sábado, 28 de novembro de 2009

A Caridade


Humberto de Campos

Há um apólogo em que o diabo compra a alma de um boêmio, cuja carteira enche diariamente de cédulas, para que ele as gaste até a última. No dia em que ficar uma cédula sem ser consumida, está concluída a transação e a alma tem que ser entregue ao comprador. O boêmio gasta, cada dia, centenas de contos com o luxo, com o amor, com o jogo, com as bebidas, com as várias formas de dissipação. Até que uma noite resolve capitular. Não tem em que empregue o dinheiro do diabo. E vai entregar-lhe a alma.



- Aqui me tens – diz. – Não encontrei mais em que despender dinheiro na Terra.

O diabo sorri, toma-lhe a alma, e depois diz; - Há, no entanto, no mundo alguma coisa em que um homem pode consumir, diariamente, e até ao final dos séculos, todo dinheiro que tenha nas mãos. E olhando o homem nos olhos: - Nunca ouviste falar na Caridade?

ilustração: internet

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Enquanto os ventos sopram


Alguns anos atrás, um fazendeiro possuía terras ao longo do litoral do Atlântico. Ele constantemente anunciava estar precisando de empregados.


A maioria de pessoas estava pouco disposta a trabalhar em fazendas ao longo do Atlântico. Temiam as horrorosas tempestades que varriam aquela região, fazendo estragos nas construções e nas plantações.

Procurando por novos empregados, ele recebeu muitas recusas.

Finalmente, um homem baixo e magro, de meia-idade, se aproximou do fazendeiro.

- Você é um bom lavrador? Perguntou o fazendeiro.

- Bem, eu posso dormir enquanto os ventos sopram - respondeu o pequeno homem.

Embora confuso com a resposta, o fazendeiro, desesperado por ajuda, o empregou. O pequeno homem trabalhou bem ao redor da fazenda, mantendo-se ocupado do alvorecer até o anoitecer e o fazendeiro estava satisfeito com o trabalho do homem.

Então, uma noite, o vento uivou ruidosamente. O fazendeiro pulou da cama, agarrou um lampião e correu até o alojamento dos empregados. Sacudiu o pequeno homem e gritou, - Levanta! Uma tempestade está chegando! Amarre as coisas antes que sejam arrastadas!

O pequeno homem virou-se na cama e disse firmemente, - Não senhor. Eu lhe falei, eu posso dormir enquanto os ventos sopram.

Enfurecido pela resposta, o fazendeiro estava tentado a despedi-lo imediatamente. Em vez disso, ele se apressou a sair e preparar o terreno para a tempestade. Do empregado, trataria depois.

Mas, para seu assombro, ele descobriu que todos os montes de feno tinham sido cobertos com lonas firmemente presas ao solo. As vacas estavam bem protegidas no celeiro, os frangos nos viveiros, e todas as portas muito bem travadas. As janelas bem fechadas e seguras. Tudo foi amarrado. Nada poderia ser arrastado. O fazendeiro então entendeu o que seu empregado quis dizer, e retornou para sua cama para também dormir enquanto o vento soprava.

O que eu quero dizer com esta história, é que quando se está preparado - espiritual, mental e fisicamente - não tem nada a temer.
Eu lhe pergunto: você pode dormir enquanto os ventos sopram em sua vida?
Espero que você durma bem.

Autoria ignorada
foto:DW-World-DE


sábado, 14 de novembro de 2009

Ai meu pé!



Certa vez, a dor veio visitar a Terra. Vestiu-se de forma adequada e chegou a uma casa pobre. Havia crianças, uma mulher cansada de tantos afazeres e um homem marcado pelas horas de trabalho exaustivo.


A dor gostou do lugar e se aninhou no dedão do pé direito daquele pai de família. Naquele dia, quase noite, ele se recolheu e nem deu muita atenção para a tal da dor porque o cansaço era maior do que ela.

Mal despertou a madrugada o homem acordou, pulou da cama e começou a se preparar para sair.

Não desejando despertar as crianças e a esposa, ele se ergueu no escuro e logo bateu o dedão num brinquedo esquecido no chão.

Ai, disse ele baixinho. Ui, que dor!

Acariciou o dedo dolorido com a mão calosa e enfiou o pé no calçado.

A dor lhe deu uma espetada. Afinal, ela não estava gostando nada de ficar ali, apertada.

O homem, responsável, saiu mancando. O dedo latejava. Ele sentiu a dor diminuir um pouco quando tirou o pé do calçado, no trajeto que fez de ônibus.

Contudo, logo mais chegou ao destino. Calçou o sapato e andou.

Assim foi o dia inteiro. A dor reclamando, o homem sentindo mas dizendo: Eu preciso continuar. Não posso perder este emprego. Meus filhos dependem de mim.

E tudo acontecia. Ora o dedão topava na quina de um móvel, ora o sapato apertava mais, ora...

