Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Dois poemas de Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, nasceu em 24 de julho de 1890, em Campinas, SP, foi uma personalidade de destaque nos meios intelectuais e sociais como poeta, jornalista, advogado, cronista, tradutor, além de desenhista e profundo conhecedor de cinema. Faleceu em 1969, em São Paulo, SP, no dia 11 de julho.




Esta vida


Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver.
A ciência, se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo.
E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.



Flor do Asfalto


Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...

Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...

Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...

Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

A primeira pedra

Malba Tahan

Conta-se que viveu outrora, na cidade de Basra, um sultão que era homem muito generoso e sábio - Alá porém é mais sábio! - cheio de bondade e valentia, de nobreza e poderio, que se chamava Malyan El-Vadan.

Um dia, tendo esse poderoso monarca saído a passear sozinho pelos arredores de seu palácio, avistou de longe, quatro homens em atitude agressiva, rodeando uma mulher.

A infeliz, atirada ao chão, ocultando o rosto entre as mãos descarnadas, chorava desesperadamente.

Ao serem surpreendidos pelo rei, ficaram todos mudos de espanto e medo. O sultão, sem demora, os reconheceu: um deles era o vizir Kolahid; o outro o cádi Namã; o terceiro o rico Salah; o último, Radjala, o orgulhoso - todos, enfim, nobres e poderosos senhores da corte.

Que fez esta mulher? inquiriu, sereno, o sultão.

- É uma ladra, o Emir dos Crentes - respondeu Kolahid - foi por nós surpreendida, agora, quando estava a roubar frutas em vosso pomar.

- Roubei para meus filhinhos - soluçava a pobre rapariga - eles têm fome. Eu não tenho nada para lhes dar!

- Que diz a lei? - tornou em tom severo o sultão.

- Rei generoso! acudiu Hadjalá, inclinando-se humildemente - A lei é bem clara. Diz o Alcorão, o nosso livro sagrado, que se deve cortar a mão direita do ladrão. Estou bem certo, ó Rei, que é esse o castigo que cabe a essa pecadora!

- Na minha opinião - interveio o monarca, esta infeliz deve ser perdoada. Não se trata, absolutamente de uma ladra, pois uma pobre mãe desesperada, que rouba para matar a fome de um filho, merece sempre a nossa simpatia e faz juz ao nosso perdão. Alá é clemente e justo! Mas, enfim, como vós a condenastes, ela vai ser por mim castigada com impiedoso rigor.

Depois de pequena pausa, o grande monarca ajuntou:

- Penso, porém, que o castigo que a lei prescreve aos ladrões ainda é pequeno para a falta gravíssima que esta infeliz - segundo vossa opinião - acaba de praticar. Determino, pois, que esta mulher seja imediatamente apedrejada.

Apedrejada! Semelhante sentença, proferida por um homem tão justo e bom como o sultão Malyan, causou, entre os circunstantes, um espanto indescritível.

O emir Kolahid, pálido, tremendo, não sabia o que fazer.

- Emir Kolahid - bradou o sultão, com voz áspera - atirai a primeira pedra.

- Eu não tenho aqui pedra alguma senhor! - balbuciou o emir, mostrando as mãos vazias.

- Atira, então, esta pedra que está em vosso turbante! - ordenou-lhe o rei.

Diante dessa ordem o emir não teve outro remédio. Com grande mágoa no coração arrancou do turbante a valiosa gema que lhe servia de adorno, e atirou-a aos pés da mulher.

- Agora vós. Namã - prosseguiu impassível o sultão - atirai essas pedras que brilham em vossos dedos!

O malvado muçulmano teve assim de despojar-se imediatamente de todos os seus preciosos anéis. A mesma coisa foram obrigados a fazer Salah, o rico, e Hadjalá, o orgulhoso.

Voltando-se finalmente para a mulher, disse o sultão:

- Apanha todas essas pedras, minha filha! Terás, aí, com o que comprar, por toda a vida, o pão e o agasalho para teus filhinhos. Estas livre! Podes partir! Eu também não te condeno: vai-te e não peques mais!

