domingo, 1 de abril de 2012

O jumentinho de Nosso Senhor

João Ubaldo Ribeiro
 O Estado de S.Paulo



Hoje é Domingo de Ramos e me lembrei de estampas dos livros de minha infância, mostrando Jesus entrando em Jerusalém, cercado por folhas de palmeiras agitadas pelo povo e montado num jeguinho. Nos presépios era também frequente a figura de um jeguinho ao canto, assim como nas cenas que mostravam a fuga da Sagrada Família para o Egito. Animal tido pelos mais velhos, no Nordeste, como abençoado, não só ajudou e transportou o Senhor e a Sagrada Família, como recebeu a graça de portar na cernelha uma cruz de pelagem mais escura, que testemunha o afeto que lhe tinha o Cristo. Não há jeguinho sem essa cruz nas costas - e essa cruz também simboliza o trabalho duro que lhe cabe em seus mais ou menos 50 anos de existência, trabalho que faz sem se rebelar, sem ficar doente, sem exigir trato, nem mesmo alimento, pois come qualquer capim ou mato e até mesmo caixas de papelão, se não achar mais nada.

Na cidade grande, creio que pouca gente sabe o que é um jegue. Sabe-se que é parecido com um cavalo e pode ser denominado indiferentemente de jumento, asno, burro, jerico e outros nomes, todos para nós insultuosos, seguindo a prática humana, que talvez revele muito de nossa natureza, de considerar xingamento ser chamado pelos nomes de animais amigos ou úteis, como cachorro, vaca ou galinha, e achar elogio receber apelidos de feras ou predadores, como tigre, águia ou raposa. Na verdade, a designação "burro" devia ser reservada ao híbrido macho resultante do acasalamento entre um jumento e uma égua, que não são da mesma espécie. Quando nasce uma fêmea, o nome que lhe é dado é "mula". Mas parece que isso vem caindo em desuso, de maneira que, para muita gente, jegue e burro são a mesma coisa.

E o jegue continua a levar fama de pouco inteligente e de temperamento abrutalhado. Maior injustiça não pode haver, é exatamente o contrário. Os jeguinhos desde cedo aprendem seu trabalho, seja levando carga para cima e para baixo, seja até mesmo servindo de "motor" para moagem de dendê, andando em círculos, atado a uma roda de moinho, o dia inteiro. No tempo em que água encanada era difícil em Itaparica, a distribuição da água potável era feita em barricas transportadas em lombo de jegue. Os jeguinhos, que sabiam o caminho de casa e os da freguesia, sustentaram incontáveis famílias de aguadeiros sem dar um tostão de despesa, e tem gente que hoje é doutor de anel no dedo graças ao trabalho deles.

(...)

Apesar de sua inestimável folha de serviços, o jegue não tem o respeito e a estima das novas gerações, pois que, além de tudo, é tecnologia antiga. Ninguém quer mais saber de jegues e agora, naturalmente, todo mundo anda de moto. Os barulhinhos do campo e do mato não virão mais dos passarinhos, do vento nas copas da árvores, dos estalidos dos galhos secos, do farfalho das folhas levantadas pela corrida de um bicho espaventado. Serão barulhos do progresso, escapamento de motos, aceleradas destemidas, curvas audazes. E o cheiro não será o de um curral leiteiro ou da terra molhada pela chuva, será de gasolina, assim como o nevoeiro não se formará entre as nuvens e o horizonte, mas se evolará de canos de descarga fumacentos.

Não há o que fazer, é o progresso. Tudo conspira contra o jumento, nada a seu favor. Até o fato de trabalhar de graça e praticamente não ter custos o prejudica, essas coisas de graça não são boas para a economia. As motos dão escoamento à produção um importante complexo industrial, geram consumo em muitas outras áreas, criam empregos e assim por diante. Nenhum maluco vai comparar um jegue a uma moto, embora eu espere que ninguém venha a pretender modernizar a Bíblia para jovens leitores, fazendo Jesus entrar de moto em Jerusalém, neste caso acho que deve predominar a tradição.

