terça-feira, 7 de julho de 2009

A primeira pedra

Malba Tahan

Conta-se que viveu outrora, na cidade de Basra, um sultão que era homem muito generoso e sábio - Alá porém é mais sábio! - cheio de bondade e valentia, de nobreza e poderio, que se chamava Malyan El-Vadan.

Um dia, tendo esse poderoso monarca saído a passear sozinho pelos arredores de seu palácio, avistou de longe, quatro homens em atitude agressiva, rodeando uma mulher.

A infeliz, atirada ao chão, ocultando o rosto entre as mãos descarnadas, chorava desesperadamente.

Ao serem surpreendidos pelo rei, ficaram todos mudos de espanto e medo. O sultão, sem demora, os reconheceu: um deles era o vizir Kolahid; o outro o cádi Namã; o terceiro o rico Salah; o último, Radjala, o orgulhoso - todos, enfim, nobres e poderosos senhores da corte.

Que fez esta mulher? inquiriu, sereno, o sultão.

- É uma ladra, o Emir dos Crentes - respondeu Kolahid - foi por nós surpreendida, agora, quando estava a roubar frutas em vosso pomar.

- Roubei para meus filhinhos - soluçava a pobre rapariga - eles têm fome. Eu não tenho nada para lhes dar!

- Que diz a lei? - tornou em tom severo o sultão.

- Rei generoso! acudiu Hadjalá, inclinando-se humildemente - A lei é bem clara. Diz o Alcorão, o nosso livro sagrado, que se deve cortar a mão direita do ladrão. Estou bem certo, ó Rei, que é esse o castigo que cabe a essa pecadora!

- Na minha opinião - interveio o monarca, esta infeliz deve ser perdoada. Não se trata, absolutamente de uma ladra, pois uma pobre mãe desesperada, que rouba para matar a fome de um filho, merece sempre a nossa simpatia e faz juz ao nosso perdão. Alá é clemente e justo! Mas, enfim, como vós a condenastes, ela vai ser por mim castigada com impiedoso rigor.

Depois de pequena pausa, o grande monarca ajuntou:

- Penso, porém, que o castigo que a lei prescreve aos ladrões ainda é pequeno para a falta gravíssima que esta infeliz - segundo vossa opinião - acaba de praticar. Determino, pois, que esta mulher seja imediatamente apedrejada.

Apedrejada! Semelhante sentença, proferida por um homem tão justo e bom como o sultão Malyan, causou, entre os circunstantes, um espanto indescritível.

O emir Kolahid, pálido, tremendo, não sabia o que fazer.

- Emir Kolahid - bradou o sultão, com voz áspera - atirai a primeira pedra.

- Eu não tenho aqui pedra alguma senhor! - balbuciou o emir, mostrando as mãos vazias.

- Atira, então, esta pedra que está em vosso turbante! - ordenou-lhe o rei.

Diante dessa ordem o emir não teve outro remédio. Com grande mágoa no coração arrancou do turbante a valiosa gema que lhe servia de adorno, e atirou-a aos pés da mulher.

- Agora vós. Namã - prosseguiu impassível o sultão - atirai essas pedras que brilham em vossos dedos!

O malvado muçulmano teve assim de despojar-se imediatamente de todos os seus preciosos anéis. A mesma coisa foram obrigados a fazer Salah, o rico, e Hadjalá, o orgulhoso.

Voltando-se finalmente para a mulher, disse o sultão:

- Apanha todas essas pedras, minha filha! Terás, aí, com o que comprar, por toda a vida, o pão e o agasalho para teus filhinhos. Estas livre! Podes partir! Eu também não te condeno: vai-te e não peques mais!

A pobre mulher, entre lágrimas de gratidão, beijou a mão do vizir, seu dono e senhor, tão magnânimo e bom, que sabia fazer um benefício inestimável, castigando, ao mesmo tempo, quatro homens malvados, sem coração.

foto: internet

Um comentário:

ivandro disse...

Que otima parabola se nos nossos dias os governanetes fossem tão justos e corretos como este.

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