sábado, 19 de novembro de 2011

A luz azul


Certa manhã, o sultão El-Khamir, disse ao prefeito:

Esta noite avistei ao longe uma pequenina luz azul e desejo saber quem passou a noite a velar. Ordeno-lhe apurar a razão desta vigília.

- Obedeço à Vossa Majestade! Porém, é inútil esse inquérito, pois aquela luz provinha do oratório da minha casa! Eu e minha família passamos a noite pedindo a Deus pela saúde de Vossa Majestade!

- Obrigado meu bom amigo - Sinceramente comovido acrescentou - Saberei corresponder aos cuidados que lhe mereço.

O rei, então, chamou o grão-vizir Moallin

- Resolvi recompensar com mil dinares de ouro o prefeito.

- Por Alá! É muito dinheiro! Que teria feito ele para merecer?

- Praticou uma ação nobre e sublime - E narrou o caso da luz.

- Permita-me ponderar - Estais sendo iludido, posso provar, ele não tem família e só sabe orar nas Mesquitas, quando obrigado.

- Mas... E a luz azul, de onde vinha?

- Vejo-me obrigado a confessar - Passei a noite cogitando a cerca dos graves problemas e das questões que Vossa Majestade deve resolver hoje! Juro pelo Alcorão que essa é a verdade!

- Grande e esforçado amigo! Jubiloso disse: - Tereis uma recompensa digna de vossa dedicação!

O rei chamou o general Muhiddin e contou que estava resolvido a conceder o título de xeque de Lohéia ao grão-vizir Moallin. E o bom monarca, contou ao general a história da luz azul.

- Vós acreditastes nisso? Peço provar que ele mentiu como um infiel!

Mentira o prefeito, o grão-vizir! Como poderia, o rei, apurar a verdade?

Modesto, o general confessou:

- Queria ocultar a verdade mas me vejo obrigado a revelar que aquela pequenina luz azul provinha de minha tenda - E o general não hesitou - Com receio que os revoltosos atacassem a noite, acampei nas cercanias da cidade, para maior garantia da vida do rei.

Que heroísmo! O sultão não sabia como agradecer. E depois que o general saiu cogitou, "Vou lhe conceder o título de príncipe e uma pensão anual de vinte mil dinares! Não... Merece muito mais - Salvou-me a vida.. A coroa... Como não chegasse a uma conclusão satisfatória consultou Ali-Effendi, seu velho mestre e conselheiro.

O sábio ponderou:

- Não deves acreditar no prefeito, nem no grão-vizir, nem no general. Creio que a tal luz provinha do farol de El-Basin.

O rei surpreso:

- Então era a luz do farol!

Naquela mesma noite, depois da última prece, o rei chegou à varanda para olhar o panorama da cidade, que dormia. Surpresa estranha: como todos já sabiam sobre as recompensas, a cidade estava extraordinariamente iluminada. Nunca se vira tanta luz azul! E o crédulo rei compreendeu então, que para cada súdito honesto e dedicado havia um milhão de mentirosos e bajuladores.
ilustração: freepik

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