terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A meditação e o gato

Num antigo mosteiro chinês, no alto de uma montanha no Nepal, era o centro de uma paz absoluta, e monges de toda a China procuravam aquele monastério tão tradicional e reservado.

Todos os dias sempre às quatro e meia da manhã, o mosteiro se reunia em silêncio para a primeira meditação matinal, este momento era sagrado para os monges, e o silêncio da madrugada deveria sempre ser respeitado, mas em uma manhã de verão esse silêncio sagrado foi quebrado por um gato, o animal procurando comida e abrigo resolveu morar na cozinha do templo, e neste dia ele começou sua busca por comida caçando os ratos que também se instalaram por ali, o bichano iniciou uma balburdia insuportável, derrubando panelas, vasilhas, miando e correndo atrás dos ratos da cozinha, isto não seria problema para os monges se o gato não tivesse escolhido justamente o horário da madrugada para realizar suas caçadas, atrapalhando a concentração dos momentos de meditação.

Sob a ótica de conduta dos monges, eles deveriam ser piedosos com o animal, e nunca enxotariam o gato do mosteiro ou lhe fariam algum mal, durante alguns dias eles tentaram aceitar o barulho e deixar o gato livre, mas a arruaça foi ficando insuportável, e o mestre abade do templo resolveu tomar uma providência, pedindo que os monges amarrassem e amordaçassem o gato durante os períodos de meditação e o soltassem logo após a prática matinal.

Este procedimento foi feito durante muito tempo, resolvendo o problema de barulho durante as meditações da madrugada, os anos se passaram, o mestre abade morreu, e mesmo assim continuavam a amarrar o gato diariamente durante os momentos de meditação matinal, mais alguns anos se passaram e o gato morreu, e os monges preocupados, resolveram encontrar outro gato para colocar no lugar do antigo, e o novo gato continuou sendo amarrado diariamente.

As décadas se passaram, e novas gerações de monges e mestres mantiveram o hábito diário de amarrar o gato, que acabou se tornando um importante ritual naquele famoso e respeitado templo, e a esta altura, ninguém mais sabia o porquê de amarrar o gato, mas justamente por isso, aquele ritual se tornou muito importante, sendo uma característica famosa daquele monastério. Monges veteranos cobiçavam a importante função de amarrador de gatos, manuais foram criados com as normas e procedimentos de todo o processo para amarrar o gato, ensinando como pegar o gato, que tipo de corda e mordaça utilizar, quantas voltas com a corda deveriam ser dadas, que tipo de nó poderia ser feito, enfim, uma verdadeira enciclopédia do ritual de como amarrar e amordaçar o gato.

O tempo passou, e vários grupos de estudiosos começaram a dedicar suas vidas a estudar os manuais e a origem do ritual sagrado de amarrar o gato. Estes grupos se dividiram, e começaram a divergir sobre várias questões, várias interpretações surgiram, e correntes de seguidores começaram a defender teorias diversas sobre o ritual sagrado, estas divergências geraram conflitos internos, e as origens e processos do ritual passaram a ser o ponto de discórdia entre os dois grupos formados.

Um dos pontos principais de divergência era que, um dos grupos acreditava que somente gatos brancos poderiam ser amarrados, pois o branco simbolizava a pureza da alma e a evolução espiritual, o outro já defendia que qualquer gato poderia ser amarrado e que isto não fazia diferença nenhuma e resolveu ir embora do famoso monastério para fundar uma nova ordem, que daria continuidade ao ritual da forma que achavam correta, sendo assim, estes dois grupos passaram a divergir constantemente e não mantiveram mais contato, pois o primeiro era acusado de ser radical e o segundo de ser extremamente liberal.

Após a separação, novas correntes começaram a se formar, e um terceiro grupo começou a se formar, divulgando uma teoria que unia as duas linhas divergentes, eliminando seus defeitos e absorvendo suas qualidades.