A pobre mulher, entre lágrimas de gratidão, beijou a mão do vizir, seu dono e senhor, tão magnânimo e bom, que sabia fazer um benefício inestimável, castigando, ao mesmo tempo, quatro homens malvados, sem coração.

foto: internet

Sábado, 4 de Julho de 2009

Saudade de Clara - guerreira, beleza mineira


Clara - guerreira, beleza mineira

Amor Perfeito – Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro

Você Passa Eu Acho Graça – Adaulfo Alves e Carlos Imperial

Tristeza Pé no chão - Armando Fernandes

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Mensagem a Garcia

Condensado do original, de Elbert Hubbard 22/2/1899

"Quando irrompeu, no século 19, a Guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava era comunicar-se, rapidamente, com o chefe dos revolucionários, Garcia, que se sabia encontrar-se em alguma fortaleza do interior do sertão cubano. Mas sem que se pudesse precisar exatamente onde, era impossível comunicar-se com ele pelo correio ou telégrafo. No entanto, o presidente dos Estados Unidos tinha que assegurar-se da sua colaboração o quanto antes. O que fazer? Alguém lembrou ao presidente: - Há um homem chamado Rowan, e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan. Foi-lhe então, confiada esta incumbência. Rowan, de imediato, tomou a carta presidencial, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito e, após quatro dias, saltou de um barco sem coberta, alta noite, nas costas litorâneas de Cuba, embrenhou-se no sertão para, depois de três semanas surgir do outro lado da ilha, atravessando a pé o país hostil e entregando a carta a Garcia.

O que se quer frisar é isto: o presidente deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia. Rowan pegou-a e nem sequer perguntou: Onde é que ele está? Eis aí um homem cuja estátua devia ser colocada em cada escola do mundo. Não é só de ensinamentos dos livros que a juventude precisa. Precisa, sim, de muita persistência para poder mostrar-se altiva no exercício de um cargo, para atuar com responsabilidade e diligência, para dar conta de uma obrigação. Para, em suma, "levar uma mensagem a Garcia".

O General Garcia não é mais deste mundo, mas há outros "Garcias" no mundo de hoje, em todo lugar. Praticamente todos os homens que se empenhem em levar avante uma empresa, uma instituição, vêem-se envolvidos em momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade e falta de responsabilidade no cumprimento de suas tarefas (para os quais são pagos), de grande número de homens e mulheres, ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada tarefa e fazê-la bem feito. A regra geral que se observa em todos os lugares é desatenção, indiferença irritante, trabalhos mal feitos ou deixados por terminar, não cumprimento dos prazos e horários, etc. Triste realidade!

Você mesmo pode observar a realidade dessas palavras. Experimente dar uma ordem a um seu subordinado, ou pedir um favor a um amigo, sem entrar em detalhes. Raramente encontrará alguém que o olhe calmamente, diga-lhe "Sim, senhor" e execute o que lhe pediu.

Nada disso acontecerá! Sabe o que geralmente acontece? O subordinado ficará perplexo, e fará a você uma ou mais das seguintes perguntas: O que é isto? Onde posso encontrar elementos para executar a tarefa? Fui acaso contratado para fazer isto? E se o Senhor pedisse a fulano para fazer? Precisa disso com urgência? Para que o Senhor quer isto? E mesmo que você responda a todas as perguntas, esse seu subordinado ou amigo irá pedir a um companheiro para que o ajude a "encontrar Garcia" e, depois, voltará para lhe dizer que tal homem não existe ou não foi encontrado...

Esta incapacidade de atuar independentemente, esta invalidez de vontade, esta atrofia de disposição e de iniciativa, para se por em campo e agir, são as coisas que retardam a evolução do homem e da sociedade em que vivemos. Se os homens não tomam a iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão quando os resultados de seu esforço redundar em benefício de todos?

Por enquanto, parece que os seres humanos ainda precisam ser dirigidos. O que mantém muito empregado em seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não o fizer, ser despedido no fim do mês.

