terça-feira, 29 de setembro de 2009

Os verdadeiros ricos

Pobres são os que roubaram o trabalho dos outros; pobres os condenados por seu egoísmo a comer em demasia; pobres os que jamais bebem água; os que não têm necessidade de trabalhar; os que matam o tempo para que o tempo não os atormente; os que satisfazem todos os seus gostos; os que se convertem em mealheiro; os que sabem que com dinheiro tudo se consegue; os que despojaram o lavrador de sua terra e roubaram à mãe seu filho para transformá-la em ama de leite; os que se valem das mãos e das costas dos demais; os de palavras ásperas e olhar soberbo; os que carregam seu saco de ouro e julgam que ninguém nota; os que levam jóias aos templos e passam insensíveis diante das crianças que tremem de fome e de frio. Pobres os que caminham e não conhecem seu caminho; pobres os que andam carregados e não sabem de quê; pobres os que se apressam em chegar, sem saber para onde vão.


Ricos, os ricos de paz, os sóbrios e os justos, os que gozam a alegria do seu bom coração e não precisam roubar a alheia; os que semeiam e colhem com suas mãos e não precisam que outros semeiem e colham para eles; os que podem mostrar-se como são e não precisam negar nem desfigurar aos demais; os que dizem a si mesmos a verdade e que julgam a si mesmos com justiça e aos outros podem dar do seu bem e da paz, da sua alegria e da sua riqueza. E de tudo isto dão, na boa palavra da verdade e na boa caridade da justiça.


texto: Constâncio C. Vigil

tela: Leonid Afremov

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Amor, imbatível amor

O amor é substância criadora e mantenedora do Universo, constituído por essência divina.

É um tesouro que, quanto mais se divide, mais se multiplica, e se enriquece à medida que se reparte.

Mais se agiganta, na razão que mais se doa. Fixa-se com muito poder, quanto mais se irradia.

Nunca perece, porque não se entibia nem se enfraquece, desde que sua força reside no ato mesmo de doar-se, de tornar-se vida.

Assim como o ar é indispensável para a existência orgânica, o amor é o oxigênio para a alma, sem o qual a mesma se enfraquece e perde o sentido de viver.

É imbatível, porque sempre triunfa sobre todas as vicissitudes e ciladas.

Quando aparente – de caráter sensualista, que busca apenas o prazer imediato – se debilita e se envenena, ou se entorpece, dando lugar à frustração.

Quando real, estruturado e maduro – que espera, estimula, renova – não se satura, é sempre novo e ideal, harmônico, sem altibaixos emocionais. Une as pessoas, porque reúne as almas, identifica-as no prazer geral da fraternidade, alimenta o corpo e dulcifica o eu profundo.

O prazer legítimo decorre do amor pleno, gerador da felicidade, enquanto o comum é devorador de energias e de formação angustiante.

O amor atravessa diferentes fases: o infantil, que tem caráter possessivo, o juvenil que se expressa pela insegurança, o maduro, pacificador, que se entrega sem reservas e faz-se plenificador.

Há um período em que se expressa como compensação, na fase intermediária entre a insegurança e a plenificação, quando dá e recebe, procurando libertar-se da consciência de culpa.

O estado de prazer difere daquele de plenitude, em razão de o primeiro ser fugaz, enquanto o segundo é permanente, mesmo sob injunção de relativas aflições e problemas-desafios que podem e devem ser vencidos.

Somente o amor real consegue distingui-los e os pode unir quando se apresentem esporádicos.


A ambição, a posse, a inquietação geradora e insegurança – ciúme, incerteza, ansiedade afetiva, cobrança de carinhos e atenções –, a necessidade de ser amado caracterizam o estágio do amor infantil, obsessivo, dominador, que pensa exclusivamente em si antes que no ser amado.

A confiança, suave, doce e tranquila, a alegria natural e sem alarde, a exteriorização do bem que se pode e se deve executar, a compaixão dinâmica, a não-posse, não-dependência, não-exigência, são benesses do amor pleno, pacificador, imorredouro.

Mesmo que se modifiquem os quadros existenciais, que se alterem as manifestações da afetividade do ser amado, o amor permanece libertador, confiante, indestrutível.

Nunca se impõe, porque é espontâneo, como a própria vida, e irradia-se mimetizando, contagiando de júbilo e de paz.

Expande-se como um perfume que impregna, agradável, suavemente, porque não é agressivo nem embriagador ou apaixonado...

O amor não se apega, não sofre a falta, mas frui sempre, porque vive no íntimo do ser e não das gratificações que o amado oferece.

O amor deve ser sempre o ponto de partida de todas as aspirações e a etapa final de todos os anelos humanos.

O clímax do amor se encontra naquele sentimento que Jesus ofereceu à Humanidade e prossegue doando, na sua condição de Amante não amado.

Do livro: Amor, Imbatível Amor
Joanna de Angelis/Divaldo Pereira Franco
Ilustração: internet

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todos impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.


Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância. Precisa-se de uma amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.


Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas por que já se tem um amigo.


Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

texto:Vinícius de Moraes
foto: internet

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Uma carta apócrifa, mas linda


A carta que teria sido encontrada nos arquivos do Duque de Cesadini em Roma, e que descreve o aspecto físico de Jesus, apesar de linda, é apócrifa ( segundo a profa. Therezinha de Oliveira em seu livro Estudos Espíritas do Evangelho).

