sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O pássaro, o relógio e o espelho



Um pássaro engaiolado,
  mestre de canto e harmonia,
disse a um relogio cansado
de tanto dar meio-dia.

-Relógio, isto não tem jeito!
Até parece chalaça!
Eu canto, sem ter proveito
e tu trabalhas, de graça !

Queres ouvir um conselho ?
Vê lá se é do teu agrado :
tu te conservas parado,
eu fecho a minha garganta,
fazendo como esse espelho,
que não dá horas nem canta !
Eu já estou desencantado
de cantar sem resultado.

E disse o relógio : - Amigo,
o mesmo se dá comigo.
Mas o espelho disse : - Não !
Nenhum dos dois tem razão.

Nenhum pássaro gorjeia,
sem ter a barriga cheia.
Nenhum relógio tem vida
sem o sustento da corda,
que a corda é a sua comida.

Eu vivo neste abandono,
sem dar despesa ao meu dono.
Sem comer corda ou alpista,
trabalho e, nesta canseira,
estou sempre retratando,
pois, quer queira, quer não queira,
tenho de ser retratista !

E, desde que fui criado
e comecei a espelhar,
nunca vi um retratado,
que, em mim se vindo mirar,
dissesse : - Muito obrigado!
que é modo civilizado
de se pagar, sem pagar.

Catulo da Paixão Cearense
ilustração: freepik

4 comentários:

Geraldo disse...

Bela História Felipe

Abraço

Felipe disse...

Grato pela visita meu amigo.
Forte abraço

Cecilia sfalsin disse...

As vezes reclamamos da vida , do que temos, dos nossos valores ,do que somos, e não percebemos os espelhos que estão por ai desprezados pela vida sem reconhecimento algum...:) uma poesia real onde o canto encanta, o tempo caminha e o espelho este nem do lugar sai, nem tão pouco fala .

Beijos Felipe e boa semana pra ti viu..:)

Felipe disse...

Ciça
Bom vê-la por aqui.
No fundo, no fundo nem o espelho é desprezado. Caso alguém não lhe tire o pó não retratará ninguém.
Beijão minha amiga.

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