Ultimamente se tem ouvido muita expressão sentimental, externando simpatia para com os trabalhadores que realizam atividades de sol a sol e muita palavra dura para com os homens ou mulheres que estão na direção de instituições. Entretanto, se é válida a nossa compaixão para com aqueles menos aptos, vale também uma lágrima para aqueles que se esforçam por levar avante uma instituição, empresas privadas ou públicas, cujas horas de trabalho não estão limitadas ao estabelecido no Contrato de Trabalho ou ao som ou apito de encerramento do turno de trabalho, e envelhecem prematuramente, na incessante luta em que estão empenhados contra a indiferença daqueles que, sem o seu espírito empreendedor, andariam neste mundo sem trabalho e sem salário.

O que é importante exaltar, é o homem que trabalha, seja lá de que lado ele esteja (empregado ou dirigente), rico ou pobre, culto ou inculto. Quem promove o desenvolvimento, quem ajuda as instituições a realizarem bem sua missão, quem moraliza a sociedade é o homem que, ao lhe ser confiada uma "Carta a Garcia", tranqüilamente toma a missiva, sem fazer perguntas tolas e sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta ou lata de lixo que encontrar. Este homem nunca fica sem trabalho.

A civilização humana busca ansiosa, insistentemente, homens e mulheres nestas condições, que encarem com seriedade o papel que lhes cabe na vida ou lhes foi confiado, que atinjam o objetivo que lhes foi traçado.

Precisa-se de homens e mulheres assim em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório ou fábrica, em cada grupo de trabalho, assumindo plenamente o seu papel.

Precisa-se urgentemente de pessoas que levem "uma mensagem a Garcia".
foto: Kadu M. de Oliveira

Domingo, 28 de Junho de 2009

A estrela

Havia milhões de estrelas no céu. Estrelas de todas as cores: brancas, prateadas, verdes, douradas, vermelhas e azuis.

Um dia elas procuraram Deus e Lhe disseram:

- Senhor Deus, gostaríamos de viver na Terra entre os homens.

- Assim será feito, respondeu o Senhor. Conservarei vocês pequeninas como são vistas e podem descer para a Terra.

Conta-se que, naquela noite, houve uma linda chuva de estrelas. Algumas se aninharam nas torres das igrejas, outras foram brincar de correr com os vaga-lumes nos campos; outras misturaram-se aos brinquedos das crianças e a Terra ficou maravilhosamente iluminada.

Porém, passado algum tempo, as estrelas resolveram abandonar os homens e voltar para o céu, deixando a Terra escura e triste.

- Por que voltaram? Perguntou Deus, a medida que elas iam chegando ao céu.

- Senhor, não nos foi possível permanecer na Terra. Lá existe muita miséria e violência, muita maldade, muita injustiça....

E o Senhor lhes disse:

- Claro! A Terra é o lugar do transitório, daquilo que passa, daquele que cai, daquele que erra, daquele que morre, nada é perfeito. O lugar de vocês é aqui no céu. O céu é o lugar da perfeição, do imutável, do eterno, onde nada perece.

Depois que chegaram todas as estrelas e conferindo o seu número, Deus perguntou a um de seus anjos:

- Voltaram todas?
- Não Senhor, respondeu o anjo.

- Uma estrela resolveu ficar entre os homens. Ela descobriu que seu lugar é exatamente onde existe a imperfeição, onde há limite, onde as coisas não vão bem, onde há luta e dor.

E Deus perguntou:

- Mas, que estrela é esta?

É a Esperança Senhor. A estrela Verde. Aliás, a única estrela desta cor.

E quando olharam para a Terra, a estrela não estava só. A Terra estava novamente iluminada porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa. Porque o único sentimento que o homem tem e Deus não tem é a Esperança, pois Deus já conhece o futuro, e a Esperança é própria da pessoa humana, própria daquele que erra, daquele que não é perfeito, daquele que não sabe como será o amanhã.

Autoria ignorada
foto:AP

Sábado, 27 de Junho de 2009

Simplesmente lindo!!!

Agostinho dos Santos era considerado por Johnny Mathis como o melhor cantor do mundo.
Os dois juntos deu nisso.
Simplesmente lindo!


Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Entre as rosas

Era final de inverno...