O antigo monastério da montanha em Kathmandu no Nepal foi aos poucos se dividindo, e hoje nenhuma das linhagens existe mais, e o ritual de amarrar o gato caiu no esquecimento.

Este conto é muito interessante para evidenciar o que acontece em muitas empresas e instituições, instituições religiosas, é muito comum ver pessoas que cumprem normas e procedimentos totalmente sem sentido e sem fundamentos, que simplesmente são feitos porque alguém que já os fazia antes, e terminam sendo os fatores geradores da estagnação de muitas empresas.

A falta de questionamento e análise, afunda organizações, impede o processo criativo e inovador, emperrando o desenvolvimento dos negócios, precisamos desamarrar os gatos de nossas empresas, e desmistificar atitudes e conceitos retrógrados, muitas vezes sem sentido e ultrapassados.

Analise sua vida profissional e pessoal, e perceba quantos gatos existem aguardando para serem desamarrados.

Texto esparso extraído de: "A Era do Espírito"
ilustração: freepik.com


4 comentários:

Maria Marçal disse...

Esse teu Blog é altamente instrutivo,meu caro amigo.

Fez-me lembrar o que aconteceu comigo dentro desse contexto no setor de trabalho, certa vez e que nunca esqueci:
- O TJRS nos convocou a participar de um curso de atualização e sentei-me ao lado de minha chefe. Duas semanas.

Ao retornar, pedi permissão para mudar a forma de pesquisa dos arquivos já que havia feito isto no maior órgão do TJ com sucesso antes desse setor.

Pois bem...olhou-me atravessado e permitiu. Passei dois dias catalogando tudo novamente, fazendo um novo organograma de pesquisa (fácil, rápido) como o curso incentivou e esta me chamou:

- Olha, Maria, sei que ficou prático, mas não leves a mal só que "me encontro" como era antes. Podes voltar ao que era?!!!

E assim voltamos a procurar pelos papeis em caixas sem data, sem absolutamente nada.

obs.: moral da história - nem sempre as chefias permitem que um funcionário se destaque por competência.

beijos, Maria Marçal - Porto Alegre - RS

Felipe disse...

GG
Você bem sabe que em se tratando de poder judiciário, por melhor que seja a inovação dificilmente será aceita.
Os funcionários e as chefias estão viciados naquele trabalho careta, que por sinal dá trabalho, e não querem mudar nada.
Beijão

Mary Miranda disse...

Amigo e querido Canceriano Favorito!

Penso o seguinte: olha o tempo que se perdeu ao tentar amarrar o gato... Antes eles mudassem o horário das meditações, não é mesmo?
E, meu querido, como não falar da maneira retrógrada e falha das nossas instituições, cumprindo ordens sem sentido, que nada têm a ver com a praticidade e boa funcionalidade de uma equipe progressista!
"Gatos amarrados" formam, no futuro, as superstições, lendas, mitos, tudo o que nos tornam temerosos diante das mudanças.
É preciso "desamarrar os gatos"... Que lição se encerra nessa tão sublime reflexão!

Amei, mesmo, esse artigo!
Não poderia vir de ninguém mais, senão do meu adorável presidente!!!!

Beijos, amigo!

Mary:)

P.S.: Como está a Iva? Nunca mais soube dela... Manda um beijo pra ela também!!!!

Felipe disse...

Moça Bonita,
Comecemos pelo mais importante: A Iva está ótima, e também o "Felipinho" (1m90). Pouco falo dela porque tem a síndrome das virginianas (trabalho em silencio e detesta aparecer).
Quantos aos gatos: Estão amarrados porque muitos têm receio ou preguiça de questionar o "por que?".
Sabemos que cada um tem seu momento então, não adanta saltar etapas.
Por mais que tentemos mostrar que há uma forma mais fácil, o hábito faz com que muitos permaneçam na mesmice,
Beijão minha doce presidenta.

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