sexta-feira, 17 de julho de 2009

Dois poemas de Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, nasceu em 24 de julho de 1890, em Campinas, SP, foi uma personalidade de destaque nos meios intelectuais e sociais como poeta, jornalista, advogado, cronista, tradutor, além de desenhista e profundo conhecedor de cinema. Faleceu em 1969, em São Paulo, SP, no dia 11 de julho.




Esta vida


Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver.
A ciência, se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo.
E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.



Flor do Asfalto


Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...

Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...

Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...

Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

10 comentários:

ProfessorNelsonMS disse...

J. Felipe,

Este post sobre Guilherme de Almeida me fez viajar no tempo e lembrar de um soneto dele que conheci quando cursava o Ensino Médio e que não consigo esquecer. Este soneto chama-se Barcos de Papel e pode ser lido em :

http://www.sonetos.com.br/sonetos.php?n=8364

No seu post, o primeiro poema nos dá uma lição de como enxergar o mundo para que tenhamos muitos momentos felizes.

O segundo texto mostra a capacidade do poeta descrever uma realidade rústica num doce poema.

Gostei muito.

Um abraço.

Nelson

Felipe disse...

Nelson.

Grato pela indicação

Abraços

Felipe

Valdeir Almeida disse...

Felipe,

Passei por aqui para lhe desejar feliz Dia da Amizade.

Desejo que você continue com este seu jeito que cativa a todos e atrai as melhores amizades. Falo isso de coração.

Abraços e que Deus o abençoe.

Jorge disse...

Mano,

Deixei no meu blog um selo (mais um) para sua coleção. Vá pegar, hoquei????

Bração,
Manovo

ialmar pio disse...

Olá ! Lindo blog. Parabéns. Um soneto meu:
S O N E T O

Ialmar Pio Schneider

A distração do espírito é a leitura,
e os grandes mestres nos ensinam tal;
nas obras-primas vasto cabedal
a mente encanta e o pensamento apura...

A existência tem fases de amargura,
pois há um confronto assaz fenomenal:
de um lado luta o bem e do outro o mal
e quem vence por fim é o que perdura...

Escrevam romancistas, seus romances !
Cantem poetas, salutar poesia !
porquanto nesta vida houver os transes,

não vão morrer as páginas aflitas
e nem há de ficar a imagem fria
das criações pra todo sempre escritas !

Canoas (RS) - 31-10-72

Até mais. Ialmar Pio, no Google

Felipe disse...

Ialmar
Grato pela visita e comentário. Parabéns pelo soneto. Muito bom.
Abç

Anônimo disse...

Guilherme de Almeida foi o poeta que embalou minha juventude."Minha avó sem pre que ouvia...";"Ela veio bater à minha porta..."Bandeira da minha terra, bandeira das treze listas"."lembramças ,quantas lembranças,dos tempos que já lá vão, minha vida de criança,minha bolha de sabão..."Ah!obrigadapor colocar seus poemas.
Maria

Felipe disse...

O Príncipe dos Poetas merece destaque neste blog.
Grato pelo comentário.
Abraços

ESpeCiaLmente GaSPaS disse...

Que bonitos poemas :))

Margarida Abreu disse...

Saudades de setenta anos atras quando eu declamava poemas de Guilherme de Almeida nas comemorações na escolinha primária..Tempos felizes.

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