Mais um ano havia passado e não se chegara a nenhuma conclusão.

Os partidários das diversas facções, dia após dia, perdiam-se em longas e intermináveis discussões sobre esta ou aquela candidata, sem chegarem a um consenso.

Decantava-se a beleza da papoula, as qualidades das alfazemas, o perfume dos cravos, as virtudes de pureza e humildade de lírios e violetas.

Tudo em vão...

Num canto despretensioso do mundo, onde as espécies vegetais cresciam silenciosamente, um pequeno arbusto travava sua luta diária pela sobrevivência, alheio a toda sorte de discussões.

Conformada com sua forma tosca, retorcida, prenhe de espinhos pontiagudos e consciente de que nunca alcançaria a beleza de um dente-de-leão, acostumara-se a ser desprezado e humilhado, sem, no entanto, deixar de prestar atenção nas pequenas criaturas que dependiam de sua existência para sobreviver.

A elas dedicava a sua vida, emprestando a segurança de seu tronco e ramos para abrigar insetos das chuvas e ventanias.

Era feliz, pois, se não tinha a beleza, tinha a utilidade, e isso lhe bastava.

Naquela manhã fria de final de invernia, ainda não totalmente desperta da noite, a plantinha rude viu despregar do céu uma linda estrela cor de prata.

Sorrindo, acompanhou-lhe a trajetória em arco perfeito pelo céu escuro, descendo, descendo... Em direção à floresta ainda adormecida.

Era tão suave e linda aquela forma, que, instintivamente, todos na floresta, árvores, arbustos, pássaros e flores, acordados pela luz repentina, curvavam-se para vê-la passar.

A estrela flutuou entre sorrisos, agradecendo a simpatia da floresta, até chegar perto do arbusto cheio de espinhos.

Aproximou-se lentamente da plantinha e falou-lhe docemente.

Não te inscrevestes na eleição da rainha das flores, por isso vim pessoalmente buscar-te...

Mas, senhora... gagejou a planta, ...eu?? Como posso aspirar a ser rainha de qualquer coisa... não vês o quanto sou feia!!

O Senhor da vida ordenou-me que viesse buscá-la...

Se este é o seu desejo...aqui me tens, senhora...

E partiram em um rastro de luz, na direção do conselho das flores.

As demais candidatas riram-se da pretenciosa intenção daquele feio arbusto.

A platéia silenciou quando entrou no ambiente a primavera, anunciada pelo som de mil clarins.

O arbusto, espantado, reconheceu a estrela que a trouxera até ali.

Então, senhores conselheiros - questionou a primavera- o Senhor da vida deseja saber se já encontraram a legítima representante de Seu Reino?

Não, senhora. Estávamos para decidir-nos, quando fomos interrompidos pela vaidade dessa planta sem qualidades que aí está. Veja! Quanta ousadia...

A primavera voltou-se para a plantinha que chorava de vergonha e humilhação e perguntou:

O que mais desejas nesta vida? E a planta respondeu entre lágrimas...

Amar e ser amada...

A primavera, então, tocou os galhos espinhosos e, logo, botões surgiram dos galhos semi-nus, abrindo-se em mil pétalas sedosas, de perfume inesquecível...

Qual é o teu nome? Perguntaram todos.

Eu sou a rosa...
Quando o amor tocar os espinheiros do mundo, as rosas brotarão em cada alma.

fonte: Momento Espírita
foto: Roselândia

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

A Corda ( Conto Reflexivo)

Era uma vez dois países, cortados por um rio, rápido, largo, perigoso, no qual muitos se afogavam ao tentar atravessá-lo.Em um desses países fluía o leite e o mel - era o país da felicidade..O outro, estremecido por brigas e devastado pela preocupação, era o país da infelicidade.

Um dia um homem observa aquele rio e, por Amor, resolve fazer alguma coisa: - Vou esticar uma corda de uma margem à outra, mesmo que eu morra ao enfrentar os perigos do rio, não importa. No futuro, outros poderão apanhar a corda, atravessar o rio com segurança e atingir o país da felicidade.

