Especialistas em transtorno obsessivo-compulsivo
brasileiros analisam a maior amostra de pacientes do mundo em busca de novos
tratamentos contra o mal. Uma das constatações é de
que em mais de 90% dos casos o TOC surge com outros distúrbios
psiquiátricos
Marcela Ulhoa Correio Braziliense 14/4/2013
Lavar as mãos o tempo todo, escovar os dentes incansavelmente, contar
azulejos a cada passo, ser tomado pela mania de limpeza e de organização, ou
desenvolver o vício de colecionar todos os tipos de objetos podem ser rituais
indicativos do transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC. Os portadores do
distúrbio são acometidos por um padrão de pensamentos e comportamentos
repetitivos, sem sentido lógico, desagradáveis e extremamente difíceis de
evitar. “O TOC é um transtorno subdiagnosticado porque as pessoas ou ficam com
vergonha de procurar ajuda ou não reconhecem que aquilo é algo patológico”,
explica Marcelo Queiroz Hoexter, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de
São Paulo (USP).
Em um esforço inédito para a psiquiatria, especialistas
em TOC integrantes do Consórcio Brasileiro de Pesquisa em Transtornos do
Espectro Obsessivo-Compulsivo (C-TOC) reuniram a maior amostra de pacientes com
o distúrbio já realizada no mundo. O levantamento envolve entrevistas minuciosas
de duração média de quatro horas, feitas com 1.001 pessoas com TOC e atendidas
em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Pernambuco, na Bahia e no Rio Grande do Sul.
O intuito é compreender melhor a origem do problema e desenvolver formas de
tratamento cada vez mais eficazes. Os resultados iniciais foram publicados na
última edição da Revista Fapesp.
A partir da análise das informações
coletadas, os pesquisadores constataram que o TOC raramente é um problema que
aparece sozinho. Segundo a pesquisa, apenas 8% das pessoas estudadas apresentam
exclusivamente sintomas de obsessão e compulsão. Na maioria dos casos, o
problema surge acompanhado de pelo menos um distúrbio psiquiátrico ao longo da
vida. O mais recorrente foi a depressão, aparecendo em 68% dos participantes. Em
segundo lugar, apareceram os transtornos de ansiedade, acometendo 63% dos
pacientes. E quase 35% apresentavam sinais de fobia social.
De acordo com
Marcelo Queiroz Hoexter, um dos pesquisadores do C-TOC, as comorbidades já eram
conhecidas, mas essa foi a primeira vez que foi realizado um levantamento
extenso a respeito. As constatações dão valiosas pistas do por que nem sempre os
tratamentos funcionam em casos mais graves. As duas formas de tratamento
internacionalmente recomendadas para amenizar os sintomas de TOC são a terapia
cognitivo-comportamental e o uso de antidepressivos. Em alguns países, como nos
Estados Unidos, há a alternativa da neurocirurgia para pacientes refratários,
casos em que nenhuma das duas formas mais brandas surtem
efeito.
Acompanhamento
Uma das linhas de pesquisa que integra os
esforços dos pesquisadores brasileiros está justamente na compreensão das
respostas de intervenções terapêuticas. Ao acompanhar 158 pessoas com TOC por um
período de dois anos, a pesquisadora da USP Roseli Shavitt pôde observar que,
para os casos leves e moderados, o resultado do tratamento com medicação é
semelhante ao efeito da psicoterapia. “Desde que seja um tratamento de primeira
linha, o mais importante não é o tipo escolhido, mas mantê-lo por um prazo mais
longo”, defende Shavitt. Inicialmente, os dois tratamentos são igualmente
eficazes, mas precisam de uma continuidade para que o efeito positivo seja
observado. Segundo a pesquisadora, o tratamento para TOC não é imediato, é comum
que dure a vida toda.
Ainda sobre as respostas terapêuticas, Hoexter
desenvolveu uma análise diferente e complementar à conduzida por Shavitt.
Seguindo uma linha neurobiológica do transtorno, o pesquisador usou a técnica de
ressonância magnética estrutural para fotografar e mapear a ação dos
antidepressivos e da terapia cognitivo-comportamental no cérebro. A constatação
final é de que os dois tratamentos modificam não só o funcionamento, mas a
estrutura de algumas regiões cerebrais de pessoas com TOC. “Sabíamos que as duas
modalidades de tratamento têm respostas muito parecidas e são igualmente
eficientes, mas não entendíamos como essas intervenções mudam o cérebro, ou
seja, qual é o mecanismo biológico por trás disso”, ressalta
Hoexter.
