domingo, 13 de junho de 2010

Domingo é dia de poesia - Guilherme de Almeida


A hóspede
Guilherme de Almeida


Não precisa bater, quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
Sobre o pilar, ao lado da cancela,
E abre com ela
A porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
O cântaro de barro e o pão de trigo.
O cão amigo
Pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram a relva e sol, na arca e nos quartos,
Os linhos fartos,
E cheira a lar o azeite da candeia.
Dorme. Sonha. Desperta. Da colmeia
Nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
E vai. Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares
O caminho sonâmbulo que desce.
Caminha – e esquece.


Segunda canção do peregrino

Guilherme de Almeida
Vencido, exausto, quase morto,
Cortei um galho do teu horto
E dele fiz o meu bordão.

Foi minha vista e foi meu tacto:
Constantemente foi o pacto
Que fez comigo a escuridão.

Pois nem fantasmas, nem torrentes,
Nem salteadores, nem serpentes
Prevaleceram no meu chão.

Somente os homens, que me viam
Passar sozinho, riam, riam,
Riam, não sei por que razão.

Mas, certa vez, parei um pouco,
E ouvi gritar: – “Aí vem o louco
Que leva uma árvore na mão!”

E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
Pássaros, frutos, luzes, cores...
– Tinha florido o meu bordão.

fotos: 1 - internet
         2 - DW - World.DE

2 comentários:

Eliane Furtado disse...

Bonito Blog. Descobri por causa da história do vento escrita em 2009.

Felipe disse...

Eliane
Grato por passar por aqui e comentar.
Abç

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