Eis que um dia esse homem executa o seu projeto.Apanha uma corda, amarra uma das extremidades em uma árvore, agarra a outra ponta e mergulha na correnteza, lutando contra as ondas. No meio da espuma e dos rodamoinhos, caçadores confundem-no com um animal e atiram nele, ferindo-o mortalmente.

Mesmo ferido, num derradeiro esforço, o herói consegue alcançar a outra margem e amarrar firmemente a corda da salvação.

A partir desse dia, tal homem de coragem foi reverenciado por todos, que diziam:

- Ele morreu para nos salvar; é digno do nosso amor.

Na verdade, rendiam-lhe homenagens, todos o faziam.Mas poucos seguiam o seu exemplo. Diziam:- Se segurarmos a corda, não corremos o risco de nos afogar... mas a água está tão fria e o rio é tão largo...!O perigo da travessia continua grande!

E assim, com o correr dos anos, a corda foi esquecida.Coberta de algas e de galhos, não era mais visível. Porém, o culto ao herói sobreviveu: o povo construiu monumentos em sua memória, cantou hinos em sua honra e continuou evocando o seu nome pelo grande amor que aquele ser lhes havia dedicado.

Sucederam-se as gerações: a segunda, a terceira, a quarta...Oradores, cientistas e letrados falavam das virtudes do herói, e narravam a maneira como, morrendo, ele salvara os homens.

Mas nunca mais se falou da corda jogada por cima do rio. Tinha sido completamente esquecida.Os argumentos, os discursos e os ensinamentos dos chamados "sábios" acabaram criando uma grande confusão.

Superstições proliferaram e raros foram os que conseguiram distinguir a Verdade.

Oradores declaravam:

Por que esta disputa?

A única coisa necessária é adorar o herói como um Deus e acreditar que ele morreu para a salvação de todos.

E eis que, quando nós morrermos, entraremos sem dificuldades no país da felicidade.

Se o nosso corpo nos proíbe, por enquanto, a travessia do rio, após a morte a nossa alma voará para o outro lado.

O amor, a potência e a coragem do herói eram tão grandes que tudo o que pedirmos ao seu espírito ele nos concederá se lhe demonstrarmos bastante amor.

Quando o povo ouviu isto, sentiu uma alegria imensa e cobriu de honrarias os oradores, falando: Grande é a sua sabedoria, pois nos mostram um caminho fácil.

É simples: adorar, rezar e solicitar ao nosso herói a salvação na hora da nossa morte.

Portanto, agora, comamos, bebamos, sejamos alegres e aproveitemos da melhor maneira a nossa estada no meio onde estamos.

Nesse meio tempo, o espírito do herói contemplava os seus irmãos com tristeza, escutando as suas orações e súplicas.

Eles haviam esquecido a corda que ligava o país da infelicidade ao da felicidade e que havia custado a vida do herói, para deixar a todos o exemplo de coragem e o caminho da paz, que passa pela educação do coração e pela vontade de amar a todas as criaturas.

Aquele povo perdera a chave que lhes permitiria ler as palavras daquele herói e de outros que existiram antes dele.

Liam com os olhos da carne, em vez de lerem com os olhos da alma.

Ainda surdos para ouvir, não conseguiam escutar o herói que ainda hoje continua a clamar:

- Acorda!

- A corda!!

- ACORDA !!!
Autoria Ignorada
fotos: internet

Domingo, 21 de Junho de 2009

"Homens-livros"


O Universo é uma imensa livraria.

A Terra é apenas uma de suas estantes.

Somos os livros colocados nela.

Da mesma maneira que as pessoas compram livros, apenas pela beleza da capa, sem pesquisarem o índice e conteúdo do mesmo, muitas pessoas avaliam os outros pela aparência externa, pela capa física, sem considerarem a parte interna.

Outras procuram livros com títulos bombásticos, sensacionalistas, histórias de terror ou romances profundos.

Também é assim com as pessoas: há aquelas que buscam sensacionalismos baratos, dramas alheios ou apenas um romance profundo ou rasteiro.

Somos homens-livros lendo uns aos outros.

Podemos ficar só na capa ou aprofundarmos nossa leitura até as páginas vivas do coração.

