sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Quadras Populares de Fernando Pessoa




“A QUADRA é o vaso de flores que
o povo põe à janela da sua alma.”




Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...

Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a te não ver
As noites pensando em ti.

Cantigas de portugueses
São como barcos no mar
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.

Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.

A rosa que não se colhe
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que não te olhe
Que não te queira colhida.

Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.

Vai alta a nuvem que passa.
Vai alto o meu pensamento
Que é escravo da tua graça
Como a nuvem o é do vento.

Dizem que não és aquela
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela.
Que mais quererão de ti?

Trazes os sapatos pretos
Cinzentos de tanto pó.
Feliz é quem tiver netos
De quem tu sejas avó!

És Maria da Piedade,
Pois te chamaram assim.
Sê lá Maria à vontade,
Mas tem piedade de mim.

Levas a mão ao cabelo
Num gesto de quem não crê.
Mas eu não te disse nada.
Duvidas de mim? Por quê?

Quando passas pela rua
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
É minha toda a desgraça.

Duas horas vão passadas
Sem que te vejas passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar.

Por cima da saia azul
Há uma blusa encarnada,
E por cima disso os olhos
Que nunca me dizem nada.

Fui passear no jardim
Sem saber se tinham flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.

Baila o trigo quando há vento
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.
Do livro:Quadras ao gosto popular
foto: http.www.fpessoa.com.ar

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails