domingo, 3 de abril de 2011

A ilha

Um velho avião cortava os céus. Embaixo, o rio seco estava salpicado de ilhotas. De repente a pressão do óleo começou a baixar e o piloto resolveu pousar no primeiro lugar que aparecesse. E este lugar surgiu sob a forma de uma ilha de tamanho considerável, que, imponentemente e sobrepujando todas as outras, era o lugar ideal para um pouso.

As rodas tocaram suavemente o solo arenoso, num pouso perfeito. A pane foi sanada com a colocação do óleo que, previdentemente, existia no avião para situações de tal natureza.

Antes de reiniciar a viagem, o piloto examinou aquele lugar. A ilha, como as demais que a cercavam, só aparecia na época da seca e, em situação normal, era parte do leito do Araguaia. Lugar belíssimo, de uma areia alva e fina, cercado por águas barrentas e coberto com pedrinhas multicores, parecia um oásis perdido no deserto verde da mata ribeirinha.

O piloto decolou, levando consigo dez pedrinhas, escolhidas a dedo, que teriam finalidade dupla: seriam recordação daquele lugar fabuloso e excelente presente para sua filhinha.

Assim, a ilha ficou para trás, ela pertencia ao passado; agora só uma coisa realmente interessava, a pressão do óleo, que deveria permanecer normal até a próxima etapa da rota.

O tempo passou... Um tenente continuava vivendo a sua vida e uma garota loura juntara à sua coleção de bonecas um punhado de pedrinhas. A ilha fora esquecida!

Certo dia, um joalheiro famoso, ao visitar o oficial, teve a sua atenção despertada para as pedrinhas, que no momento serviam de peças num jogo de três-marias. - "Tenente, onde o senhor encontrou estes cascalhos?" Essa pergunta saiu dos lábios do visitante numa forma de súplica e intensa curiosidade. O tenente explicou então a sua rápida permanência na ilha. - "Pois saiba", concluiu o joalheiro, "que essas pedras são pedras preciosas!" E, separando uma menor, preta, brilhante e luzidia, disse:

- "Isto é satélite de diamante; sua filha brinca de três-marias com uma autêntica fortuna."

Não é preciso dizer o que se passou com aquele oficial, nem afirmar que, a partir de então, ele foi o mais constante piloto daquela rota. O destino colocou-lhe nas mãos uma fortuna imensa; durante uma fração de tempo ele teve aos seus pés milhares e milhares de pedras preciosas e foi um autêntico Ali Babá na caverna dos quarenta ladrões. Talvez tenha sido o homem mais rico da terra naquele quarto de hora em que permaneceu na ilha! Mas o seu garimpo, aquele tesouro imenso, e a sua ilha existiam agora apenas na imaginação. O Araguaia sepultara para sempre aquele lugar e nunca mais foi possível localizá-lo.

Todos nós, como aquele piloto, encontraremos, se já não encontramos, uma ilha no vôo de nossas vidas. Ela conterá também um rico garimpo, o garimpo do amor, e talvez seja mais preciosa do que a ilha encontrada no Araguaia. Como aquele piloto, pousaremos despreocupados, conheceremos a ilha, que poderá ter o nome doce de uma mulher ou poderá denominar-se juventude, ou talvez seja mesmo uma ilha perdida nas praias do nordeste. Mas, se a ilusão e a ânsia por sensações novas nos fizerem decolar, sem ao menos procurarmos guardar o local onde estivemos ou deixar nele uma placa com os dizeres: "Esta ilha é minha", então levaremos somente algumas pedras preciosas, sob a forma de recordações de um beijo, de um carinho, de um mar verde e do vento, apagando na areia os nomes escritos num coração. E quando um joalheiro famoso, conhecido como o senhor Tempo, nos disser que perdemos um garimpo, voltaremos atrás, como aquele oficial, mas será tarde, porque, como o Araguaia, o passado terá sepultado a nossa ilha. Ficarão apenas, como lembranças, algumas pedras: a saudade de um nome, de um carinho, de um dia... 


fonte: autor desconhecido
ilustração: http://br.freepik.com

5 comentários:

Mary Miranda disse...

Oh, meu Canceriano Favorito...

Você conseguiu - e como conseguiu!- me deixar literalmente em prantos!
Ando muito, muito sensível mesmo, meu querido, e como é bom ler coisas desse tipo, de incentivo, doçura, valorização de sonhos, valorização do ser!
Pedras preciosas, amigo?
Quem precisa delas, quando temos sentimentos, quando em nossos peitos batem corações sonhadores, que buscam, que querem, que anseiam, que nunca desistem?...
Um momento de felicidade pode ser único, mas eterno, e ninguém, NINGUÉM pode arrancar o que nos vai no peito!
A felicidade, às vezes, soa como oásis, algo perdido num deserto inimaginável mas, quem está aí para saber que é um tesouro de difícil alcance?
Se somos felizes, que sejamos sempre, não importando se seja um segundo, um minuto, um mês, um ano, ou uma vida inteira!
A minha felicidade, estando ela no presente, passado ou futuro, trago comigo, real ou imaginária, sensata ou louca, mas é a minha forma de me entender: sou feliz!
E o melhor, meu querido: tento fazer outros felizes também!...

Um beijo dessa presidenta que TE ADORA,muito, muito mesmo!
Estou, como já disse, literalmente emocionada!
Obrigada por esse momento eterno!

Mary:)

Mary Miranda disse...

Oh, meu Canceriano Favorito...

Você conseguiu - e como conseguiu!- me deixar literalmente em prantos!
Ando muito, muito sensível mesmo, meu querido, e como é bom ler coisas desse tipo, de incentivo, doçura, valorização de sonhos, valorização do ser!
Pedras preciosas, amigo?
Quem precisa delas, quando temos sentimentos, quando em nossos peitos batem corações sonhadores, que buscam, que querem, que anseiam, que nunca desistem?...
Um momento de felicidade pode ser único, mas eterno, e ninguém, NINGUÉM pode arrancar o que nos vai no peito!
A felicidade, às vezes, soa como oásis, algo perdido num deserto inimaginável mas, quem está aí para saber que é um tesouro de difícil alcance?
Se somos felizes, que sejamos sempre, não importando se seja um segundo, um minuto, um mês, um ano, ou uma vida inteira!
A minha felicidade, estando ela no presente, passado ou futuro, trago comigo, real ou imaginária, sensata ou louca, mas é a minha forma de me entender: sou feliz!
E o melhor, meu querido: tento fazer outros felizes também!...

Um beijo dessa presidenta que TE ADORA,muito, muito mesmo!
Estou, como já disse, literalmente emocionada!
Obrigada por esse momento eterno!

Mary:)h

Fábio C. Martins disse...

Belíssima parábola, Felipe!
Temos que dar valor às pequenas coisas que encontramos. Acredito que o almirante, naquela hora, soube dar valor ao que encontrou, talvez não um valor financeiro, pois a ilha foi a salvadora da vida dele.

Gostei bastante do texto. Parabéns!
Forte Abraço

Rosana Madjarof disse...

Felipe,

Fiquei encantada com este conto maravilhoso.

Espero em Deus que eu possa levar muitas pedrinhas preciosas garimpadas ao longo da jornada da vida, pois a vida nos oferece milhares destas pedrinhas, mas nem sempre sabemos cultivá-las como deveria.

Lindo demais!

Beijos.

Rô.

Sissym disse...

Vim matar saudades... e já pousei numa ilha literalmente... morando numa! rsssss.... adorei o texto.

Beijos

Related Posts with Thumbnails