Segundo o pesquisador, pelos exames de neuroimagem, também foi
possível perceber que o TOC induz um aumento de consumo de energia em uma região
do córtex-frontal. Após a administração de antidepressivos nos pacientes ou
submetê-los à terapia cognitivo-comportamental, os médicos constataram a
diminuição da hiperatividade dessa região do cérebro. Entretanto, faltavam ainda
estudos que avaliassem e comparassem o tamanho das estruturas cerebrais antes e
depois do tratamento. Foi o que a equipe de Hoexter se propôs a fazer. “Pegamos
uma amostra de pacientes com TOC que nunca tinham sido submetidos a nenhum
tratamento e fizemos um exame de ressonância magnética do crânio antes de
iniciar os procedimentos. Medimos uma série de volumes de diversas estruturas
cerebrais”, conta o pesquisador.
Os cientistas, então, dividiram
aleatoriamente os pacientes. Uma parte recebeu o antidepressivo fluoxetina e a
outra foi submetida à terapia cognitivo-comportamental. Depois de 12 semanas, os
voluntários passaram novamente pelo exame de ressonância magnética. Os
cientistas compararam as medidas cerebrais antes e depois do tratamento. “A
gente observou que tanto os pacientes que tomaram a fluoxetina quanto os que
foram para a terapia apresentaram uma melhora muito similar do sintoma, a
diferença é que aqueles que tomaram antidepressivo apresentaram um aumento do
volume do putâmen, uma estrutura cerebral profunda que está muito implicada na
patologia do TOC.”
Com isso, surge a hipótese de que a administração do
medicamento provoca um aumento da plasticidade da região, que passa a ser mais
eficiente na comunicação com o restante do cérebro, apresentando um aumento das
conexões dos neurônios. Já os pacientes submetidos à terapia não mudaram a
estrutura cerebral, apesar de terem melhorado os sintomas. “O resultado sugere
que, apesar dos dois (tratamentos) serem eficazes, o mecanismo de ação no
cérebro é diferente. Provavelmente, a terapia mexe em outras áreas que não fomos
capazes de detectar ainda”, pondera Hoexter.
''O TOC é um transtorno
subdiagnosticado porque as pessoas ou ficam com vergonha de procurar ajuda ou
não reconhecem que aquilo é algo patológico”
Marcelo Queiroz Hoexter,
psiquiatra da USP
Depoimento
Excessos já na infância
Eu
tinha 27 anos quando um episódio me marcou tanto que resolvi pedir ajuda. Eu
estava dirigindo, voltando para casa de um churrasco no sábado. Durante o
percurso, achei que tinha atropelado uma pessoa. Aquilo me deu uma ansiedade
muito grande, eu caí na dúvida, na culpa e comecei a voltar pelos lugares em que
eu tinha passado. Olhava o carro e não tinha marca. Fiquei quase uma semana sem
dormir. Eu ia de carro para o trabalho, mas pegava um farol amarelo e já era
motivo de muita tensão. Toda vez que saía de carro era muito estressante. Eu
tinha várias outras manias, mas não me incomodavam muito. Depois de três meses
desse episódio, eu estava passando de carro em uma ponte em São Paulo e fiquei
durante três horas subindo e descendo a ponte. Foi quando eu falei para mim
mesmo que estava ficando maluco e precisava de ajuda.
Fui atrás de uma
terapeuta e descobri que esse problema vinha desde a infância. Os meus primeiros
TOCs eram ligados à organização e à higiene. Eu escovava os dentes de 20 a 25
vezes por dia porque tinha a impressão de que ia ter cárie. Tinha o hábito de
acumular jornais, moedas, relógios, caixas de cigarro. Eu era acumulador, não
conseguia me desfazer de nada. Quando eu fui diagnosticado, em 2007, logo depois
conheci a Astoc (Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e
Transtorno Obsessivo-Compulsivo) e descobri que não estava sozinho. A minha
primeira melhora foi próxima ao Natal: eu cheguei em casa e me desfiz de todas
as coisas que tinha guardado durante anos. Eu já tinha tido síndrome do pânico
em 2001 e passado por uma depressão em 2002, só que o TOC me ocupava e eu não
tinha noção disso. O TOC é uma doença silenciosa, você sofre, mas não
compartilha com ninguém. Hoje, digo que estou superbem, faço terapia, tomo
antidepressivo e sempre vou aos grupos de apoio. O ser humano é curado pela
fala, faz bem para mim dar depoimento para o jornal. As pessoas se escondem, é
difícil assumir, mas faz bem.
Caio Wilmers Manço, 35 anos, morador de São
Paulo.
Ilustração: Correio Braziliense