terça-feira, 25 de março de 2014

A lição dos gansos


 
 
- Lição nº 2:
Se tivermos tanta sensibilidade quanto um ganso, permaneceremos em formação com aqueles que se dirigem para onde pretendemos ir e nos disporemos a aceitar a sua ajuda, assim como prestar a nossa ajuda aos outros.
Quando o ganso líder se cansa, muda para trás na formação e, imediatamente, um outro ganso assume o lugar, voando para a posição de ponta.
 
- Lição nº 3:
É preciso acontecer um revezamento das tarefas pesadas e dividir a liderança. As pessoas, assim como os gansos, são dependentes umas das outras.
Os gansos de trás, na formação, grasnam para incentivar e encorajar os da frente a aumentar a velocidade.
 
- Lição nº 4:
Precisamos nos assegurar de que o nosso 'grasno' seja encorajador para que a nossa equipe aumente o seu desempenho.
Quando um ganso fica doente, ferido, ou abatido, dois gansos saem da formação e seguem-no para ajudá-lo e protege-lo. Ficam com ele até que esteja apto a voar de novo ou morra.
Depois, eles voltam ao procedimento normal com outra formação ou vão atrás de outro bando.
 
- Lição nº 5:
Se nós tivermos bom senso tanto quanto os gansos, também estaremos ao lado dos outros nos momentos difíceis.
Gostaria que você pensasse bem nestas lições dos gansos.
Leia com atenção, reflita sobre cada item, transponha-os para a sua realidade, seja no trabalho, na escola, no clube, com o grupo de amigos e no condomínio onde mora, mostre a todos e... debate com eles.


 Desconheço o autor
ilustração: internet

 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Porta do amor


Certo dia, a solidão bateu à porta de um grande sábio. Ele convidou-a para entrar. Pouco depois, ela saiu decepcionada. Havia descoberto que não podia capturar aquele ser bondoso, pois ele nunca estava sozinho: estava sempre acompanhado pelo amor de Deus.
De outra feita, a ilusão também bateu à porta daquele sábio. Ele, amorosamente, convidou-a a entrar em sua humilde morada. Logo depois, ela saiu correndo e gritando que estava cega. O coração do sábio era tão luminoso de amor que havia ofuscado a própria ilusão.
Em um outro dia, apareceu a tristeza. Antes mesmo que ela batesse à porta, o sábio assomou a cabeça pela janela e dirigiu-lhe um sorriso enternecedor. A tristeza recuou, disse que era engano e foi bater em alguma outra porta quer não fosse tão luminosa. A fama do sábio foi crescendo e a cada dia novos visitantes chegavam, objetivando conquistá-lo em nome da tentação. Em um dia era o desespero, no outro a impaciência. Depois vieram a  mentira, ódio, a culpa e o engano. Pura perda de tempo: o sábio convidava todos a entrar e eles saíam decepcionados com o equilíbrio daquela alma bondosa.
Porém, um dia a morte bateu à sua porta. Ele convidou-a a entrar. Os seus discípulos esperavam que ela saísse correndo a qualquer momento, ofuscada pelo amor do mestre. Entretanto, tal não aconteceu. O tempo foi passando e nem ela nem o sábio apareciam. Os discípulos, cheios de receio, penetraram a humilde casa e encontraram o cadáver de seu mestre estirado no chão. Começaram a chorar ao ver que o querido mestre havia partido com a morte. Na  mesma hora,  adentraram  na casa  a ilusão,  a solidão  e todos os outros
servos da ignorância que nunca haviam conseguido permanecer anteriormente naquele recinto. A tristeza dos discípulos havia aberto a porta e os mantinha lá dentro. Enquanto isso, em outra dimensão, levado pela morte, o sábio instalava-se em sua nova residência. Agora, só batem em sua porta os espíritos luminosos. E amorosamente ele  continua convidando todos os que batem a entrar. E ninguém quer sair de lá,  pois agora o grande mestre "mora no coração de Deus".
Desconheço o autor
Foto: internet

