domingo, 27 de novembro de 2011

Os estatutos do homem

Thiago de Mello

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e que de mão dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresça a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livre do jugo da mentira
nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras
o homem se sentara à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa...

Artigo VI
Fica estabelecido, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaias,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

ArtigoIX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal do seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Parágrafo Único
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
a partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Extraído de: Os cem melhores poetas brasileiros do século
Seleção de José Neumanne Pinto
ilustração: freepik.com

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cuidado com as palavras

1) CUIDADO COM A PALAVRA NÃO.

A Frase que contém NÃO, para ser compreendida, traz à mente o que está junto com ela. O NÃO existe apenas na linguagem e não na experiência. Por exemplo: pense em "NÃO"... Não vem nada à mente. Agora, vou lhe pedir não pense na cor vermelha... Eu pedi para você NÃO pensar na cor vermelha e você provavelmente pensou. Procure falar somente o que quer e não o que não quer.


2) CUIDADO COM A PALAVRA MAS, QUE NEGA TUDO QUE VEM ANTES. Por exemplo: "O Pedro é um rapaz inteligente, esforçado, MAS...".
Substitua o MAS por E, quando indicado.

3) CUIDADO COM A PALAVRA TENTAR, QUE PRESSUPÕE A POSSIBILIDADE DE FALHA.
Por exemplo: "Vou tentar me encontrar com você amanhã às 8 horas". Em outras palavras: Tenho grande chance de não ir, pois vou "tentar". Evite TENTAR, FAÇA.

4) CUIDADO COM NÃO POSSO OU NÃO CONSIGO, que dão idéia de incapacidade pessoal. Use NÃO QUERO, NÃO PODIA ou NÃO CONSEGUIA, que pressupõe que vai conseguir, que vai poder.

5) CUIDADO COM AS PALAVRAS DEVO, TENHO QUE OU PRECISO, que pressupõem que algo externo controla a sua vida.
Em vez delas use QUERO, DECIDO, VOU.

6) Fale dos problemas ou das descrições negativas de si mesmo, utilizando o verbo no passado. Isto libera o presente. Por exemplo, "Eu tinha dificuldade em fazer isto..."

7) Fale das mudanças desejadas para o futuro utilizando o tempo presente do verbo. Por exemplo: em vez de dizer "Vou conseguir", diga "Estou conseguindo".

8) Substitua o SE por QUANDO. Por exemplo: em vez de falar "Se eu conseguir ganhar dinheiro vou viajar", diga "Quando eu conseguir ganhar dinheiro, vou viajar".

9) Substitua ESPERO por SEI. Por exemplo: em vez de falar "Eu espero aprender isso", diga "Eu sei que vou aprender isso". ESPERAR suscita dúvidas e enfraquece a linguagem.

10) Substitua o CONDICIONAL pelo PRESENTE. Por exemplo: Ao invés de dizer "Eu gostaria de agradecer a presença de vocês", diga "Eu agradeço a presença de vocês". O verbo no presente fica mais forte e concreto.

Desconheço o autor
ilustração: stockxings ilustrações free

sábado, 19 de novembro de 2011

A luz azul


Certa manhã, o sultão El-Khamir, disse ao prefeito:

Esta noite avistei ao longe uma pequenina luz azul e desejo saber quem passou a noite a velar. Ordeno-lhe apurar a razão desta vigília.

- Obedeço à Vossa Majestade! Porém, é inútil esse inquérito, pois aquela luz provinha do oratório da minha casa! Eu e minha família passamos a noite pedindo a Deus pela saúde de Vossa Majestade!

- Obrigado meu bom amigo - Sinceramente comovido acrescentou - Saberei corresponder aos cuidados que lhe mereço.

O rei, então, chamou o grão-vizir Moallin

- Resolvi recompensar com mil dinares de ouro o prefeito.

- Por Alá! É muito dinheiro! Que teria feito ele para merecer?

- Praticou uma ação nobre e sublime - E narrou o caso da luz.