Mas o jegue continua a ajudar. O Brasil está fechando contrato para exportar para a China, num programa chamado Projegue, 300 mil jegues por ano, para serem abatidos, comidos e usados por indústrias de cosméticos. O jeguinho mais uma vez presta serviço, desta feita com a vida. E não mais para sustentar gente, mas para enricá-la. Para mim, comer jumento é uma espécie de canibalismo. Sei que isso pode soar como exagero piegas e talvez seja mesmo. Mas é que é Domingos de Ramos e lembrei os jeguinhos de minha infância, principalmente o jumentinho de Nosso Senhor.

ilustração: internet

4 comentários:

Mary Miranda disse...

Meu Canceriano FAvorito!

Meus olhos ficaram marejados agora... Que crônica sensível escreveu João Ubaldo Ribeiro!
Adoro os animais, amigo, e você sabe bem disso. Quando alguém os maltrata, é como se tivessem me sangrando, além do físico, a alma! Poucos são os animais que sofrem tanto quanto esses de carga... Apanham, comem mal, trabalham dia e noite, e só para provarem que são mesmo úteis, duram muito tempo!...
Acho os jumentos e os híbridos dele, animais muito humildes e dóceis! Já vi vários ao vivo e seus olhares sempre me prendem! (Caio naquela reflexão, de que trabalham feito condenados e ninguém lhes dá valor...)
O trecho onde o autor nos conta que o jumento, de "burro" não tem nada, é verdade! Eles aprendem rapidinho a se virar e logo já estão aptos a levarem grandes pesos.
A ironia de Ubaldo também é tocante, ao se referir ao jegue tendo valor quando se tornar alimento para os humanos. Ele quis dizer que sendo carreteiro ou comida, o jumneto jamais será reconhecido como um ser digno de amor!...

Beijos, meu doce!
ADOREI seu post!!!!

Da presidenta vitalícia e mútua,
Mary:)

Felipe disse...

Moça Bonita
Acho que desumano e burro é quem trata mal qualquer tipo de animal.
Há pouco via num noticiário de TV que uma comunidade indígena da zona norte de São paulo, próxima ao pico de Jaraguá, está sofrendo face ao excesso de cães abandonados na beira da estrada e que vão parar na aldeia.
Os indígenas não têm tradição de terem em casa esses animais e o número muito grande faz com que haja o problema de pulgas, sarna, e feses dos animais que comprometem a saúde da aldeia.
Eles, índios, recolhem os animais que o inteligente "homem branco" abandona.
Com os jegues ocorre a mesma coisa. Depois de haverem trabalhado anos a fio, quando velhos, são abandonados pois, segundo quem os explorou, passam a dar prejuízo.
Deveria existir uma punição exemplar em ambos os casos, mas ...
Beijão do eterno presidente de seu fã clube

Sissym disse...

Felipe, sério que eles vão virar comida?! Puxa... se bem que tem muita gente que come cavalo!

Achei engraçado se referir a "é tecnologia antiga".

Vc tem razão, quando alguem quer criticar, avacalhar, xingar, sempre usa:
voce é uma mula mesmo,
deixa de ser burro,
que jumento, heim?!
parece um jegue!
caramba, é um asno mesmo!

Sinonimos para Jumento são:
asno, burro e jegue.

Jegue é um burrico!

Ou seja,
s.m. Mamífero da ordem dos ungulados, família dos equídeos, menor que o cavalo e com orelhas compridas; jumento, burro.
Fig. Pessoa ignorante; tolo, cabeçudo.
Ficar com cara de asno, perceber que foi enganado.

E o mundo é mundo pq muitos jegues, afins, parentes, iguais, semelhantes, foram usados e abusados por seres que se acham superiores.

BEIJOS

Felipe disse...

Sissym,
Infelizmente, parece que é verdade.
Grato pela aula de português.
Beijão!

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