sexta-feira, 7 de março de 2014

Amar é uma decisão


Um homem foi visitar um sábio conselheiro e disse-lhe que estava passando por muitas dificuldades em seu casamento. Falou-lhe que já não amava sua mulher e que pensava em separação...
O sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe: ame-a!
Mas já não sinto nada por ela! Retrucou o homem.
Ame-a! Disse-lhe novamente o sábio.
Diante do desconcerto do homem, depois de um breve silêncio, o sábio lhe disse o seguinte: "amar é uma decisão; é dedicação e entrega; é ação...
Portanto, para amar é preciso apenas tomar uma decisão.
Quando você se decide a cultivar um jardim, você sabe que é necessário preparar o terreno, semear, regar, esperar a germinação e a floração.
Você sabe que haverá pragas, ervas daninhas, tempos de seca ou de excesso de chuva, mas se você está decidido a ter um belo jardim, jamais desistirá, por maiores que sejam as dificuldades.
Assim também acontece no campo do amor. É preciso dedicação, cuidado, espera.
Portanto, se quiser cultivar as flores da afeição, dedique-se. Ame seu par, aceite-o, valorize-o, respeite-o, dê afeto e ternura, admire-o e compreenda-o....
Isso é tudo...
Apenas ame! 
O amor é lei da vida. Se não houvesse amor nada faria sentido.
 Momento Espírita
Foto: internet

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Como lidar com quem tem perda auditiva


Quando era mais nova, tinha muita vontade de aprender a língua de sinais. Achava fascinante ver aquelas pessoas se comunicarem tão bem com as mãos. Mas o tempo passou e acabei não aprendendo.
A maioria de nós não sabe muito bem como se comunicar com pessoas que sofrem de perda auditiva. Eis algumas dicas do que NÃO fazer para você e eu nos comunicarmos melhor com quem não escuta bem:
Não grite
Fale com voz normal e articule as palavras o melhor possível. Berrar não ajuda quem tem perda auditiva a escutar mais. Exceção: se sua voz é muito baixa, fale um pouco mais alto.
Não fale junto ao ouvido
Quase todo mundo com perda auditiva faz leitura labial. Não fale perto do ouvido porque assim a pessoa não conseguirá ler seus lábios.
Não deixe de eliminar o ruído branco
A maioria dos que têm perda auditiva sente dificuldade em identificar o que você está falando quando o ar-condicionado faz barulho ou há outro ruído constante no ambiente. Não tente conversar com a TV ligada.
Não converse com todos ao mesmo tempo
Numa festa ou reunião, tente manter uma conversa só com a pessoa em vez de várias simultâneas.
Não diga “deixe para lá, não era nada importante
Se alguém não entendeu o que você disse depois de repetir duas ou três vezes, não desista. Mude a frase e tente de novo. Para quem não consegue escutar, tudo importa.

R. M.
Seleções

ilustração: internet

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

É preciso agir

        Primeiro levaram os negros,

        Mas não me importei com isso. Eu não era negro.

        Em seguida levaram alguns operários,

        Mas não me importei com isso. Eu também não era operário.

        Depois prenderam os miseráveis,

        Mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável.

        Depois agarraram alguns desempregados,

        Mas como eu tenho um emprego, também não me importei.

        Agora... Agora estão me levando.

        Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.

        
O poema grave é de Bertolt Brecht, influente dramaturgo e poeta alemão do século XX.

        A questão gravíssima é do ser humano, desnudado em linhas poéticas, exposto pelo pensador que aqui nos convida a refletir sobre a indiferença.

        A vida individualista, que prioriza o eu em detrimento do outro, apresenta-se como um dos problemas mais sérios da atualidade humana.

        O egoísmo, a cobiça, o medo, transformaram grande parte dos seres em autômatos ilhados.

        Autômatos, sim, pois evitam pensar, refletir, ponderar, em nome de uma falsa falta de tempo.

        Autômatos que se plugam na tomada pela manhã, e se desplugam à noite, sem terem realmente estado presentes em seus dias, em suas próprias vidas.

        Ilhados também, pois se isolam das pessoas, do contato humano.

        Não se pode mais confiar em ninguém, não se pode mais contar com ninguém. Todos são suspeitos... – afirmam alguns.

        Ilhados, usam das tecnologias do mundo moderno, que visam apenas auxiliar o homem em suas tarefas, para manterem uma distância segura do Mundo.

        E o virtual parece ser mais seguro, mas fácil que o real... Enganamo-nos em nome de uma suposta segurança.

        Assim deixamos de nos importar com os outros, vivendo um constante salve-se quem puder, como se o desespero fosse grande auxílio.

        E quanto mais nos afastamos, mais difícil é a volta.

        Amizades que deixamos de cultivar na infância, na juventude, hoje fazem falta a muitos homens e mulheres, vítimas de transtornos psicológicos, como a depressão.

        Relacionamentos familiares fortes, envolvendo cumplicidade e carinho, no futuro nos farão falta, pois quando precisarmos nos abrir, desabafar, perceberemos que não temos intimidade com ninguém para tal.

        É preciso agir. Agir enquanto há tempo.

        Será tão difícil dar atenção, se importar com aqueles que estão ao nosso redor?