- Permita-me ponderar - Estais sendo iludido, posso provar, ele não tem família e só sabe orar nas Mesquitas, quando obrigado.

- Mas... E a luz azul, de onde vinha?

- Vejo-me obrigado a confessar - Passei a noite cogitando a cerca dos graves problemas e das questões que Vossa Majestade deve resolver hoje! Juro pelo Alcorão que essa é a verdade!

- Grande e esforçado amigo! Jubiloso disse: - Tereis uma recompensa digna de vossa dedicação!

O rei chamou o general Muhiddin e contou que estava resolvido a conceder o título de xeque de Lohéia ao grão-vizir Moallin. E o bom monarca, contou ao general a história da luz azul.

- Vós acreditastes nisso? Peço provar que ele mentiu como um infiel!

Mentira o prefeito, o grão-vizir! Como poderia, o rei, apurar a verdade?

Modesto, o general confessou:

- Queria ocultar a verdade mas me vejo obrigado a revelar que aquela pequenina luz azul provinha de minha tenda - E o general não hesitou - Com receio que os revoltosos atacassem a noite, acampei nas cercanias da cidade, para maior garantia da vida do rei.

Que heroísmo! O sultão não sabia como agradecer. E depois que o general saiu cogitou, "Vou lhe conceder o título de príncipe e uma pensão anual de vinte mil dinares! Não... Merece muito mais - Salvou-me a vida.. A coroa... Como não chegasse a uma conclusão satisfatória consultou Ali-Effendi, seu velho mestre e conselheiro.

O sábio ponderou:

- Não deves acreditar no prefeito, nem no grão-vizir, nem no general. Creio que a tal luz provinha do farol de El-Basin.

O rei surpreso:

- Então era a luz do farol!

Naquela mesma noite, depois da última prece, o rei chegou à varanda para olhar o panorama da cidade, que dormia. Surpresa estranha: como todos já sabiam sobre as recompensas, a cidade estava extraordinariamente iluminada. Nunca se vira tanta luz azul! E o crédulo rei compreendeu então, que para cada súdito honesto e dedicado havia um milhão de mentirosos e bajuladores.
ilustração: freepik

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um conto judeu

Três mulheres conversando ao lado de um poço. Um velho as escutava.

A primeira mulher dizia:

- Meu filho é muito forte, corre e pula.

A segunda dizia:

- O meu filho canta como os passarinhos.

A terceira mulher nada dizia, então o velho perguntou:

- Você não tem filhos?

Ela respondeu:

- Tenho, mas ele é um menino normal como todas as crianças.

As três mulheres pegaram seus potes cheios de água e foram caminhando.

No meio do caminho, elas pararam para descansar e o velho homem sentou ao lado delas.

Logo elas viram seus filhos voltando para perto delas.

O primeiro vinha correndo e pulando, o segundo vinha cantando lindas canções.

O terceiro não vinha pulando nem cantando, ele correu em direção a sua mãe e pegou o pote cheio de água e levou para casa.

Então as três mulheres perguntaram para o velho homem:

- O que o senhor achou dos nossos filhos?

E o velho homem respondeu:

- Realmente, eu acabei de ver três meninos, mas vi apenas um filho.

fonte: A Era do Espírito
ilustração: freepik.com

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Criaturas únicas

Um jovem procurou seu professor porque se sentia um inútil. Achava-se lerdo, não conseguia fazer nada bem. Desejava saber como poderia se melhorar e o que devia fazer para que o valorizassem.

O professor, sem olha-lo, lhe disse: “sinto muito, mas antes de resolver o seu problema, preciso resolver o meu próprio. Talvez você possa me ajudar.”

Tirou um anel que usava no dedo pequeno e deu ao rapaz, recomendando: “vá até o mercado. Preciso vender este anel porque tenho que pagar uma dívida. É preciso que você consiga por ele o máximo, mas não aceite menos do que uma moeda de ouro.”

O rapaz pegou o anel e foi oferece-lo aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, mas quando ele dizia o quanto pretendia por ele, desistiam.

