011)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A idade do gato

Quando as crianças viram adolescentes

Acabo de perceber que, enquanto crianças representam cães - leais e afetuosos-, adolescentes são gatos. É fácil ser dono de um cachorro. Você o alimenta, treina-o e manda nele. O cachorro apóia a cabeça em seu joelho e fica olhando como se você fosse um quadro de Rembrandt. Corre com entusiasmo quando chamado.

Por volta dos 13 anos, seu adorável cachorrinho vira um grande gato velho.

Quando chamado para entrar, ele parece surpreso, como se perguntasse quem morreu e nomeou você imperador. Em vez de acompanhar seus passos, ele desaparece. Você só o verá novamente quando estiver com fome. Nesse momento, interromperá a corrida através da cozinha durante tempo suficiente para farejar o que você está oferecendo. Quando estende a mão para acariciar-lhe a cabeça, naquele antigo gesto afetuoso, ele se afasta com um tranco e oferece um olhar gelado, como se estivesse tentando lembrar onde já o viu antes.

Você, sem perceber que o cachorro agora é um gato, pensa que algo deve estar desesperadamente errado com ele. Parece tão anti-social, tão distante, talvez deprimido. Recusa-se a comparecer às reuniões familiares.

Como foi você quem o criou, ensinou-o a buscar o graveto, ficar parado e sentar-se ao ouvir o comando, supõe que fez algo errado. Afogado em culpa e medo, redobra esforços para fazer seu bichinho se comportar.

Agora você está lidando com um gato e, portanto, tudo o que funcionava antes produz hoje o resultado oposto. Chame-o, e ele fugirá. Diga-lhe que fique sentado, e ele pulará para o balcão. Quanto mais se aproximar dele, torcendo as mãos, mais ele se afastará.

Em vez de continuar a agir como dono de um cachorro, você precisa aprender a se comportar como dono de um gato. Ponha o prato de comida próximo à porta e deixe que ele volte para você. Mas não se esqueça de que um gato também precisa de ajuda e afeição. Sente-se imóvel e ele virá, procurando o colo aquecido e confortável do qual não se esqueceu completamente. Esteja lá para abrir a porta.

Algum dia, seu filho crescido entrará na cozinha e lhe dará um beijão. Dirá:
"Você ficou em pé o dia inteiro! Deixe-me lavar estes pratos." Perceberá, então, que seu gato voltou a ser um cãozinho.

Desconheço o autor
ilustração: internet 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Entusiasmo

A palavra entusiasmo vem do grego e significa “ter um Deus dentro de si”.

Os gregos eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses e pessoa entusiasmada era aquela “preenchida” por um dos deuses e por isso poderia transformar a natureza e fazer as coisas acontecerem.

Assim, se você fosse entusiasmado por Deméter (deusa da agricultura, chamada Ceres na mitologia romana) você seria capaz de fazer acontecer a melhor colheita, e assim por diante.

Segundo os gregos, só as pessoas entusiasmadas eram capazes de vencer os desafios do cotidiano, criar uma realidade ou modificá-la. Portanto, era preciso entusiasmar-se, ou seja, “abrigar um deus dentro de si”

Por isso, as pessoas entusiasmadas acreditam em si, agem com serenidade, alegria e firmeza e acreditam igualmente nos outros entusiasmados.

Não é o sucesso que traz o entusiasmo, é o entusiasmo que traz o sucesso.

O entusiasmo é bem diferente do otimismo.

Otimismo significa esperar que uma coisa dê certo.

Entusiasmo é acreditar que é possível fazer dar certo.

Extraído de artigo de Jayme B. Garfinker
ilustração: shutterstock imagens

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O relincho do cavalo

Contou-nos o dr. Luís Carlderaro, primoroso procurador da Justiça de São Paulo, que há alguns anos um lance de extraordinária presença de espírito ocorrera em uma cidade do interior paulista, envolvendo no plenário do Júri o advogado e o promotor.
A cidade se achava convulsionada pelo julgamento do réu, que cometera crime de grande repercussão, motivo pelo qual à sessão compareceu grande número de assistentes.

À frente do Fórum viam-se desde carros luxuosos, caminhões, charretes, até carros de boi e cavalos arreados que, pelos cavaleiros, eram amarrados nos postes de iluminação pública.

Iniciada a sessão por volta do meio-dia, o sol a pino era causticante e o ar pesado do mormaço tremulava sob o peso da insuportável canícula. Todo mundo vertia suores: o juiz, as partes o réu, os funcionários e assistentes que, apertados comprimiam todo o espaço do recinto forense.

O acusador público, após o relatório do juiz-presidente, iniciou o libelo acusatório, e, como que prevendo a tese de legítima defesa, começou a proferir um estafante explanação sobre aquele instituto jurídico.

O silêncio absoluto só era quebrado pelas palavras do promotor, mas a voz do acusador público era uniforme e cansativa, sem entonações, o que começou a provocar cochilos aqui e acolá. De repente, rompendo a monotonia da voz do promotor público, ouviu-se, vindo de fora do recinto o relincho longo e estridente de um cavalo, que abafou a voz do orador. O relincho perturbou a todos e os que cochilavam acordaram.

O promotor pretendendo extrair proveito da curiosa intervenção equina, dirigiu-se ao advogado de defesa, que também cochilava e perguntou-lhe:

- V.Exa. me aparteou?

Houve risos no plenário.

Incontinenti, o advogado, imperturbável, respondeu fulminantemente:

- Não Exa., não o aparteei. O que V.Exa. ouviu foram os ecos de suas próprias palavras...

A assistência veio abaixo e o juiz-presidente, batendo forte o martelo, ameaçou evacuar o recinto.
Extraído do livro: Grandes advogados, grandes julgamentos – Pedro Paulo Filho
Ilustração: internet
Related Posts with Thumbnails