        Será tão difícil romper esta barreira da indiferença, e perguntar: Como você está? – realmente desejando saber como anda a vida do outro?

        O Mundo não sou eu mas os outros. O Mundo somos nós.

        Estamos todos expostos ao mesmo tipo de experiências, às mesmas provações, aos mesmos aprendizados.

        É preciso agir. É preciso se importar mais.


Redação do Momento Espírita com base em poema de Bertolt Brecht 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Não estregue a festa, estupido!

O país da Copa é grande e bobo. "Esta será a Copa das Copas", disse a presidente, de boca cheia, na cerimônia de sorteio dos grupos. No país dela, que é o nosso, ninguém circula nas cidades travadas, nas estradas paralisadas, nos aeroportos congestionados -mas 12 arenas superfaturadas, em recordistas 12 sedes, receberão a mais cara das Copas. Do enclave do Sauípe, uma bolha segura, esparramou-se pelo mundo a linguagem do verde-amarelismo balofo. No país da Copa, um governo "popular" e "de esquerda" reverbera, tanto tempo depois, as frases e os tiques do general-presidente que gostava de futebol. Há um cheiro de queimado no ar.

"O Brasil está muito feliz em receber todos nesta Copa porque somos um povo alegre e acolhedor." Violência é a palavra da hora -e ela surge em curiosas associações com a "Copa das Copas". A barbárie das torcidas do Atlético Paranaense e do Vasco não foi deplorada por seus significados intrínsecos, mas pelas mensagens que supostamente envia ao mundo. Gaiatos da política, do marketing e do colunismo ensaiaram uma sentença que menciona a violência "dentro e fora dos estádios". É senha, com endereço certo: no saco fundo, cabem tanto os torcedores selvagens e os sumidos black blocs quanto manifestantes pacíficos mas indignados com a "Copa das Copas". O pau vai comer.

"Não repara a bagunça" -o dístico popular nacional, candidato eterno, e perfeito, a substituir o "Ordem e Progresso" no núcleo de nossa bandeira, trai o medo da vergonha. Joseph Blatter entendeu e traduziu, chamando-nos a congelar a indignação, sublimar as insatisfações, colocar entre parêntesis as divisões. A unidade em torno de um bem maior, que é a imagem do país diante do planeta que nos vê: eis a gramática do discurso político sugerida pelo chefão da potência ocupante. No país da Copa, a convocação à unidade já foi integrada ao discurso da publicidade. Será repetida à exaustão, como uma ladainha, até o apito final. Não estrague a festa, estúpido!

"Será uma Copa para ninguém esquecer", jactou-se a presidente, formulando uma ameaça involuntária. A partir do Gabinete de Segurança Institucional, estrutura-se uma operação de guerra que abrange as três forças em armas e um desdobrado aparato cibernético. Nas telas dos computadores do sistema de vigilância, cada arena figura como ponto focal de um envelope tridimensional de segurança. Nas ruas, o controle físico do perímetro das arenas, a cargo das PMs, terá a missão de proteger as marcas dos patrocinadores oficiais da ameaça simbólica representada pela presença de manifestantes. Jamais, em tempo algum, o Estado serviu tão direta e exclusivamente a interesses privados. Não: ninguém esquecerá.

O país da Copa não se respeita. Ontem, o partido do governo celebrou políticos condenados por corrupção -e, sob o silêncio cúmplice do presidente de facto e da presidente de direito, achincalhou um STF composto por juízes que eles mesmos indicaram. O país da Copa perdeu o autorrespeito. Os líderes governistas manobram para o Congresso não ouvir um ex-secretário nacional de Justiça que acusa o governo ao qual serviu de operar uma fábrica de dossiês contra adversários políticos. O país da Copa perdeu o respeito. As lideranças do PSDB preferem empregar táticas diversionistas vexatórias a colher assinaturas para uma CPI destinada a investigar todos os contratos estaduais e federais firmados com a Siemens. Yes, nós gostamos de futebol.
No vale-tudo da nova ordem do racialismo, perdemos, ademais, um senso básico de decoro: eu li -aqui mesmo, não nas catacumbas da internet!- que Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert formaram "um casal mais parecido com representantes de afrikâners". Cores, rancores. No país da Copa, nativos felizes, contentes, de bunda de fora, tocavam caxirola. 

Foi bonita a festa, pá -pena que nem começou.