A capa pode ser interessante, mas é no conteúdo que brilha a essência do texto.

O corpo pode ter uma bela plástica, mas é o espírito que dá brilho aos olhos.

Também podemos ler nas páginas experientes da vida muitos textos de sabedoria.

Depende do que estamos buscando na estante.

Podemos ver em cada homem-livro um texto-espírito impresso nas linhas do corpo.

Deus colocou sua assinatura divina ali, nas páginas do coração, mas só quem lê o interior descobre isso.

Só quem vence a ilusão da capa e mergulha nas páginas da vida íntima de alguém, descobre seu real valor, humano e espiritual.

Que todos nós possamos ser bons leitores conscientes.

Que nas páginas de nossos corações, possamos ler uma história de amor profundo.

Que em nossos espíritos possamos ler uma história imortal.

E que, sendo homens-livros, nós possamos ser leitura interessante e criativa nas várias estantes da livraria-universo, pois somos homens-livros forever!

A capa amassa e as folhas podem rasgar. Mas, ninguém amassa ou rasga as idéias e sentimentos de uma consciência imortal.

O que não foi bem escrito em uma vida, poderá ser bem escrito mais a frente, em uma próxima existência ou além...

Mas, com toda certeza, será publicado pela editora da vida, na estante terrestre ou em qualquer outra estante por aí...


PS: Há homens-livros de várias capas e cores, mas Deus é o editor de todos eles.

(Este texto é dedicado aqueles homens-livros que sabem ler nas entrelinhas do brilho dos olhos e na luz de um sorriso a graça da vida em todas as dimensões).


Autoria ignorada

foto: internet

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Duas pérolas de Tagore

Eu andava por um caminho atapetado da relva, e de repente ouvi uma voz atrás de mim: “Olha para ver se me reconheces!”

Voltei-me, olhei para ela, e disse: “Não consigo me lembrar do teu nome!”

Ela continuou: “Eu sou a primeira grande Dor que tiveste quando jovem”.

Os olhos dela pareciam a manhã em que o orvalho ainda paira no ar.

Fiquei em silêncio algum tempo, e depois lhe perguntei: “Perdeste aquele imenso fardo de lágrimas?”

Ela sorriu, sem responder, e eu compreendi que as suas lágrimas haviam tido Tempo de aprender a linguagem do sorriso. Depois, suspirando, acrescentou:

“Certa vez disseste que irias acariciar a tua tristeza para sempre...”

Corando, eu respondi: “Sim, mas passaram-se anos e acabei esquecendo”.

Então eu tomei as mãos dela nas minhas, e lhe disse: “Mas também tu mudaste muito”.

Ela respondeu: “O que antes era sofrimento, agora se transformou em paz”


O pássaro domesticado vivia na gaiola, e o pássaro livre na floresta. Mas, o destino deles era se encontrarem e a hora finalmente havia chegado.

O pássaro livre cantou: “Meu amor, voemos para o bosque”.

O pássaro preso sussurrou: “Vem cá, e vivamos juntos nesta gaiola”.

O pássaro livre respondeu: “Entre as grades não há espaço para abrir as asas”.

“Ah”, lamentou o pássaro engaiolado - “no céu não saberia onde pousar”.

O pássaro livre cantou: “Amor querido, canta as canções do campo”.

O pássaro preso respondeu: “Fica junto comigo, e eu te ensinarei as palavras dos sábios”.

O pássaro da floresta retrucou: “Não, não! As canções não podem ser ensinadas!”

E o pássaro engaiolado gemeu: “Ai de mim! Eu não conheço as canções do campo”.

Entre eles o amor era sem limites, mas eles não podiam voar asa com asa.

Olhavam-se através das grades da gaiola, mas em vão desejavam se conhecer.

Batiam as asas ansiosamente, e cantavam:

“Chega mais perto, meu amor!”

Mas o pássaro livre dizia: “Não posso! Tenho medo da tua gaiola com portas fechadas”.

E o pássaro engaiolado sussurrava: “Ai de mim! As minhas asas ficaram fracas e morreram”.

ilustração e foto: internet