terça-feira, 13 de outubro de 2009

A última flor



A décima segunda guerra mundial, como todos sabem, trouxe o colapso da civilização.


Vilas, aldeias e cidades desapareceram da terra. Todos os jardins e todas as florestas foram destruídas. E todas as obras de arte.


Homens, mulheres e crianças tomaram-se inferiores aos animais mais inferiores.


Desanimados e desiludidos, os cães abandonaram os donos decaídos.


Encorajados pela pesarosa condição dos antigos senhores do mundo, os coelhos caíram sobre eles.


Livros, pinturas e música desapareceram da terra e os seres humanos ficavam sem fazer nada, olhando no vazio. Anos e anos se passaram.


Os poucos sobreviventes militares tinham esquecido o que a última guerra havia decidido.


Os rapazes e as moças apenas se olhavam indiferentemente, pois o amor abandonara a terra.


Um dia uma jovem, que nunca tinha visto uma flor, encontrou por acaso a última que havia no mundo. Ela contou aos outros seres humanos que a última flor estava morrendo. O único que prestou atenção foi um rapaz que ela encontrou andando por ali. Juntos, os dois alimentaram a flor e ela começou a viver novamente...


Um dia uma abelha visitou a flor. E um colibri. E logo havia duas flores, e logo quatro, e logo uma porção de flores. Os jardins e as florestas cresceram novamente. A moça começou a se interessar pela própria aparência. O rapaz descobriu que era muito agradável passar a mão na moça. E o amor renasceu para o mundo.


Os seus filhos cresceram saudáveis e fortes e aprenderam a rir e brincar. Os cães retornaram do exílio. Colocando uma pedra em cima de outra pedra, o jovem descobriu como fazer um abrigo. E imediatamente todos começaram a construir abrigos. Vilas, aldeias e cidades surgiram em toda parte. E a canção voltou para o mundo. Surgiram trovadores e malabaristas alfaiates e sapateiros pintores e poetas escultores e ferreiros e soldados e sargentos e tenentes e capitães e coronéis e generais e líderes!


Algumas pessoas tinham ido viver num lugar, outras em outro. Mas logo as que tinham ido viver na planície desejavam ter ido viver na montanha. E os que tinham escolhido a montanha preferiam a planície. Os líderes, sob a inspiração de Deus, puseram fogo ao descontentamento.


E assim o mundo estava novamente em guerra. Desta vez a destruição foi tão completa que absolutamente nada restou no mundo...


Exceto um homem Uma mulher E uma flor.

(História já clássica, de J. Thurber. Extraído da peça “O Homem do Princípio ao Fim” de Millôr Fernandes.) Muitas vezes declamado por de Paulo Autran .

foto: Roselândia

8 comentários:

Sandra F. disse...

Puxa, que texto profundo!
A sociedade, os homens não sabem viver em paz.
E o ciclo recomeça.
Bjs.

Felipe disse...

Sandra.
Quem sabe, aos poucos, nós aprendemos.
Grato pela visita.
Beijão

LL disse...

Felipe,

Belo texto.Parabéns!
Parece-me que os homens esquecem rapidamente a destruição e a tristeza. A ambição é mais forte. Felizmente que há, e haverá sempre, um casal de jovens e uma flor.

Grande abraço
Luísa

Felipe disse...

Luisa.
É o triunvirato que mantém o mundo vivo.
Beijão

Ana Lucia Nicolau disse...

concordo com Sandra(primeiro comentário)
abs

Felipe disse...

Ana.
Grato pela visita.
Abraços!
Felipe

Sissym disse...

Sabe que minha mãe é sobrevivente de guerra, claro, sei bem o significado deste seu belíssimo post! Só quem passou por algo tão trágico que realmente pode ver beleza na simplicidade ou mesmo viver uma vida amargurada.

Olha... para voce:
http://blogzoomideiasdafadasemfim.blogspot.com/2009/10/fada-e-os-selinhos.html

Felipe disse...

Syssim.
Grato pelas palavras, também te gosto.
Beijão

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