Demétrio Magnoli.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Apelo




Paulo Bomfim
...Mas deixa-me poetar
Em nome dos que não sonham,
Dos que calçam desespero
Em percursos cotidianos,
Dos que cruzam confluências
Com pára-brisas de tédio,
Dos fugitivos dos bares,
Dos vencidos que se amam,
Dos inocentes que esperam.
...Mas deixa-me poetar
Neste esvair sem sentido
Com palavras indomadas,
Ou com vocábulos mansos.
- Que eu cante a vida que passa
E os destinos sem destino
- Que eu cubra de redondilhas
As damas da madrugada,
E meus versos sejam potros
Onde as crianças galopem,
Lona de circo estelante
Vestindo a fome do mundo,
Valsa-brisa em realejo
Na esquina dos desencontros.
Sei da lógica das máquinas,
Das avenidas neuróticas,
Do roubo das alvoradas
E dos anjos que se matam.
Sou feito de tudo e nada.
...Mas deixa-me poetar.

Extraído de: Poemas Escolhidos
Ilustração: freepik  

domingo, 22 de setembro de 2013

A janela


Paulo Bomfim


Na parede do mundo abre-se a janela:
Somos paisagem.


O olhar cruzou as fronteiras do vidro:
Somos estrangeiros.


A alma navega em barcos de luz:
Somos naufrágio.


Pássaros flutuam na manhã cobalto:
Somos cantiga.


Surge a lua nova em nossa lucidez:
Somos transparência.


Nas paredes do mundo fecha-se a janela:
Somos a viagem.



extraído de : Poemas Escolhidos
ilustração: freepik 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Pedra da felicidade

Melcíades José de Brito


Nos tempos das fadas e bruxas, um moço achou em seu caminho uma pedra que emitia um brilho diferente de todas as que ele já conhecera. Impressionado, decidiu levá-la para casa.

Era uma pedra do tamanho de um limão e pertencia a uma fada, que a perdera por aqueles caminhos, em seu passeio matinal.

Era a Pedra da Felicidade.
Possuía o poder de transformar desejos em realidade.

A fada, ao se dar conta de que havia perdido a pedra, consultou sua fonte de adivinhação e viu o que havia ocorrido.

Avaliou o poder mágico da pedra e, como a pessoa que a havia encontrado era um jovem de família pobre e sofredora,
concluiu que a pedra poderia ficar em seu poder, despreocupando-se quanto à sua recuperação.
Decidiu ajudá-lo.

Apareceu ao moço em sonho e disse-lhe que a pedra tinha poderes para atender a três pedidos: um bem material, uma alegria e uma caridade.

Mas que esses benefícios somente poderiam ser utilizados em favor de outras pessoas.
Para atingir o intento, cabia-lhe pensar no pedido e apertar a pedra entre as mãos.

O moço acordou desapontado.

Não gostou de saber que os poderes da pedra somente poderiam ser revertidos em proveito dos outros.
Queria que fossem para ele. Tentou pedir alguma coisa para si, apertando a pedra entre as mãos, sem êxito.
Assim, resolveu guardá-la, sem muito interesse em seu uso.

Os anos se passaram e este moço tornou-se bem velhinho.

Certo dia, rememorando o seu passado, concluiu que havia levado uma vida infeliz, com muitas dificuldades, privações e dissabores.
Tivera poucos amigos, porém, reconhecia ter sido muito egoísta. Jamais quisera o bem para os outros.
Antes, desejava que todos sofressem tanto quanto ele.

Reviu a pedra que guardara consigo durante quase toda a sua existência; lembrou-se do sonho e dos prováveis poderes da pedra.

Decidiu usá-la, mesmo sendo em proveito dos outros.

Assim, realizou o desejo de uma jovem, disponibilizando-lhe um bem material.

Proporcionou uma grande alegria a uma mãe revelando o paradeiro de uma filha há anos desaparecida e, por último, diante de um doente, condoeu-se de suas feridas, ofertando-lhe a cura.

Ao realizar o terceiro benefício, aconteceu o inesperado: a pedra transformou-se numa nuvem de fumaça e, em meio a esta nuvem, a fada - vista no sonho que tivera logo ao achar a pedra - surgiu, dizendo: 
- Usaste a Pedra da Felicidade. O que me pedires, para ti, eu farei. Antes, devias fazer o bem aos outros, para mereceres o atendimento de teu desejo.
Por que demoraste tanto tempo em usá-la?

O homem ficou muito triste ao entender o que se passara.

Tivera em suas mãos, desde sua juventude, a oportunidade de construir uma vida plena de felicidade, mas, fechado em seu desamor, jamais pensara que fazendo o bem aos outros colheria o bem para si mesmo.

Lamentando o seu passado de dor e seu erro em desprezar os outros, pediu comovido e arrependido:

- Dá-me, tão somente, a felicidade de esquecer o meu passado egoísta.

ilustração: freepik

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Cântigo Negro


José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"


Related Posts with Thumbnails