sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Testamento inusitado



Este poema foi enviado pela cantora Joanna Fernandes para a revista "Universo Espírita" e publicado em sua edição de nº 04.

Trata-se de um testamento inusitado feito por um mendigo.


O Testamento do Mendigo

Urbano Reis
São Paulo - 03/03/89
Agora, no fim da vida,
como mendigo que sou,
me sinto preocupado,
intrigado e num momento
me pergunto, embaraçado,
se faço ou não testamento.
Não tendo, como não tenho,
e nunca tive ninguém,
pra quem é que eu vou deixar
tudo o que tenho:
os meus bens?
Pra quem é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
minhas calças remendadas,
o meu céu, minhas estrelas,
que não me canso de vê-las,
quando ao relento deitado
deixo meu olhar perdido
distante, no firmamento?
Se eu fizer um testamento
pra que é que eu vou deixar
minha camisa rasgada,
as águas dos rios, dos lagos,
águas correntes, paradas,
onde às vezes tomo banho?
Pra quem é que eu vou deixar,
se eu fizer um testamento,
vaga-lumes que em rebanhos
cercam meu corpo de noite,
quando o verão é chegado?
Se eu fizer um testamento
pra quem é que eu vou deixar,
mendigo, assim como sou,
todo o ouro que me dá
o sol que vejo nascer
quando acordo na alvorada?
O sol que seca meu corpo
que o orvalho da madrugada
com sua carícia molhou?
Pra que é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
os meus bandos de pardais,
que ao entardecer, nas árvores,
brincande de esconde-esconde,
procuram se divertir?
Pra que é que eu vou deixar
estas folhas de jornais
que uso pra me cobrir?
Se eu fizer um testamento
pra que é que eu vou deixar
meu chapéu todo amassado
onde escuto o tilintar
das moedas que me dão,
os que têm a alma boa,
os que têm bom coração?
E antes que a vida me largue,
pra que é que eu vou deixar,
o grande estoque que tenho
das palavras "Deus lhe pague"?
Pra quem é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
todas as folhas de outono,
que trazidas pelo vento
vêm meus pés atapetar?
Se eu fizer um testamento
pra quem é que vou deixar
minhas sandálias furadas,
que pisaram mil caminhos,
cheios de pó das estradas,
estradas por onde andei
em andanças vagabundas?
Pra quem é que eu vou deixar
minhas saudades profundas,
dos sonhos que não sonhei?
Pra que é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
os bancos dos meus jardins,
onde durmo e onde acordo
entre rosas e jasmins?
Pra quem é que eu vou deixar,
todos os raios de luar
que beijam as minhas mãos
quando num canto de rua
eu as ergo em oração?
Se eu fizer um testamento
pra quem é que vou deixar
meu cajado, meu farnel,
e a marca deste beijo
que uma criança deixou
eu meu rosto perguntando
se eu era Papai Noel?
Pra quem é que eu vou deixar,
se fizer um testamento,
este pedaço de trapo
que no lixo eu encontrei
e que transformei em lenço
para enxugar minhas lágrimas
quando fingi que chorei?
Se eu fizer um testamento...
Testamento não farei!
Sem nenhum papel passado,
Que para papéis eu não ligo,
agora estou resolvido:
o que tenho deixarei,
na situação em que estou,
pra qualquer outro mendigo,
rogando a Deus que o faça,
depois que eu tiver morrido,
ser tão feliz quanto eu sou.
ilustração: internet

10 comentários:

Principe Encantado disse...

É grandioso Felipe sábia palavras foram descritas, nada é maior de que atingir a felicidade do saber viver.
Abraços forte

arte-e-manhas.com disse...

É um poema emocionante, Felipe.
Quem diria que, afinal um mendigo tem tanta riqueza para deixar?

Abraços
Luísa

Felipe disse...

Uma lição de vida meu caro príncipe.
Abraços

Felipe disse...

Luísa.
Tanta sabedoria chega a emocionar.
Abraços

Mikasmi disse...

Um poema belissimo.
Uma lição de vida.
Que grande riqueza ele tinha: a felicidade.

Felipe disse...

Concordo com você, minha cara Emilia.
Abraços

Sandra F. disse...

Vendo por esse lado, muito mais riqueza que qualquer cidadão que só vê prédios, não sente o sol sobre a pele por estar enfurnado num escritório fechado o dia inteiro. Nem repara no céu, nunca observa as estrelas.
Muito triste. Como disse o Príncipe, nada é maior que atingir a felicidade de saber viver.
Parabéns, abraços.

Felipe disse...

Sandra
Ele conseguiu uma riqueza que todos perseguem e pouquíssimos encontram.
Beijão

Sissym disse...

Felipe, isso é muito triste porém verdadeiro. Eu sempre tive o coração apertado ao ver pessoas nas ruas, especialmente de idade e crianças. E o que eles foram para este mundo e quem sentirá saudades deles??!!
Eu realmente senti profunda tristeza e incapaz.

Bjs

Felipe disse...

Syssim.
Alguém sentira saudades e eles sentirão saudades de alguém.
São vários os motivos que os levaram a esta situação, uns até por livre vontade.
Pode parecer impossível, mas é verdade.
TRabalhei num grupo de atendimento a essas pessoas e vi de tudo, até coisas alegres.
Beijão

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