sábado, 3 de março de 2012

A marionete

Este texto, segundo o investgador Raúl Trejo Delabre, foi escrito por um ventríloquo mexicano chamado Johnny Welch como parte de um espetáculo da sua marionete “El Mofles” sendo erroneamente atribuído a Gabriel Garcia Márquez. Nem por isso deixa de ser lindo.

A Marionte

tradução de José Feldman

Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me brindasse com um naco de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas com certeza, pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois entendo que para cada minuto que cerramos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz..

Andaria quando os demais param, despertaria quando os demais dormem. Escutaria quando os demais falam, e como desfrutaria de um bom sorvete de chocolate.

Se Deus me obsequiasse com um naco de vida, vestiria singelo, me atiraria de bruços ao sol, deixando a descoberto, não só meu corpo mas também minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo, e aguardaria a chegada do sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas, um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofertaria à lua.

Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir-lhes a dor dos espinhos e o encarnado beijo das pétalas...Deus meu, se um naco de vida eu tivesse...

Não deixaria passar um único dia sem dizer às pessoas que quero, que lhes quero.

Convenceria a cada mulher ou homem que são meus prediletos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de se enamorar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se enamorar. A uma criança daria asas, mas deixaria que sozinha aprendesse a voar. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi de vocês, os homens. ..

Aprendi que todo mundo quer viver no cume da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir as escarpas.

Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua mãozinha pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.

Aprendi que um homem só tem direito de olhar para outro de cima para baixo quando deve ajudá-lo a levantar-se. São tantas coisas que pude aprender de vocês, mas afinal não me serão de muita serventia porque quando me guardarem dentro desta maleta, infelizmente estarei morrendo.

Ilustradora Kathy Hare

Associação Brasileira de Teatro de Bonecos

4 comentários:

Sissym disse...

Lindo texto, Felipe. Esta parte:
"Aprendi que todo mundo quer viver no cume da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir as escarpas." É um resumo de toda beleza do conteudo do texto. Eu penso que muitos de nós poderiam se identificar no significado. Mas nunca é tarde para recomeçar, melhorar, e seguir mais feliz.

Beijos

Felipe disse...

Molequinha
Vira e meche queremos ser os donos da empresa sem saber fazer o trabalho do porteiro.
Beijão

Mary Miranda disse...

Um tanto triste, mas bem real esse texto, meu Canceriano Favorito!

Aquela coisa do "Penso, logo existo" me tomou nesse momento... Estaria eu confundindo as estações?
É que marionete me dá a impressão de algo que é manipulado, mas se penso, no sentido de raciocinar, andar com as próprias pernas, ninguém e nada me tira o direito de existir!
O finalzinho é perfeito: "(...)porque quando me guardarem dentro desta maleta, infelizmente estarei morrendo.". É como se dissesse: "Quando eu parar de pensar, minha existência não terá mais o mínimo valor!"
Sei que daqui a pouco começo a estender demais, então, lanço meu "stop" aqui e agora! rs

Beijos, querido, da presidenta mais dedicada!!!!

Mary:)

Felipe disse...

Moça Bonita
Uma história triste, mas muito bonita.
Seu comentário serviu de inspiração. Veja lá:

“Penso, logo existo.”
Existo, logo sou.
Sou, logo quero.
Quero, logo amo.
Amo, logo sofro.
Sofro, logo não penso que existo.

Beijão do presidente "ad eternum"

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