domingo, 5 de fevereiro de 2012

O relincho do cavalo

Contou-nos o dr. Luís Carlderaro, primoroso procurador da Justiça de São Paulo, que há alguns anos um lance de extraordinária presença de espírito ocorrera em uma cidade do interior paulista, envolvendo no plenário do Júri o advogado e o promotor.
A cidade se achava convulsionada pelo julgamento do réu, que cometera crime de grande repercussão, motivo pelo qual à sessão compareceu grande número de assistentes.

À frente do Fórum viam-se desde carros luxuosos, caminhões, charretes, até carros de boi e cavalos arreados que, pelos cavaleiros, eram amarrados nos postes de iluminação pública.

Iniciada a sessão por volta do meio-dia, o sol a pino era causticante e o ar pesado do mormaço tremulava sob o peso da insuportável canícula. Todo mundo vertia suores: o juiz, as partes o réu, os funcionários e assistentes que, apertados comprimiam todo o espaço do recinto forense.

O acusador público, após o relatório do juiz-presidente, iniciou o libelo acusatório, e, como que prevendo a tese de legítima defesa, começou a proferir um estafante explanação sobre aquele instituto jurídico.

O silêncio absoluto só era quebrado pelas palavras do promotor, mas a voz do acusador público era uniforme e cansativa, sem entonações, o que começou a provocar cochilos aqui e acolá. De repente, rompendo a monotonia da voz do promotor público, ouviu-se, vindo de fora do recinto o relincho longo e estridente de um cavalo, que abafou a voz do orador. O relincho perturbou a todos e os que cochilavam acordaram.

O promotor pretendendo extrair proveito da curiosa intervenção equina, dirigiu-se ao advogado de defesa, que também cochilava e perguntou-lhe:

- V.Exa. me aparteou?

Houve risos no plenário.

Incontinenti, o advogado, imperturbável, respondeu fulminantemente:

- Não Exa., não o aparteei. O que V.Exa. ouviu foram os ecos de suas próprias palavras...

A assistência veio abaixo e o juiz-presidente, batendo forte o martelo, ameaçou evacuar o recinto.
Extraído do livro: Grandes advogados, grandes julgamentos – Pedro Paulo Filho
Ilustração: internet

Um comentário:

Sissym disse...

Felipe, quando ouviu-se o relinchar já imaginei que o desfecho só podia ser comico mesmo!
Adorei! Ao menos, embora tanto calor e ter que ouvir a monotonia de um promotor, a infelicidade dele de fazer uma pergunta cretina foi respondida a altura. Bem feito!

Beijos

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