Quando ele mencionava uma moeda de ouro, alguns riam, outros saíam sem ao menos olhar para ele. Somente um velhinho muito amável lhe explicou que uma moeda de ouro era muito valiosa para aquele anel.

Abatido pelo fracasso, o rapaz retornou à presença do professor, dizendo que o máximo que lhe ofereceram foram duas ou três moedas de prata. Ouro, nem pensar!

O dono do anel respondeu que seria importante, então, saber o valor exato do anel. Sugeriu que o jovem fosse ao joalheiro para uma correta avaliação. E fez outra recomendação: não importa o valor que lhe ofereçam, não venda este anel.

O jovem foi, um tanto desanimado. O joalheiro, depois de examinar com uma lupa a jóia, pesou-a e lhe disse: “diga ao seu professor que, se ele quiser vender agora, não posso lhe dar mais do que cinqüenta e oito moedas de ouro.”

O rapaz teve um sobressalto: “cinqüenta e oito moedas de ouro?”

“Sim”, retornou o joalheiro. “com tempo, eu poderia oferecer cerca de setenta moedas. Mas, se a venda é urgente...”

O discípulo recusou a oferta e voltou correndo para dar a boa notícia ao professor. Depois de ouvi-lo, o professor falou: “sente-se, meu rapaz. Você é como este anel, uma jóia única e valiosa. Como toda jóia preciosa, somente pode ser avaliada por quem entende do assunto.”

Por acaso você imaginou que qualquer um poderia descobrir o seu verdadeiro valor?”

Tomando o anel das mãos do rapaz, tornou a colocá-lo no dedo, completando: “todos somos como esta jóia: muito valiosos. No entanto, andamos por todos os mercados da vida pretendendo que pessoas inexperientes nos valorizem.”

Pense: ninguém pode nos fazer sentir inferiores, sem nosso consentimento.”

fonte: Momento Espírita
ilustração: internet 

domingo, 6 de novembro de 2011

Apenas P.U.S.H.

Uma noite, um homem estava dormindo em sua cabana quando, de repente seu quarto ficou cheio de luz e Deus lhe apareceu.
O Senhor disse ao homem o trabalho que ele deveria fazer para Ele e mostrou-lhe uma grande rocha na frente de sua cabana.
O Senhor explicou que o homem deveria empurrar (PUSH) a rocha com toda a sua força.
O homem então o fez, dia após dia.
Por muitos anos ele pelejou de sol a sol; com seus ombros escorados na fria e maciça superfície da rocha imóvel, empurrando-a com toda a sua força.
A cada noite o homem retornava à sua cabana aborrecido e sem roupa, sentindo que havia gasto todo o seu dia em vão.
Desde que o homem mostrou-se desencorajado, o Adversário decidiu entrar em cena colocando pensamentos em sua mente desgastada.
"Você tem empurrado essa rocha por tanto tempo, e ela ainda nem sequer se moveu."
Isso dava ao homem a impressão de que sua tarefa era impossível e que ele era um fracasso.
Esses pensamentos desencorajavam e desanimavam o homem.
"Por que eu vou me matar tentando fazer isso?", ele pensou.
"Eu farei apenas o possível, colocando o mínimo esforço e isso será suficiente".
Era o que ele planejava fazer, até que um dia ele decidiu fazer disso um alvo de oração e levar os seus pensamentos atribulados ao Senhor.
"Senhor", ele disse, "eu tenho trabalhado duro e por muito tempo em Teu serviço, colocando toda a minha força pra fazer aquilo que o Senhor me mandou.
Entretanto, após todo esse tempo eu não consegui mover essa rocha por nem um milímetro. O que está errado? Porque eu tenho falhado?"
O Senhor respondeu com compaixão: "Meu amigo, quando eu lhe disse para me servir e você o aceitou, eu disse que sua tarefa seria empurrar a rocha com toda a sua força, e é o que você tem feito. Eu nunca sequer mencionei que eu esperava que você a movesse.
Sua tarefa era empurrá-la. E agora você vem a mim após todo o seu esforço, pensando que você falhou.
Mas, será isso realmente verdade? Olhe para si mesmo. Seus braços estão fortes e musculosos, suas costas estão enrijecidas e bronzeadas, suas mãos estão calejadas pela pressão constante, suas pernas se tornaram musculosas e firmes.
Pela oposição você cresceu muito e agora suas habilidades superam o que você era antes.
Ainda assim, você não moveu a rocha, mas seu chamado foi para ser obediente e empurrar, exercitando sua fé e confiança na minha sabedoria.
E isso foi o que você fez. Agora, meu amigo, Eu mesmo moverei a rocha."
Às vezes, quando ouvimos uma palavra de Deus, nós tentamos, a usar, para o nosso próprio intelecto para decifrar o que Ele quer, quando na verdade o que Ele deseja é apenas nossa obediência e fé Nele.
Em todos os sentidos, exercite a fé que remove montanhas, mas saiba que continua sendo Deus quem as move.
Quando tudo parecer estar errado, apenas empurre (P.U.S.H.)!
Quando o trabalho te deixar pra baixo, apenas P.U.S.H.!
Quando as pessoas não agirem da maneira que deveriam, apenas P.U.S.H.!
Quando o seu dinheiro parecer ir embora e as contas ficarem, apenas P.U.S.H.!
Quando as pessoas não compreenderem você... apenas P.U.S.H.!

