segunda-feira, 19 de julho de 2010

O piano velho


Quando ela vem e se senta, o meu coração começa a bater mais forte.
Os seus dedos, macios de veludo, seguram-me a tampa, encostam-na, com cuidado, à parte de trás. Dois panos do pó que um dia a avó bordou, que me tapam e protegem as teclas, são atirados para cima da escrivaninha, ao meu lado, onde ela costuma sentar-se a estudar e a ler.
É então que sinto as cordas do meu coração quase a estoirar de alegria, pois que é agora que lhe posso dizer tudo o que me vai na alma!!!
Os seus deditos a medo, titubiantes, começam a arrancar os primeiros acordes. E eu a fazer todo o possível para que tudo saia bem e ela não desista e me tape outra vez. Que esforço eu faço!… Mas alguns dos meus dentes brancos já não correspondem totalmente ao acorde que ela pretende. E eu esforço-me…
Ela levanta-se, e eu penso sempre, de cada vez, que se vai embora, que já não quer mais,… mas não! São sobressaltos do vem-que-não-vem, do fica-que-não-fica,… mas a vida é isso mesmo!
Só que desta vez ela não foi. Procurou apenas a partitura de Beethoven.
Que lindo! Toda a minha sensibilidade se motiva e canaliza nesta bonita sonata. Todo eu estou ali, inteiro, a dar o meu melhor; eu e ela numa música só, em uníssono, na produção da música-vida-beleza que Beethoven nos deu.
São os meus melhores momentos…! Em que eu dou conta que sou mais que um simples móvel de quarto…; em que sinto que faço parte da vida presente-futuro dela, pois sou eu que a ajudo a criar, a ser capaz de transmitir a todo o universo o que sente, o que lhe vai na alma e que lhe sai pelas pontas dos dedos.
Quando ela acaba, e me tapa outra vez, já não me importa! Demos a nossa contribuição à vida, por hoje.
O que me entristece e me faz infeliz, isso sim, é o facto de ela deixar o amanhã para depois de amanhã. O de ela, pequenina ainda, não compreender que a vida se vive em cada minuto, que o dia que passa se não recupera mais!
Mas só lho posso dizer através dela e é ela que tem de o compreender sozinha, enquanto eu, fechado, tapado, espero o toque da sua mão.
Gabriela Carvalho
A caixinha de Memórias
Magna Design, 1999
adaptado

ilustração: internet

6 comentários:

Sissym disse...

Linda mensagem, não conheia.
A vida tem que ser realmente aproveitada a cada minuto.

Felipe disse...

Sissym
Não nos damos conta disso e depois lamentamos.
Beijão!

Jucifer disse...

Ela levanta-se, e eu penso sempre, de cada vez, que se vai embora, que já não quer mais,… mas não! São sobressaltos do vem-que-não-vem, do fica-que-não-fica,… mas a vida é isso mesmo!

haaaa a vida é bem assim mesmo
quantas e quantas vezes ja pensamos como um piano velho
e quando menos esperamos nos abre a tampa, e suspiramos de alegria
muitas vezes na vida naum soubemos diferencia uma virgula de um ponto final, um adeus de um ate breve
mas estamos aki pra aprender
nem mesmo q seja como um piano velho!!!!
muito linda a mensagem
viajei legal nela

bjim guri

PS: adoro este blog azulzimm:D

Felipe disse...

Juci
A vida é arte. Desde que bem vivida pode transformar um adeus em até breve.
Beijão "azulzimm" pra você

Luciana P. disse...

Oi, Felipe, voltei pro diHITT e já comecei lendo uma linda história. HGostei muito, a vida é, sem dúvida, uma caixinha de surpresas, e todos os momentos precisam ser aproveitados, pois eles não voltam e nenhuma história se repete da mesma maneira. Beijos pra ti!

Felipe disse...

Luciana
Feliz retorno. Seja "rebenvinda".
Grato pela visita e comentário.
Abraços!

Related Posts with Thumbnails