Logo a princípio a carta reflete dogmas, incabíveis para aquela época e faz de Jesus uma figura bela e romantizada, um “deus” que ninguém pode olhar fixo o seu semblante. Estudiosos de documentos históricos examinaram a carta e verificaram seus dados, concluindo: o único Públio Lêntulos da história romana, morreu no ano 63 antes de Cristo, não podendo ter escrito a carta depois de Cristo: pelas expressões idiomáticas e estrangeiras do estilo, a carta foi escrita no século XI depois de Cristo.

Abaixo a referida carta:



RETRATO DE JESUS


Em Roma, no arquivo do Duque de Cesadini, foi encontrado uma carta de Públio Lêntulus, Legado na Galileia, do Imperador Romano, Tibério César. Eis a carta que é um retrato fiel de Jesus:

“Existe nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado profeta da verdade e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do Céu e da Terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus; ressuscita os mortos, cura os enfermos; em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto. Há tanta majestade no rosto que, aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou a temê-lo.

Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, distendido até às orelhas e das orelhas até às espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes. Tem no meio da fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos Nazarenos; o seu rosto é cheio, o aspecto muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis. A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio ; seu olhar é muito especioso e grave; tem os olhos graciosos e claros; o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende apavora e quando ameniza faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade. Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar.

Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele alguém se aproxima, verifica que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua Mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo jamais visto por estas partes uma donzela tão bela.

Das letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem vendo-o assim, porém, em sua presença, falando com ele, tremem e admiram. Dizem que um tal homem nunca foi ouvido por estas partes.

Em verdade, segundo me dizem os hebreus não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina como ensina este Jesus; muitos judeus o tem como Divino e muitos o querelam, afirmando que é contra a lei de tua Majestade.

Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele tem praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde.

Públio Lêntulus
Pesquisa: Therezinha de Oliveira - Estudos Espíritas do Evangelho
Antologia Espírita e Popular

Ilustração: internet

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Testamento inusitado



Este poema foi enviado pela cantora Joanna Fernandes para a revista "Universo Espírita" e publicado em sua edição de nº 04.

Trata-se de um testamento inusitado feito por um mendigo.


O Testamento do Mendigo

Urbano Reis
São Paulo - 03/03/89
Agora, no fim da vida,
como mendigo que sou,
me sinto preocupado,
intrigado e num momento
me pergunto, embaraçado,
se faço ou não testamento.
Não tendo, como não tenho,
e nunca tive ninguém,
pra quem é que eu vou deixar
tudo o que tenho:
os meus bens?
Pra quem é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
minhas calças remendadas,
o meu céu, minhas estrelas,
que não me canso de vê-las,
quando ao relento deitado
deixo meu olhar perdido
distante, no firmamento?
Se eu fizer um testamento
pra que é que eu vou deixar
minha camisa rasgada,
as águas dos rios, dos lagos,
águas correntes, paradas,
onde às vezes tomo banho?
Pra quem é que eu vou deixar,
se eu fizer um testamento,
vaga-lumes que em rebanhos
cercam meu corpo de noite,
quando o verão é chegado?
Se eu fizer um testamento
pra quem é que eu vou deixar,
mendigo, assim como sou,
todo o ouro que me dá
o sol que vejo nascer
quando acordo na alvorada?
O sol que seca meu corpo
que o orvalho da madrugada
com sua carícia molhou?
Pra que é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
os meus bandos de pardais,
que ao entardecer, nas árvores,
brincande de esconde-esconde,
procuram se divertir?
Pra que é que eu vou deixar
estas folhas de jornais
que uso pra me cobrir?
Se eu fizer um testamento
pra que é que eu vou deixar
meu chapéu todo amassado
onde escuto o tilintar
das moedas que me dão,
os que têm a alma boa,
os que têm bom coração?
E antes que a vida me largue,
pra que é que eu vou deixar,
o grande estoque que tenho
das palavras "Deus lhe pague"?
Pra quem é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
todas as folhas de outono,
que trazidas pelo vento
vêm meus pés atapetar?
Se eu fizer um testamento
pra quem é que vou deixar
minhas sandálias furadas,
que pisaram mil caminhos,
cheios de pó das estradas,
estradas por onde andei
em andanças vagabundas?
Pra quem é que eu vou deixar
minhas saudades profundas,
dos sonhos que não sonhei?
Pra que é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
os bancos dos meus jardins,
onde durmo e onde acordo
entre rosas e jasmins?
Pra quem é que eu vou deixar,
todos os raios de luar
que beijam as minhas mãos
quando num canto de rua
eu as ergo em oração?
Se eu fizer um testamento
pra quem é que vou deixar
meu cajado, meu farnel,
e a marca deste beijo
que uma criança deixou
eu meu rosto perguntando
se eu era Papai Noel?
Pra quem é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
este pedaço de trapo
que no lixo eu encontrei
e que transformei em lenço
para enxugar minhas lágrimas
quando fingi que chorei?
Se eu fizer um testamento...
Testamento não farei!
Sem nenhum papel passado,
Que para papéis eu não ligo,
agora estou resolvido:
o que tenho deixarei,
na situação em que estou,
pra qualquer outro mendigo,
rogando a Deus que o faça,
depois que eu tiver morrido,
ser tão feliz quanto eu sou.
ilustração: internet

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Você é a favor ou contra o aborto?

Estaremos realizando durante o mês de setembro uma enquete, a fim de saber a posição dos amigos e leitores sobre o aborto.




Desde já, agradecemos a participação e eventuais comentários sobre este tema que está mexendo com a sociedade brasileira.




A mulher é dona do seu corpo ou o nascituro tem direito a vida?



fotos: Estado de S.Paulo

Estão voltando as flores

Rompe Setembro, desabrocha a primavera.





Primavera
Cecília Meireles


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.




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