P. = Pray (ore)
U. = Until (até)
S. = Something (alguma coisa)
H. = Happens (acontecer)


Desconheço o autor
ilustração: freepiks

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Tortura e glória

Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos. Veio a ter um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de algum livrinho, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima com paisagem de Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como data natalícia e saudade.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.

Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa.

Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Bom, mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do dia seguinte ia se repetir com o coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer está precisando que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você não veio, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se formando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Esta devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não entender. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para ela não era essa descoberta. Devia ser a descoberta da filha que tinha. Com certo horror nos espiava: a potência de perversidade de sua filha desconhecida, e a menina em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar agora mesmo As reinações de Narizinho. E para mim disse tudo o que eu jamais poderia aspirar ouvir. “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.”

Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse é tudo o que uma pessoa, pequena ou grande, pode querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.

Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido, pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais comendo pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

fonte: O pequeno livro das grandes emoções
ilustração: internet

Dia mundial do diabetes

22 de Novembro – Use azul.

Você sabia que no mundo uma pessoa morre a cada 8 segundos por causa do diabetes?

No próximo dia 22 de Novembro acontecerá em Itanhaém – São Paulo - a Campanha do DIA MUNDIAL DO DIABETES.

O evento está sendo organizado e coordenado por voluntários, dentre eles a Dra. Amanda Donnangelo Martins, com o apoio da Municipalidade de Itanhaém, tendo como objetivo fornecer à todos informações detalhadas sobre a doença, seus fatores de risco e suas complicações.

Serão dadas orientações técnicas para o auto-cuidado, estímulo de vida saudável e rastreamento de novos casos de diabetes.

Durante a semana que antecede o DIA MUNDIAL DO DIABETES, diversos pontos turísticos daquela cidade do litoral paulista, estarão iluminados com a luz azul, cor que representa mundialmente a campanha.

No dia 22, haverá um evento na praça principal de Itanhaém e diversos serviços serão prestados à população. Dentre eles:

Ação de educação sobre como prevenir e diagnosticar a doença;

Oficinas de nutrição – alimentação saudável e alimentos de alta concentração de glicose;

Oficinas de atividades físicas – como ter uma vida saudável;

Aferição de glicemia;

Palestras de conscientização sobre o Diabetes – cuidados, sintomas e tratamentos;

Palestras de odontologia – saúde bucal.

O evento terá início às 8hs com encerramento previsto para as 17hs. Serão nove horas ininterruptas de esclarecimento sobre o Diabetes.

Participe e divulgue.


ilustração: logo da campanha
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