sexta-feira, 19 de junho de 2009

Duas pérolas de Tagore

Eu andava por um caminho atapetado da relva, e de repente ouvi uma voz atrás de mim: “Olha para ver se me reconheces!”

Voltei-me, olhei para ela, e disse: “Não consigo me lembrar do teu nome!”

Ela continuou: “Eu sou a primeira grande Dor que tiveste quando jovem”.

Os olhos dela pareciam a manhã em que o orvalho ainda paira no ar.

Fiquei em silêncio algum tempo, e depois lhe perguntei: “Perdeste aquele imenso fardo de lágrimas?”

Ela sorriu, sem responder, e eu compreendi que as suas lágrimas haviam tido Tempo de aprender a linguagem do sorriso. Depois, suspirando, acrescentou:

“Certa vez disseste que irias acariciar a tua tristeza para sempre...”

Corando, eu respondi: “Sim, mas passaram-se anos e acabei esquecendo”.

Então eu tomei as mãos dela nas minhas, e lhe disse: “Mas também tu mudaste muito”.

Ela respondeu: “O que antes era sofrimento, agora se transformou em paz”


O pássaro domesticado vivia na gaiola, e o pássaro livre na floresta. Mas, o destino deles era se encontrarem e a hora finalmente havia chegado.

O pássaro livre cantou: “Meu amor, voemos para o bosque”.

O pássaro preso sussurrou: “Vem cá, e vivamos juntos nesta gaiola”.

O pássaro livre respondeu: “Entre as grades não há espaço para abrir as asas”.

“Ah”, lamentou o pássaro engaiolado - “no céu não saberia onde pousar”.

O pássaro livre cantou: “Amor querido, canta as canções do campo”.

O pássaro preso respondeu: “Fica junto comigo, e eu te ensinarei as palavras dos sábios”.

O pássaro da floresta retrucou: “Não, não! As canções não podem ser ensinadas!”

E o pássaro engaiolado gemeu: “Ai de mim! Eu não conheço as canções do campo”.

Entre eles o amor era sem limites, mas eles não podiam voar asa com asa.

Olhavam-se através das grades da gaiola, mas em vão desejavam se conhecer.

Batiam as asas ansiosamente, e cantavam:

“Chega mais perto, meu amor!”

Mas o pássaro livre dizia: “Não posso! Tenho medo da tua gaiola com portas fechadas”.

E o pássaro engaiolado sussurrava: “Ai de mim! As minhas asas ficaram fracas e morreram”.

ilustração e foto: internet

Um comentário:

Afrodite disse...

Muito lindo esse texto, Felipe, nos remete à natureza das coisas e ao sentido das emoções.
Faz0nos refletir sobre a vida, o passado e o presente.
Talvez até, indo um pouquinho mais além, à nossa realidade de acontecimentos.
Gostei!

Beijos e bom final de semana pra vc.

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