A noite surpreendeu o homem na labuta, suando, trabalhando. A dor já não aguentava mais.

E, quando ao ir para casa, o dedão topou numa pedra do caminho, foi o fim. A dor ficou muito zangada e disse: Vou embora. Este homem não sabe me tratar bem.

E lá se foi. Perto dali, ela encontrou uma casa muito bonita, confortável e entrou.

Um homem estava largado no sofá da sala, assistindo televisão. A dor gostou de tudo que viu e se instalou no dedão do pé.

Ai, gritou ele. Que coisa esquisita. Que dor terrível!

Já providenciou uma almofada para acomodar o pé. Ao recolher-se para dormir, enfaixou o local e no dia seguinte, fez repouso.

E no outro, e no outro.

A dor adorou aquele tratamento vip e tomou uma resolução: Não saio mais daqui.


fonte: Momento Espírita
foto: folha imagem

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Duas águias, dois destinos



Um bravo índio encontrou um ovo de uma águia. Sabendo que não haveria a mínima possibilidade de devolver o ovo ao ninho da águia, a melhor coisa a fazer foi colocá-lo no ninho de uma galinha. O resultado era previsível. A ave chocou esse ovo de águia, juntamente com os seus próprios ovos, sem nada perceber, pois sabemos que muitos animais, domésticos ou não, não têm capacidade para pensar como seres humanos. Pouco a pouco, a pequena águia foi sendo chocada juntamente com os pintinhos.




Durante toda a sua vida a águia, pensando ser uma galinha, fez o que uma galinha faz. Ela ciscava o pó em busca de sementes e insetos para comer. Cacarejava e grasnava. E voava com um bater de asas tímido, agitando suas penas a poucos metros do chão. Afinal de contas, era assim que as galinhas voavam.



Os anos se passaram. E a águia foi ficando bastante velha. Um dia, ela viu um magnífico pássaro bem lá no alto, voando no lindo céu azul sem nuvens. Pairando com graciosa majestade nas poderosas correntes de vento, ele voava com a mínima batida de suas fortes asas douradas.



- Que belo pássaro!", disse a águia à sua vizinha. O que é ele?



- É uma águia. a mais imponente, poderosa e magnífica das aves, cacarejou a vizinha.



- Mas não fique imaginando coisas. Você jamais poderia ser como ela. Você é como todas nós aqui, e nós somos galinhas.



Assim, prisioneira dessa crença, a águia não pensou mais naquilo. E morreu pensando ser uma simples galinha.

Do livro: As Estações do Coração


********

Um camponês criou um filhotinho de águia junto com suas galinhas. Tratando--a da mesma maneira que tratava as galinhas, de modo que ela pensasse que também era uma galinha. Dando a mesma comida jogada no chão, a mesma água num bebedouro rente ao solo, e fazendo-a ciscar para complementar a alimentação, como se fosse uma galinha. E a águia passou a se portar como se galinha fosse.




Certo dia, passou por sua casa um naturalista, que vendo a águia ciscando no chão, foi falar com o camponês: - Isto não é uma galinha, é uma águia!



O camponês retrucou: - Agora ela não é mais uma águia, agora ela é uma galinha!



O naturalista disse: - Não, uma águia é sempre uma águia, vamos ver uma coisa..



Levou-a para cima da casa do camponês e elevou-a nos braços e disse: - Voa, você é uma águia, assuma sua natureza!



- Mas a águia não voou, e o camponês disse: - Eu não falei que ela agora era uma galinha !



O naturalista disse: - Amanhã, veremos...



No dia seguinte, logo de manhã, eles subiram até o alto de uma montanha.



O naturalista levantou a águia e disse: - Águia, veja este horizonte, veja o sol lá em cima, e os campos verdes lá em baixo, veja, todas estas nuvens podem ser suas.



Desperte para sua natureza, e voe como águia que és...



A águia começou a ver tudo aquilo, e foi ficando maravilhada com a beleza das coisas que nunca tinha visto, ficou um pouco confusa no inicio, sem entender o porquê tinha ficado tanto tempo alienada. Então ela sentiu seu sangue de águia correr nas veias, perfilou, de vagar, suas asas e partiu num vôo lindo, até que desapareceu no horizonte azul.



Criam as pessoas como se galinhas fossem, porém, elas são águias. Por isso, todos podemos voar, se quisermos.



Voe cada vez mais alto, não se contente com os grãos que lhe jogam para ciscar.



Nós somos águias, não temos que agir como galinhas, como querem que a gente seja. Pois com uma mentalidade de galinha fica mais fácil controlar as pessoas, elas abaixam a cabeça para tudo, com medo.



Conduza sua vida de cabeça erguida, respeitando os outros, sim, mas com medo, nunca!

Autor: James Aggrey
Esta história pode ser vista no livro de Leonardo Boff, com o mesmo título: A águia e a galinha.

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