terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Colecionador de Minutos I


Paulo Lébeis Bomfim nasceu no dia 30 de setembro de 1926 em São Paulo (SP). Abandonou o curso de Direito, que havia iniciado por volta de seus 20 anos, preferindo continuar trabalhando em jornais. Seu primeiro livro, “Antônio Triste”, foi lançado em 1946.
Suas obras foram traduzidas para o alemão, o francês, o inglês, o italiano e o castelhano. Em Maio de 1963, passou a ocupar a cadeira 35 da Academia Paulista de Letras.



O COLECIONADOR DE MINUTOS

Antes de sermos reais somos sonhados.
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Em cada noite de nevoeiro, alguém se torna segredo.
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Abro as janelas. Colho o instante que passa.
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No último andar do arranha céu, os operários são nuvens.
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À meia-noite os ponteiros se amam.
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Crio e me transformo naquilo que escrevo.
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Troco idéias com o mar e saio pela vida falando verde.
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No paraíso dos poetas, os anjos serão palavras.
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Visto um noturno sobretudo. Três estrelas abotoam meu cansaço.
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A grande mentira dos contos de fada é serem reais.
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Ah! os minutos gastos inutilmente. Estou pobre de tempo!
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Não aprisiono o tempo, não escrevo memórias.
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Apago a luz. Invento a noite.
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Cada vez chegamos mais rapidamente. Breve não será mais preciso partir.
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Não uso óculos escuros. Não quero os olhos de luto.
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Hoje gostaria de ser apenas uma capela colonial onde o tempo parou de rezar.
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Surgimos mortalmente feridos. Nascer – o primeiro adeus!
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Lua, vício da noite.
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Tudo passando, e os distraídos a construir vazios.
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Somos centelhas. Algo arde além de nós.

2 comentários:

Daniela Figueiredo disse...

Oi, Felipe:
Não conhecia este poeta. Lindo poema, adorei!
Beijos.

João disse...

José,

Bons pensamentos amigo,eles ajudam a aprofundarmos o sentir e aperceber os mistérios que andamos muitas vezes distraídos.
Muito saudável o ter lido,gostei deles,todos tem profundidade,e neles há também um toque de poesia.

Abraço amigo,
joao

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